
Capítulo 502
Re: Blood and Iron
Pétain estava sentado em frente a Bruno em um local não revelado dentro da cidade suíça de Zurique. Os dois não poderiam ser mais diferentes. Pétain já envelhecia e vestia-se de maneira exagerada, como se fosse a personificação da "excelência marcial" francesa do século XIX.
Ele era orgulhoso, cheio de confiança, arrogante até. Era possível perceber isso pelo sorriso altivo e pelo bigode espesso que se projetava acima dele.
Bruno, por outro lado, chegou trajando um terno social de três peças. Não estava ali como homem de guerra, mas como diplomata do Reich. Embora tivesse 40 anos, parecia uma década mais jovem, mas seus olhos de um azul intenso carregavam duas vidas de sabedoria, acompanhadas de algo que refletia humildade.
Bruno foi o primeiro a quebrar o silêncio, deixando clara sua intenção.
"Falando bobagem, a única razão de eu ter concordado em nos encontrar é porque você é o maldito que tomou Paris e transformou minha vida no inferno em que ela se tornou."
Bruno sorriu ao ouvir isso, respondendo à "poupança" de Pétain com uma reação desinteressada.
"Tecnicamente, meu bom amigo, o Generaloberst Heinrich Graf von Koch foi quem comandou o 8º Exército e cercou Paris, mas eu cheguei na hora certa para negociar a rendição."
Pétain olhou com total desprezo para Bruno. Todos sabiam que Bruno tinha recebido o controle do teatro de guerra e da invasão. Heinrich pode até ter liderado o exército que chegou primeiro, mas respondia a Bruno, que elaborou a estratégia que levou à derrota da França.
Mesmo assim, Pétain não teve coragem de contestar essas palavras. Em vez disso, foi rápido em exigirse um ponto para a discussão.
"Certo. Faça do seu jeito. Independentemente de quem leva o crédito... pelo menos agora, que estou aqui do lado de cá da fronteira, pode me explicar por que me chamou para essa reunião clandestina?"
Bruno ficou calado por um instante, talvez criando um efeito dramático para que suas palavras fossem mais impactantes, mas quando falou, Pétain pensou inicialmente que não tinha ouvido direito.
"Tem muita arma antiga sobrando que o Exército Alemão, ou mais precisamente suas reservas, não têm mais utilidade."
"Quero doar esses armamentos às suas forças e dar a eles a oportunidade de acabar de vez com os outros senhores da guerra. Ou, mais exatamente, quero que pareça que você aceitou o presente generoso da Alemanha. Assim, eles poderão vir aqui, a Zurique, e negociar o fim dessa bobagem de uma vez por todas…"
Pétain ficou chocado com as palavras de Bruno e, por um momento, achou que não estava entendendo direito. Quando prestes a pedir esclarecimentos sobre se tinha compreendido a intenção de Bruno, o próprio homem se adiantou a explicar.
"Aposto que agora você está se perguntando se me ouviu corretamente, e sim, ouviu. Deixe-me esclarecer uma coisa bem claramente. Tenho assistido vocês, idiotas, lutando e se matando na minha porta há quatro anos."
"Estaria mentindo se dissesse que ver vocês destruindo sua civilização não tem sido um pouco divertido, mas, vamos lá, já são quatro anos. Chegou um ponto em que até vocês, franceses, têm que admitir que não há mais nada digno de luta."
Pétain primeiramente achou que as palavras de Bruno eram nobres, mas logo suas expressed caíram em ceticismo conforme ele ouvia. E, ao final da fala, não conseguiu deixar de comentar.
"Então você acha que somos um incômodo, é isso? É essa sua justificativa para me ajudar a acabar com essa guerra e unificar a França?"
Bruno manteve a expressão impassível, falando em tom completamente sério.
"Bem, e, se for honesto, o custo de garantir uma segurança adequada na fronteira que compartilhamos com vocês é absurdo. Prefiro que vocês se ajeitem aí para que não precisemos ficar pagando essa conta todo ano."
"Mas, sim… Em essência, a França virou um incômodo, e quero que a violência cesse. Então, vou dar o respaldo — pelo menos no papel — para intimidar seus rivais remanescentes a se ajoelharem diante de você. E, se não fizerem, bem, acho que vou ter que te emprestar minhas brinquedagens agora, não é?"
Ao longo dos anos, Pétain ouvira falar bastante de Bruno, de várias fontes diferentes. Mas nunca imaginou, depois de conhecê-lo, que aquele fosse o modo como ele agiria. Bruno falava com ele como alguém repreende uma criança que se comporta mal. Era assim que ele se dirigia a Pétain, que, no momento, era considerado o líder mais legítimo entre os muitos “líderes nacionais” autoproclamados da França.
E quanto mais Pétain percebia que estava lidando com um homem que o via como alguém com menos autonomia ou poder do que um verdadeiro garoto, mais internalmente frustrado ele ficava.
Porém, não podia explodir… Não ali… Não agora… Não na presença de Bruno. Fazer isso seria desastroso para ele e para a França. Não… Tudo o que podia fazer era ficar ali, em silêncio, se controlando até conseguir reagir com calma, e então responder.
"Aceitarei qualquer ajuda que você estiver disposto a oferecer, desde que me ajude a atingir meus objetivos. Não me importa muito qual seja a sua motivação. Mas também sei que sua palavra vale ouro…"
"Acho que podemos dizer que temos um acordo. Você prefere em papel ou vamos fechar por aperto de mãos?"
Bruno levantou-se, ajeitou-se e estendeu a mão com um sorriso que deixou Pétain profundamente desconfortável, por razões que nem ele mesmo conseguia explicar. Tudo o que ele sabia era que, ao apertar a mão de Bruno, e ao ouvir suas palavras, sentiu como se tivesse cometido um grande erro.
"Ainda é cedo demais para redigir acordos formais por escrito. Vamos apenas fazer um acordo de cavalheiros, sob pena de desonra formal e perda de dignidade pessoal, ok?"