
Capítulo 445
Re: Blood and Iron
Os Jogos Olímpicos e a dominação da Alemanha nessas olimpíadas tiveram um efeito igualmente retumbante em todo o mundo, pois sua vitória esmagadora na Grande Guerra tinha ocorrido dois anos antes.
A Alemanha não era mais apenas um Estado industrial altamente militarizado… Não, era um império que reinava absoluto e soberano tanto em tempos de guerra quanto de paz. E aqueles atletas que conquistaram suas medalhas, independentemente do metal — ouro, prata ou bronze — eram apresentados como heróis nacionais.
Se soldados e generais como Bruno eram exaltados como os homens que defenderam a pátria dos bárbaros à porta, esses atletas eram reverenciados com o prestígio e o carinho reservados aos guardiões da cultura.
Entrevistas de rádio, anúncios em jornais, panfletos de propaganda espalhados pela cidade, homens e mulheres que trouxeram o ouro, prata e bronze para quase todas as competições, estavam por toda parte.
Lucro tinha que ser feito com a fama deles, e não se engane: esses atletas estavam entrando nessa, dentro de limites legais, é claro. Ainda assim, os atletas mais comentados eram os boxeadores, kickboxers e lutadores alemães. Claro, esgrimistas, arqueiros e atiradores também tinham seu destaque, especialmente acima das outras modalidades não relacionadas ao combate.
Porém, poucos esqueciam a maneira como os filhos da Alemanha tinham triturado a concorrência com não apenas brutalidade e resistência, mas também com elegância e precisão. Eram homens que ficavam na frente de seus adversários, totalmente incapazes de serem atingidos, enquanto devolviam seus golpes de uma maneira quase imperceptível para quem lutava contra eles.
Era um testemunho de evolução, não só do corpo e da mente desses lutadores, mas também do estilo e da técnica. Em 1918, o boxe e a luta livre eram rudimentares, improvisados, trocando golpes à moda de porrada, até ver quem sobrevivia ao final.
Mas o programa de esportes de combate da Alemanha? Isso era coisa de Bruno — a modernidade nunca tinha visto nada assim. O esporte tinha se transformado de sua forma bárbara inicial, que lembrava Lethwei quando Bruno o introduziu nos anos 1900, para um estilo totalmente moderno de regras, semelhante ao K-1, que obrigava os atletas a usarem proteção adequada, como luvas de tamanho e classificação corretas, protetores bucais e coquilharas.
O kickboxing foi fortemente divulgado na imprensa, na sua versão moderna, que foi criada na Alemanha e integrada às Olimpíadas de 1918, sendo uma invenção do país. Seus lutadores formavam um arquétipo especialmente temível da infame Escola Holandesa, que Bruno conhecia de sua vida passada.
Combinando poderosos chutes baixos e nas pernas com as mãos, sempre buscando uma vitória por nocaute agressivo com o corpo superior. Arrasaram a concorrência, na qual apenas lutadores tailandeses tinham alguma resposta, e mesmo assim, as regras tradicionais tailandesas eram limitadas pela falta de cotoveladas e pelo combate de clinch pesado, proibido pelo Comitê Olímpico.
Atualmente, os medalhistas de ouro das diferentes categorias de Kickboxing posavam para fotos ao lado de figuras influentes do Reich alemão. Os principais eram Wilhelm, Bruno e Franz Joseph. Cada um vestindo traje civil, mas com suas maiores medalhas penduradas no peito.
Apesar de ter criado uma nova ordem de cavalaria para o Grande Principado do Tirolo, e seus cidadãos mais ilustres, Bruno não se premiou com a Ordem do Leão Tiroles. Era uma condecoração cujo nome vinha do novo título que lhe fora dado pelos amigos e rivais após assumir o domínio do Tirolo.
Bruno acreditava que só as medalhas que recebia de seus superiores, pelos feitos em batalha, tinham valor. Por isso, mesmo não sendo mais um nobre húngaro, ainda usava com orgulho a faixa e a insígnia da Ordem Real de São Estêvão de Hungria, da qual ainda era Grão-Mestre oficialmente.
Elas ficavam bem tanto com seu uniforme militar alemão quanto com seu magnífico sobretudo sob medida para eventos civis como aquele. Quando Bruno posava para fotos com os medalhistas de ouro do Reich, não conseguia deixar de ouvir um deles sussurrar, entre as fotos:
"Sabe, meu irmão deve a você a vida… Diz que a única razão dele estar vivo agora é porque na Itália você lhe deu o descanso necessário para manter a cabeça fria no dia seguinte, quando os italianos atacaram sua posição. E ele diz que fez isso ao tomar o seu lugar no patrulhamento à noite… Eu deveria estar te entregando essa medalha agora, como agradecimento."
Bruno sorriu para as câmeras, apertando a mão do homem, e, entre os flashes, falou o que sentia:
"Fiz o que qualquer líder deve fazer na batalha. Cuidei dos homens sob meu comando como se fossem meus próprios filhos. E, por cumprir meu dever como comandante, não espero agradecimento algum.
Essa medalha é sua por mérito, assim como essa faixa é minha. Você não deveria ser tão disposto a distribuir as recompensas do seu esforço, nem como gratidão, nem por dinheiro, e nem, com certeza, por amor de mulher, a não ser que a alternativa seja a ruína ou a pobreza."
"Seja orgulhoso do que conquistou, pelo seu esforço, sua família e sua nação. E diga mais nada, porque seu irmão e eu fizemos o mesmo na Itália. E duvido que ele queira que você dispense aquilo que ganhou por si mesmo, em nome dele."
"Agora, que tal, depois que essa festa ridícula acabar e a câmera tiverem ido embora, você ligar para seu irmão e os três saírem para tomar uma bebida? Gostaria muito de saber o que ele anda fazendo agora que a guerra acabou, e a vida dele voltou a ser dele."
O kickboxer ficou sem palavras com o que Bruno disse. Percebeu, pela intensidade com que Bruno falou e pelo convite que fez, que não estava falando por fingimento ou por publicidade — Bruno realmente queria uma chance de beberem juntos, como iguais.
Era algo tão absurdo que ele nem conseguia acreditar. Mas, no fundo, queria muito aceitar, e foi quase a dizer sim quando Bruno, de maneira prática, oficializou o convite para que ele não precisasse se envergonhar ou hesitar.
"Combinado então. Me procure depois que esses abutres tiverem dado o fora, que eu te levarei a um lugar com história. Tenho certeza de que você e seu irmão vão gostar."
Depois disso, Bruno se despediu, deixando o atleta completamente desorientado. Só mais tarde, ao ligar para o irmão mais velho e contar o que tinha acontecido, ele percebeu que Bruno não estava brincando — ele realmente aguardava seu retorno após o fim da propaganda do dia.