
Capítulo 518
Re: Blood and Iron
O chefão da máfia de Nova York, conhecido simplesmente como "Senhor Fritz", identificou Bruno imediatamente assim que o homem se sentou à sua frente. Dizer que quase se sujou ao contactá-lo não era exagero.
Seus olhos revelavam o medo que lhe subia pela garganta, sufocando-o enquanto lutava para respirar.
Bruno, por outro lado, estava frio, indiferente. Sabia exatamente o que fizera com aquele homem na Alemanha, assim como com outros semelhantes a ele. E seu gesto de olhar ao redor do ambiente denunciava esse mesmo sentimento.
"Vocês, seus tipos, nunca mudam de verdade, né? Quer dizer, você foi um dos sortudos… Os outros, como aqueles de quem tirei este anel? Bem, eles estão cumprindo múltiplas penas de prisão perpétua, ou descansando em paz nos nossos cemitérios, não é? E aqui está você, mesma merda, destino diferente. Repugnante..."
Bruno tirou a luva e exibiu o anel. Não era dele — uma taça. Um roubado daquele homem ao qual o Senhor Fritz já tinha prestado reverência na Berlim antiga.
A Feldgendarmerie tinha arrancado o dedo e o anel numa prisão brutal. Se foi brutalidade policial ou apenas um "acidente" na hora da prisão, pouco importava. Para Bruno, não fazia diferença.
Mas, para o Senhor Fritz, ele olhava para uma relíquia que pertencia a um fantasma. Um amigo próximo. E cuja execução foi a razão de sua travessia pelo Atlântico.
Quando recebeu aquelas metralhadoras da pátria, nunca pensou que estivesse comprando diretamente do homem que destruíra sua casa, sua vida. Somente ficou ali em silêncio, ciente de que aquele homem na sua frente era verdadeiramente intocável.
Na verdade, ele suspeitava que Bruno estivesse ali para colocar um tiro na sua cabeça. Mas, ao invés disso, Bruno sinalizou para uma das garotas que cuidava do bar.
"Seja uma princesa, e traz pra mim e pro meu irmão de anel dois dedos, pode ser, querida?"
Apesar de desprezar todo aquele lugar e todos que nele estavam, Bruno ainda desempenhava o papel que lhe fora dado, e por isso sua fala não refletia suas verdadeiras emoções.
Na verdade, sua fachada era habilmente construída, seu dialeto? Puro Nova York, ao falar de uma forma que surpreendia até o Senhor Fritz. Depois de receber as bebidas, Fritz mandou a bartender embora também.
"Dorothy, vai cuidar dos outros, tá? Eu me viro com o resto..."
A bartender não percebeu o nervosismo nos olhos de seu empregador e rapidamente seguiu ordens. E, enquanto ela se afastava, Fritz não pôde deixar de suspirar e balançar a cabeça, deixando escapar o que seriam seus últimos pensamentos.
"Vou sentir falta de olhar praquela bunda..."
Bruno bufou ao ouvir essas palavras, bebendo sua whisky de uma só vez.
"Você acha que vim aqui pra te matar, e essas? Essas são suas últimas palavras? Você é péssimo em morrer, sabia?"
Fritz não respondeu, quis deixar sua declaração registrada, e quando Bruno meteu a mão na jaqueta, ele achou que iria acontecer, até que, ao invés de puxar uma arma, Bruno tirou uma foto.
O dedo do homem apontou para o retrato e depois o balançou várias vezes, insistente.
"Você expandiu pra Chicago, né?"
A pergunta de Bruno foi chocante, assim como o rosto na foto à sua frente. Mas o Senhor Fritz não titubeou ao falar.
"Sim, claro. Por quê... Você quer Capone morto?"
Era 1924… Um ano antes de Al Capone realmente se tornar uma lenda. Mas Bruno? Ele se lembrava. E por isso, não permitiria que aquele homem construísse sua fama no crime.
"Seus palavras, não minhas..."
Estava claro pelo jeito que Bruno falava que aquilo não era uma recusa à proposta, mas sim uma confirmação. E, por isso, o Senhor Fritz não pôde deixar de pedir mais detalhes sobre a missão que lhe estavam encarregando.
"Não entendo… Você quer esse cara… aposentado… Mas não eu? Foram vocês que mudaram de ideia quanto ao nosso modo de vida?"
Bruno suspirou, deu de ombros e explicou a realidade da sua situação.
