Re: Blood and Iron

Capítulo 459

Re: Blood and Iron

Enquanto Bruno e Nicholas discutiam questões de importância estratégica, seus filhos tinham saído para aproveitar um ambiente mais descontraído. Livros e segredos foram trocados por chá e biscoitos.

E, pela primeira vez, desde que Elsa e Alexei começaram a se aproximar, no tradicional baile de paquera, o gelo, por assim dizer, havia sido realmente quebrado entre eles. Afinal, Elsa revelou, parada no corredor com seu pai, que ela era mais do que uma boneca de porcelana — ela era uma pessoa de carne e osso.

Levara mais tempo do que gostaria para ela se sentir confortável o suficiente para conversar com Alexei do jeito que fazia com os próximos. E, se fosse honesta, era só por causa das circunstâncias — involuntárias, mas apreciadas — que ela foi obrigada a agir assim.

Ela sorriu com a graça de uma fada, aceitando o chá que Olga e suas irmãs lhe serviram, enquanto ouvia ansiosamente histórias do tempo de seu pai na Rússia e como isso tinha influenciado a Casa Romanov. Normalmente, poderia ser considerado má educação perguntar tão abertamente sobre um parente em um momento de cortejo adequado.

Mas os Romanov adoravam Bruno, especialmente a geração mais nova. Os sentimentos de Olga eram bem conhecidos. As irmãs dela o admiravam. E Alexei — via Bruno como um exemplo a ser seguido, embora conhecesse apenas a versão padronizada transmitida pela propaganda, não a encarnação sombria da guerra que surgira das trincheiras.

Peladas as histórias contadas por Alexei — muitas das quais eram mitos canonizados como verdade — Bruno parecia uma figura quase angelical: o salvador que impediu o surgimento do maior mal que as inclinações mais perversas da humanidade já deram à luz: o bolchevismo.

No entanto, Elsa sabia que era melhordo que isso. Ela compreendia seu pai mais profundamente do que talvez qualquer pessoa, exceto sua mãe e os irmãos com quem Bruno havia lutado. Era fácil perceber que as histórias eram bastante embelezadas, verdades parciais misturadas com grandiosidade e simplificações agradáveis à digestão.

Ela via isso na reação do pai às palavras de elogio: não com orgulho, mas com uma tristeza pesada, oculta. O homem que ela conhecia carregava fardos terríveis desde este país — fardos que ainda pesavam sobre ele, mesmo agora.

E, por isso, Elsa sentia uma amargura.

Uma parte do coração de seu pai morreu aqui na Rússia. Ele deu tudo — por estranhos, por uma dinastia, por milhões de vidas que ele não tinha a obrigação de salvar. E, embora Elsa o adorasse com todo o seu coração, não podia negar que desejava que ele tivesse uma vida mais simples — livre das cicatrizes que agora carregava.

Não é que ela achasse Bruno como um pai inadequado. Muito pelo contrário: ela nunca trocaria ele por outro. Talvez até lutaria com todas as forças contra a ideia de uma realidade assim imposta a ela. Mas ela lamentava o pai despreocupado que poderia ter sido, se a história tivesse permitido.

No entanto, era uma certa espécie de alívio finalmente descobrir uma fração da verdade. E, com isso, seu lugar na decisão agora fazia todo sentido.

A Rússia um dia seria sua casa. Mas ela não tinha medo de deixar a Pátria. As viagens tornaram-se rápidas — no máximo, um dia de trajeto. E, quando chegasse a hora de fazer seus votos com Alexei na Catedral de Pedro e Paulo, ela o faria sem medo.

Após uma longa conversa que derreteu as últimas linhas da fachada de gelo de Elsa, ela agradeceu a hospitalidade de Alexei e de suas irmãs. Logo, ela e seu pai embarcaram na aeronave, preparados para voltar para casa, na Tiroleza.

Enquanto o avião se preparava para decolar, Elsa segurou firme o braço do pai. Bruno, com a cabeça ainda aquecida pela vodka, olhou para ela e interpretou o aperto forte como medo.

"Já te disse antes", falou suavemente, "que fica mais fácil. O tempo tem uma maneira estranha de fazer isso."

Mas Elsa balançou a cabeça. Seus olhos azuis fixaram nos dele, brilhando com uma compreensão súbita e profunda.

"Não é isso", sussurrou. "Acho que finalmente percebi o sacrifício que você fez aqui — o preço que pagou — as coisas que teve que fazer. Tudo por pessoas que não tinha obrigação de proteger.

Papai... se os vermelhos vierem atrás de mim, ou do Alexei, ou da nossa possível família no futuro... você—" ela hesitou, a voz tremendo, "—você condenaria milhões para nos proteger também?"

Bruno ficou atônito. Nenhum de seus filhos tinha falado com tanta coragem até então. E, de todos, ele certamente esperava que fosse a Eva ou o Erwin quem fizesse uma pergunta dessas. Jamais imaginaria que sua filha mais reservada e pensativa fosse fazer uma questão assim.

Mas ela fez. Nunca antes ela tinha visto de forma tão nítida a sombra empapada de sangue que pairava sobre a alma de seu pai. E ela precisava saber se o preço valia a pena, no final das contas. Mesmo que isso o enfurecesse.

Talvez fosse a vodka. Ou talvez fosse algo mais. Mas, pela primeira vez, Bruno deixou de lado a máscara. Seu olhar ficou mais duro — aço sob veludo — e sua voz se tornou fria como uma tumba.

"Por você, minha garotinha... preferiria queimar o mundo do que permitir um futuro assim."

Depois, como se se desse conta do peso de suas próprias palavras, ele suavizou. Cuidadosamente, bagunçou o cabelo platinado da filha, forçando um sorriso irônico ao fazer isso.

"Vamos deixar as coisas sombrias de lado. Não faz bem pra cabeça — nem pra alma, aliás."

Virou o rosto para a janela, observando enquanto o Palácio de Inverno e São Petersburgo ficavam cada vez menores lá em baixo. Bruno não percebeu a expressão que sua filha usava. Não era horror. Nem medo ou desprezo. Elsa apenas apertou o braço dele com mais força, fechou os olhos — e sorriu.

Porque, independentemente do que o mundo pensasse dele, para ela, Bruno era — e sempre seria — o guardião que ficava entre ela e a tempestade. Ela nunca esqueceria as palavras que ele falou naquele dia, nem ele, certamente, esqueceria.

Um pacto solene. Uma promessa de proteção eterna. E a ruína que o mundo sofreria se ele algum dia falhasse em seu dever de pai.

Comentários