
Capítulo 549
Re: Blood and Iron
Palácio de Inverno do Tsar, São Petersburgo, Rússia, 1931. Elsa estava sentada perto da janela, pintando a paisagem lá embaixo. E seus filhos brincando na relva. A vida tinha sido extremamente tranquila e prazerosa desde seu casamento e sua mudança para o Império Russo.
Alexei estava sendo preparado para ser seu sucessor. Uma falha que Nicolau não pretendia repetir de sua própria formação. E o Tsar até havia solicitado a Bruno uma lista de materiais que ele recomendasse.
Bruno, tendo elaborado um currículo extenso de leituras necessárias para governar uma nação e conduzir uma campanha de guerra, tudo mais filosófico e instrutivo do que propriamente doctrinal, enviou a lista que utilizava como material para a educação de seus próprios filhos.
Assim como a forma como lidava com as discussões com eles, ensinando-os a pensar, não o que pensar. Certo que Alexei já era adulto e tinha começado a aprender as bases para a liderança há muitos anos.
Mas seu pai estava ficando mais velho, assim como Wilhelm na Alemanha, e ampliar seus preparativos para se tornar um futuro monarca mais adequado era uma etapa necessária para a continuidade da prosperidade do Império Russo e de seu povo.
Quanto a Elsa, ela não fazia política, pelo menos não na mesma medida em que sua irmã mais velha, Eva, fazia em Berlim. Ela era mais como sua mãe nesse aspecto. A paz que seu marido precisava ao voltar da guerra, e as consultas sobre política nacional.
No seu tempo livre, continuava pintando obras-primas que fariam Monet e Van Gaugh chorarem de inveja. Hoje, porém, um visitante inesperado chegou. Ou melhor, vários deles.
Enquanto seus filhos brincavam no pátio, e ela estava no meio de concluir seu último projeto, uma voz familiar ecoou por trás dela.
"Ora, ora, ora... Se não é minha querida irmãzinha Elsa. Quanto tempo…"
Elsa olhou para cima e viu Eva de pé, exibindo uma expressão de orgulho na porta, o que fez a mulher imediatamente deixar suas tintas de lado e caminhar até a irmã mais velha, encarando-a com uma fachada de gelo.
"Princesa Eva, não esperava por você. Achei que neste horário ainda estivesse se recuperando dos lastimosos efeitos da festa de ontem à noite."
Eva olhou firme para a irmã, e então as duas começaram a rir enquanto se abraçavam.
"Você, seu salgadinho! Parece que estou dizendo que sou alcoólatra!"
Elsa sorriu ao abraçar a irmã mais velha.
"Senti sua falta…"
Eva retribuiu o gesto enquanto ficavam ali em silêncio por um tempo.
"Eu também…"
O reencontro emocional das duas irmãs foi interrompido por outra voz atrás delas. Participando da diversão, como tinha acabado de testemunhar um momento tão especial.
"O que vejo aqui? Uma relação Habsburgo na casa do Tsar? Que escândalo!"
As duas irmãs se afastaram num instante e olharam para quem tinha falado, vendo seu irmão na porta, sorrindo de modo charmoso, como um diabo encantador.
"Erwin, tira a cabeça do pântano, seu safado!"
O homem aproximou-se das duas irmãs e as abraçou. Enquanto isso, Elsa, ainda atônita, percebia algo imediatamente.
"Espere… O que vocês dois estão fazendo aqui?"
Eva ia dizer algo quando Erwin a interrompeu, girando o copo de vinho na mão enquanto falava.
"Vocês não sabiam? O Tsar nos convidou para uma visita. Pai e mãe também. Estão lá embaixo agora, discutindo algo terrível ou mais um motivo semelhante. Não entendo como vocês aguentam… Política é tão chata…"
Eva puxou a orelha do irmão mais novo com força, mas sem machucar.
"Seu, seu traquinas! Você é o herdeiro do nosso pai, e ainda não se interessa pelo negócio da família! Tenho certeza de que não é tão burro a ponto de não compreender o papel da nossa família no mundo! E mesmo assim trata sua posição como uma piada!"
Erwin, contraindo-se de vergonha mais do que de dor, como nunca tinha sentido desde criança, pediu misericórdia rapidamente.
"Desista! Desisto! Minha querida irmã Eva, por favor, poupe-me! Não sou páreo para sua fúria!"
Isso só pareceu provocar Eva ainda mais, que deu uma torcidinha leve em sua orelha.
"Fúria! Sou uma dama! Você acha que pareço furiosa pra você?"
Só Elsa riu das duas crianças, lembrando de seus tempos de juventude, crescendo juntas.
"Vocês dois são tão imaturos… Se eu não soubesse melhor, diria que ainda é 1910!"
1910… Quatro anos antes da grande guerra, o ano em que nasceu a segunda turma de filhos que seus pais começaram a criar.
Foi o último ano que os três estiveram juntos, sem responsabilidades reais, sem ameaças de guerra, sem o estresse de gerir setores inteiros do governo ou de serem treinados para isso.
O crepúsculo da inocência deles, aquele comentário sozinho fez Eva e Erwin pararem na brincadeira infantil, todos ali sentados em silêncio, relembrando a juventude e um mundo que foi, mas que nunca mais poderá ser.
Finalmente, uma voz surgiu atrás deles.
"Lá estão vocês, todos três! Procurei por toda parte para encontrar meus filhos mais velhos. O que estão fazendo aí em cima?"
Bruno, de pé na porta, envelhecido mas não velho, marcado pelo tempo, mais pelas cicatrizes do destino do que pela crueldade de Chronos.
