
Capítulo 543
Re: Blood and Iron
O ar precisava estar frio, mas queimava como fogo.
Não era o fogo da guerra, mas algo mais antigo, mais profundo: a chama da fúria justa, aquele tipo que só permanecia acesa em quem tinha sido humilhado por muito tempo, negado seu destino por tanto tempo.
Quase uma década havia passado desde o fim da Guerra Civil Francesa. As ruas da França carregavam cicatrizes tanto de botas estrangeiras quanto de vergonha nacional.
Mas finalmente, elas voltaram a ecoar, não com desespero, mas com propósito.
Uma multidão se reuniu ao pé da Place de la République, estendendo-se desde os degraus da Assembleia Nacional destruída até a sombra do contorno de Notre-Dame.
Francêses de todos os cantos da nação fraturada haviam vindo ouvir o homem cujo nome, outrora, era apenas um murmúrio nos corredores do exílio.
O General Charles de Gaulle estava no alto de uma plataforma improvisada, a tricolor tremulando atrás dele ao vento gelado.
Soldados da Milícia Galliana e do Réveil de France, que não traziam lírios realistas nem insígnias do exército colaboracionista de Pétain, rodeavam a multidão como sentinelas silenciosas.
De Gaulle não sorriu. Não ergueu as mãos em sinal de cortesia. Ele falou.
"Cidadãos da França. Filhos da Gália. Patriotase de uma mãe Terra traída e destruída."
A voz era áspera, cansada. Endurecida pelo exílio e pela guerra. Mas atravessava a espaço com uma nitidez incomum.
"Hoje, acabamos com uma mentira."
Suspiros percorreram a multidão. De Gaulle prosseguiu.
"Por quase uma década, uma farsa foi coroada como a França. Marechal Philippe Pétain, que já foi soldado, agora é um cães de Berlim, fugiu desta terra como uma rata, quando a peso de sua traição ficou claro. Ele se dizia servo do povo. Eu o chamo pelo nome do que é: um covarde."
Gaspes foram ouvidos. Alguns gritaram afirmações. Mais se juntaram.
"Ele vendeu nossa dignidade ao Império Alemão em troca de segurança pessoal. Entregou nossas terras e se curvou ao Reich como se não fôssemos mais uma nação soberana, mas uma propriedade a ser entregue de um tirano a outro."
De Gaulle fez uma pausa, deixando o silêncio cair como neve.
"Mas isso acabou."
Ele levantou uma mão, e atrás dele, o véu caiu. Uma bandeira enorme se desenrolou: um tricolor limpo com um número audacioso bordado no centro — V.
"Hoje, pela vontade do povo francês, pelo sangue de nossos mártires e pelo mandato da história, proclamo o nascimento de uma Nova França. A verdadeira França."
Um rugido reverberou pela multidão.
"Declaramos o fim da falsa república; do regime de covardia, traição e compromisso. Enterramos isso com as cinzas de Versalhes, com a imundície de Pétain, com o fedor da submissão. Em seu lugar, erguemos a bandeira da Quinta República!"
Trombetas estalaram. Artilharia roncou do outro lado do Sena. A Torre Eiffel se iluminou com ondas de vermelho, branco e azul.
De Gaulle avançou, com os olhos frios e visionários.
"Sob esta nova república, não haverá mais humilhação. Não mais ocupação. Não mais fronteiras desenhadas por covardes estrangeiros em palácios do outro lado do canal ou do Reno. A França será indivisível, soberana e orgulhosa mais uma vez."
A multidão avançou como uma onda. Veteranos jogaram seus bonés ao ar. Mulheres choraram. Crianças gritavam o nome: "De Gaulle! De Gaulle!"
"Reivindicaremos tudo o que foi roubado. Não só terras; mas nosso orgulho! Nosso legado. Nosso direito de nascença. A Revolução de 1789 pulsa novamente em nossas veias. Mas desta vez, empunhamos não apenas ideais, mas aço."
Ele fez uma nova pausa, e desta vez seu olhar se voltou às câmeras que transmitiam a república em recuperação.
"A nossos aliados no exterior, saibam disto: a França volta não como uma mendiga, mas como um leão. Aos nossos inimigos: vocês achavam que estavam acabados. Mas somos franceses. Não morremos. Resistimos. Persistimos. Voltarão."
Ele desceu do palco, e o silêncio permaneceu por um instante antes que a multidão explodisse em cantos de celebração. A Quinta República não teve uma votação formal, nem nasceu no parlamento. Foi forjada, como a primeira, no fogo.
Qual foi o primeiro ato da nova república? A prisão in absentia do Marechal Philippe Pétain por traição.
O segundo? Um dia nacional de luto pela França que fora.
E o terceiro?
Uma decreto.
"A França ressurgirá. E o mundo tremerá quando ela o fizer."
Assim começou o ressurgimento.
Assim começou a marcha.
Enquanto isso, Henri d'Orleans observava na multidão, apenas mais um cidadão. Sacudindo a cabeça com pesar.
"Os pobres tolos... Ainda não percebem a ira que estão invocando contra todos nós."
Era um sentimento silencioso, compartilhado por muitos. Entre as multidões que vibravam e as bandeiras levantadas da nova república, estavam aqueles que compreendiam o significado das palavras de de Gaulle.
Uma geração de homens havia lutado, sangrado e morrido nas trincheiras da grande guerra, e os que vieram depois, na guerra civil subsequente.
Mas as gerações mais velhas ainda recordavam a loucura da Terceira República, que se recusou a se curvar, a render-se, a submeter-se, mesmo quando tiveram que armar crianças para defender Paris.
Uma batalha nunca travada, não porque tivesse realmente funcionado para impedir o inimigo de atacar, mas porque os alemães já haviam avançado além de táticas primitivas.
Ao contrário, optaram por cercar a cidade com fogo e ameaçar queimá-la até virar cinzas, se a República não se rendesse.
Mesmo com toda a história e o patrimônio de sua nação em jogo, os políticos que ainda não haviam fugido deixaram as periferias queimarem antes que a racionalidade finalmente prevalecesse e a bandeira branca fosse hasteada.
Não foi surpresa que, ao testemunhar tudo isso e entender que os alemães estavam em um período de paz para expandir e fortalecer-se enquanto a nação sangrava, muitos das gerações mais velhas não vissem com bons olhos a proclamação.
Sabiam que os jovens os arrastariam para uma nova guerra que não poderiam vencer. E, quando isso acontecesse, que Deus tenha misericórdia de todos eles. Que Deus tenha misericórdia da França.