"O que você faz aqui do outro lado do Atlântico é problema seu. Mas um amigo meu pediu ajuda pra lidar com tipos como vocês. E, olha só, aqui não é a pátria. Lá, usar o exército para combater dissidentes e criminosos é comum, especialmente em tempos de guerra."
Bruno então se reclinou na cadeira, ainda encarando o chefão da máfia, enquanto continuava falando.
"Não, os Estados Unidos não são um país civilizado. São… Caóticos. E, por isso, se você quer manter a ilusão de segurança em uma sociedade por essência instável, precisa fazer pacto com o diabo.
Se você se pergunta por que eu te dei tanta arma, é simples: quero que elimine seus rivais de uma costa à outra, e que concentre o poder no submundo do crime americano. E aí? Fique na sua, silencie-se…
Os civis não precisam saber que você ou sua organização existem, depois que não tiver mais ninguém pra atrapalhar. Mantenha tudo limpo e o crime entre vocês. A única coisa pior que crime organizado é crime desorganizado. Então, mantenha-o organizado, entendeu?"
O Senhor Fritz entendeu imediatamente o que Bruno queria dizer. Nos Estados Unidos, havia muitas proteções para os criminosos. O governo não podia simplesmente usar o exército e a polícia para exterminar máfias.
Mas poderiam, de forma não oficial, consolidar a Máfia Alemã como o único grande players no jogo, usando-a como um porrete contra possíveis criminosos dentro das comunidades onde atuavam.
E, ao perceber isso, Fritz passou a temer Bruno muito mais do que antes. Pegou a foto, afastou-a das mãos de Bruno, examinou bem o alvo, e depois incendiou o folheto com seu charuto.
"Tudo bem… Diga ao seu amigo que aceitamos o trato. Vamos cuidar da concorrência e, a partir de agora, fazer tudo na surdina. Pode contar comigo."
Bruno não esperou mais nada. Levantou-se, colocou seu fedora na cabeça, e saiu do bordel. Quanto mais rápido se livrasse daquele lugar, tomasse um banho quente, melhor se sentiria.
Ao sair, Bruno e seus homens deixaram Fritz para trás, que imediatamente se jogou na cadeira, cobriu o rosto com seu chapéu, quase como se estivesse tentando esconder sua própria voz.
"Jesus amado, que merda..."
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Naquela noite, Bruno ligou para o Presidente dos Estados Unidos do seu quarto de hotel. Demorou um pouco, pois era bem mais tarde do que ele tinha hábito. Mas, por fim, ouviu a voz familiar atender a outra ponta da linha, e tomou rapidamente o controle da conversa.
"Senhor Presidente… Sou homem de palavra… A última peça do quebra-cabeça está em movimento. Seu pequeno problema será resolvido com o tempo. Seja paciente, e verá resultados em breve."
Sobre a outra questão, se fosse você? Consideraria essa eleição uma oportunidade de refletir e, quem sabe, até se aposentar da política com orgulho.
Foi um prazer trabalhar com o senhor nesses últimos anos, e, se me surpreender nesta novembro, aguardo a oportunidade de estender nossa cooperação quando precisar. Até lá, tenha uma boa noite…"
Bruno desligou o telefone, apoiou completamente a cabeça no travesseiro abaixo, e dormiria sem qualquer sinal de inquietação, mesmo sabendo o que aconteceria em Chicago.
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As notícias correram pelas linhas de comunicação, e as pessoas foram acionadas. Capone estava praticamente morto, mas nem ele nem seu bando, o South Side Outfit, tinham consciência disso. Atualmente, Capone era o número dois, o tenente de Johnny Torrio.
Mas, na realidade, ele era quem comandava os bastidores, mesmo que os jornais ainda não mencionassem seu nome. Mas, numa noite como aquela? Só podia estar num lugar: em um prostíbulo local, visitando sua garota favorita. Ela pulou em cima dele. E, enquanto ele sorria, distraído e sem perceber, ela enfiou a mão na meia e cravou uma faca no seu pescoço.
Al Capone morreu sangrando como um porco ferido, nu e coberto de seu próprio sangue. Sua expressão era de choque total. A morte veio na forma mais inesperada.
Assassinada por uma prostituta que devia muita grana para Fritz e seu bando. Um dos mafiosos mais temidos da história dos EUA, eliminado antes mesmo de se tornar uma lenda.
E o pior de tudo: os jornais nem cobririam o acontecimento. Mais um cadáver sem nome nas sarjetas de Chicago.