E ao olhar para seus filhos, que ainda carregavam a graça do envelhecer dos pais, não pôde deixar de sorrir.
"Vamos lá, a sua mãe está te esperando lá embaixo."
Bruno saiu do cômodo, dando aos filhos um momento para terminarem o que estavam fazendo.
E Elsa, a mais jovem, foi quem deu o passo à frente, levantando os bordados do vestido enquanto descia graciosamente a escada.
"Dever nos chama…"
Eva e Erwin ficaram se olhando em silêncio. Embora não tenham trocado palavras, os olhares compartilhados tinham o mesmo sentimento.
"Quando é que não é?"
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Josef estava ao lado de sua noiva, Sophie von Hohenburg, a filha mais velha e única filha do falecido Arquiduque Francisco Ferdinando.
Como seu irmão mais velho, Josef tinha se casado cedo. Era uma necessidade dinástica, já que Sophie era nove anos mais velha.
Por causa disso, apesar de ter apenas 21 anos, já era um veterano em se tornando pai, com uma pequena prole própria.
Observava o salão onde se reuniam a Casa Romanov e a Casa Zehntner, ou pelo menos suas principais ramificações. Até Bruno I, avô de Josef, estava orgulhoso na sala, vestindo um antigo uniforme de coronel prussiano da guerra de 1871, com as medalhas conquistadas nas linhas de frente.
O pai de Bruno já era bastante idoso… Estava na casa dos seus noventa anos. E, apesar da idade avançada — bem além do esperado para a época — ainda caminhava, embora com ajuda de uma bengala. A morte parecia ter perdido a paciência esperando pelo velho veterano, e por isso Bruno ainda não era o chefe absoluto de sua casa.
Porém, uma lei havia sido decretada anos atrás, colocando Bruno, o mais novo, na linha de sucessão, considerando seu status de príncipe. Assim, Bruno era considerado o cabeça da família, embora de fato não ocupasse oficialmente esse cargo.
Por isso, só a linhagem de Bruno estava presente. Quanto a Nicolau, parecia satisfeito ao ver suas duas famílias — prósperas, saudáveis, numerosas — reunidas para uma visita de verão.
E ao perceber isso, aproximou-se de Bruno e falou em um tom baixo, ouvido só pelos dois.
"Parece que o futuro está garantido. Veja só: cavaleiros, príncipes, titãs de aço e chumbo reunidos aqui. Cercados de princesas e donzelas de virtude. Sem nós ao lado, eles vão se virar bem, não é mesmo?"
Bruno olhou para Nicolau. O olhar do homem era sério. Ele juntou os pontos do que o outro pensava.
"Quão grave é?"
A expressão de Nicolau ficou sombria, ele suspirou fundo e encarou Bruno.
"Os médicos dizem que me resta cerca de um ano de vida… Mesmo os tratamentos mais avançados contra o câncer que nossos cientistas desenvolveram não têm chance de me salvar. Por isso, reuni vocês aqui hoje. Claro que vocês perceberiam imediatamente…"
Bruno franziu o rosto. Sempre manteve uma distância respeitosa de figuras de importância histórica nesta vida, achando-as dignas de tal respeito e cortesia.
Mas Nicolau e Wilhelm sempre tentaram se aproximar como um amigo de verdade.
Ele raramente retribuía, até recentemente, quando começou a entender que suas mortes estavam próximas. E parecia que a de Nicolau tinha chegado mais cedo do que Bruno imaginava.
"Nicolau… sinto muito… Acho que é tarde demais para dizer isto agora, mas eu deveria ter aceitado suas ofertas de amizade muito antes. Você sempre me tratou com dignidade, respeito e verdadeira gentileza. E eu me comportei de forma demasiado formal, como achava que era meu dever. Prometo que seu filho terá meu amor e minha proteção, assim como tenho feito com você ao longo de todos esses anos…"
Nicolau sorriu de forma amarga. Não era a resposta que esperava, e certamente tinha vindo tarde demais, quase de modo cômico. Mas, nessa amargura, havia uma felicidade genuína enquanto ele colocou a mão no ombro de Bruno em um gesto de aceitação.
"Tudo bem, meu amigo. Agora vou para Deus…"
Ele fez uma pausa, olhando para Bruno Sr., que permanecia orgulhoso ao lado do Tsarevich Alexei — contando ao jovem herdeiro histórias de campos de batalha distantes e de uma era de bravura há muito passada.
"E se a morte finalmente decidir lutar com seu pai," disse Nicolau com um sorriso de canto, "vou tomar uma bebida com ele no paraíso. Contarei tudo sobre o homem que você se tornou. O homem em quem todos confiamos até o fim."
Bruno ficou sem palavras.
Nicolau deu um passo para trás suavemente, suas palavras como o aroma de incenso após uma liturgia. Ele olhou para trás uma última vez, sua voz cheia de uma ternura que desafiava a gravidade do destino:
"Vamos lá, Bruno. Não fique tão triste. Tenho vivido uma boa vida nesses vinte e tantos anos — graças à sua amizade. Seja feliz por mim. A morte vem para todos, e eu quero encontrá-la sem arrependimentos."
E então… silêncio.
Bruno permaneceu ali, de pé, depois que o Tsar se afastou para fazer seu anúncio final. Nem ouviu as palavras nem percebeu a onda de choque e tristeza que se seguiu.
Ele apenas fixou o olhar na taça de vinho…
Como se suas profundezas fossem infinitas.