
Capítulo 366
Re: Blood and Iron
A França havia adotado medidas de defesa emergenciais para proteger suas fronteiras, sabendo que uma grande ofensiva era inevitável e só uma questão de tempo até começar. A mais brutal de todas era o recrutamento em massa.
Todo homem em idade adequada, capaz de ser convocado para o exército para defender as fronteiras, era chamado às armas. Enquanto isso, batalhões de “voluntários” formados por adolescentes, jovens o suficiente para portar armas, mas ainda não aptos a entrar no exército, eram reunidos, assim como os idosos ainda jovens o bastante para lutar.
O termo pejorativo “voluntold”[1] seria uma descrição mais precisa dessas milícias. De qualquer forma, a França fazia o possível para organizar, treinar e abastecer todos que pudessem ser mobilizados para sua defesa.
Em teoria, isso poderia servir como um dissuasor eficaz, ainda que fosse um esforço desesperado para preservar a república. Mas a realidade era bem mais sombria. Agora, o 8º Exército era a ponta de lança do Exército Alemão, e o 2º Exército havia sido reestruturado em uma unidade de guerra combinada similar. Essas duas forças passariam por qualquer defesa que a França pudesse organizar, quase sem dificuldades, e avançariam facilmente sobre táticas de onda humana.
Ao mesmo tempo, esses recrutas não tinham o treinamento, a experiência ou mesmo a força de vontade necessárias para resistir a um ataque tão brutal. A derrota era certa, sem sombra de dúvida. Por quanto tempo essas táticas poderiam atrasar essa realidade? E a que custo eles pagariam em baixas? Ninguém sabia.
Mas continuar assim certamente significaria a morte da República no final. Afinal, as famílias daqueles enviados à morte sem motivo justo clamariam pelo sangue dos políticos eleitos e dos burocratas não eleitos que os enviaram para um fim tão brutal.
No entanto, a realidade era que, de qualquer forma, a Terceira República Francesa estava condenada a cair nesta guerra. E nada, neste momento, poderiam fazer para impedir. Mesmo que a rendição fosse considerada, o dano à confiança do povo em seu governo atual era irreversível.
Em vez de aceitar essa realidade, os líderes franceses tentaram depositar todas as esperanças numa mobilização em massa, que acabaria tornando seu fim ainda mais miserable quando chegasse o momento de enfrentar a forca.
No momento, jovens franceses vestidos com roupas civis estavam sendo ensinados a manejar rifles dentro das fronteiras de Paris. Os mais novos tinham cerca de 12 anos, enquanto os mais velhos tinham aproximadamente 16.
Considerando suas condições, estavam equipados com rifles bem mais antigos, de gerações anteriores. O que era pouco ideal para suas estaturas menores, já que os calibres desses armamentos eram mais adequados para caçar grandes animais na Europa e América do Norte, e não para humanos.
*bang* uma fila de tiros foi disparada em rápida sucessão, não em uníssono, enquanto os meninos se deitavam no chão, em posição de tiro, sem sequer usar capacetes de aço, fazendo o possível para acertar os alvos espalhados a alguns metros à frente.
Diferentemente de lugares como os Estados Unidos, onde era comum jovens aprenderem habilidades de tiro em busca da caça, especialmente em áreas rurais, essas tradições eram bem menos comuns em países europeus, especialmente na França.
Por isso, esses meninos, com acesso restrito a suprimentos e menos recursos para o treinamento, apresentaram resultados compatíveis com suas condições. As balas dispararam de forma desordenada, atingindo os alvos aleatoriamente.
Um deles conseguiu acertar o centro do alvo. Se não fosse pelo fato de estar na mira de alguém que não era dele. Uma ação tão óbvia que recebeu uma reprimenda verbal do soldado francês que tentava orientar o grupo de crianças-soldado.
"Meu Deus, temos aqui um franco atirador de primeira! Parabéns, você acabou de matar um soldado alemão, em 1815! Seu baixinho imbecil! Acha que o inimigo vai ficar na fila com mosquetes para atirar em você? Isso não é a Batalha de Waterloo, seu idiota! Agora recarregue e tenta de novo!"
O menino era jovem, talvez 12 ou 13 anos, mas já estabanha suportando o tom rígido do instrutor por dias, e estava acostumado com isso. Ele puxou a culatra do Fusil Gras mle 1874. Que, ao extrair o cartucho gasto, não o ejetou completamente.
Em vez disso, precisou inclinar o rifle para que a gravidade fizesse o cartucho cair antes de colocar outro dos enormes cartuchos na câmara. Então, empurrou a culatra para frente e puxou o gatilho mais uma vez.
Mais uma vez, o disparo errou. O instrutor fez uma expressão de exasperação e desligou as armas, declarando que o treinamento daquele dia havia chegado ao fim, por desesperança.
"Deixem pra lá! Essa é a quantidade de munição que vocês têm para hoje. Vão treinar marcha, agora!"
Os meninos descarregaram rapidamente as armas, certificando-se de que estavam descarregadas, e depois levantaram-se, fazendo a saudação ao instrutor. Depois, correram para encontrar o próximo professor, que iria ajudar na marcha.
O instrutor, por sua vez, continuou a observar ao longe, onde os meninos tinham ido, puxou um maço de cigarros do casaco, acendeu um, e puxou uma tragada profunda, expulsando a fumaça lentamente.
Fez isso, e só depois, revelou seus pensamentos sobre a situação atual da Terceira República Francesa e seus habitantes.
"Parece que Paris vai se afogar em sangue antes que tudo acabe… A República morreu… Que venha o próximo governante…"
Depois de dizer isso, o instrutor virou-se e foi embora. Tendo visto tudo e feito o possível para garantir que os meninos pudessem ao menos se defender, mesmo com recursos limitados, decidiu que não ficaria para assistir à carnificina. E fugiu do país, abandonando sua posição na calada da noite no momento mais oportuno.
Esse sentimento já começava a se espalhar entre muitos soldados franceses, especialmente aqueles que estavam na guerra desde o começo e sobreviveram até aqui, tornando-se também um ato criminoso que passaram a praticar.