Re: Blood and Iron

Capítulo 382

Re: Blood and Iron

As consequências da Grande Guerra foram de efeito duradouro, globais até. Bruno havia mudado o destino de maneiras que agora eram reversíveis. Por mais que as três irmãs do destino tentassem redirecionar o curso do barco, era impossível fazer isso agora.

Com tudo o que foi feito, surgiram mais mudanças, o curso natural das transformações nos acontecimentos e o que se seguiu. A Alemanha pediu as colônias que os impérios britânico e francês possuíam na África, alinhadas com seu conceito de "Mittelafrika".

Inicialmente, o mundo pensou que o Reich alemão tinha feito isso para explorar seus recursos naturais, assim como fizeram a Grã-Bretanha e a França. Até que, poucos meses após o fim da guerra, o Kaiser veio a público com uma declaração chocante.

"Minha intenção é iniciar um processo completo e total de descolonização. O fato é que o Reich alemão e seu povo só se envolveram nessa empreitada dispendiosa como forma de combater as influências hostis dos impérios britânico e francês."

Mas… erros foram cometidos, e funcionários coloniais inconsequentes abusaram de seus cargos para vingar-se de populações nativas de forma desproporcional, indo muito além de buscar justiça pelos inocentes cidadãos alemães mortos por violência nativa irracional.

O fato é que o custo de manter o controle sobre as colônias e os riscos que isso representou para a segurança do Reich alemão são muito maiores do que quaisquer benefícios tangíveis obtidos como uma necessidade frente aos ataques aliados do passado.

Agora que controlamos vastos territórios na África, pretendemos iniciar um período de estabilidade e sustentabilidade, com autonomia para as regiões, em um estágio final de independência, de modo a atender aos interesses de todos.

Isso, é claro, inclui todas as possessões coloniais atualmente sob controle do Reich alemão. Afinal, a ideia de um império no exterior parece coisa do passado—pois já estabelecemos aqui mesmo, no coração da Europa, um império forte e próspero!"

Essas palavras chocaram o mundo. A era da descolonização havia começado, não com disparos feitos pelos locais ou guerra para manter o domínio, mas com o Reich alemão abdicando voluntariamente de suas possessões coloniais para os próprios povos nativos.

A realidade era que Bruno tinha sugerido essa ideia ao Kaiser como uma forma de reduzir riscos e custos, mantendo o controle econômico e de segurança a longo prazo sobre as regiões. Ele tinha aprendido com sua vida passada sobre formas mais eficazes de controlar uma nação em desenvolvimento.

Uma dessas formas era por meios econômicos, como a "diplomacia da dívida" ou usando forças mercenárias para manter a autoridade na região. Mercenários pagos pelos locais para proteção, significando que o Reich não lucraria com operações de segurança, ao contrário, evitaria desperdício de recursos na zona vermelha.

Era um plano brilhante de hegemonia global, forjado a partir de lições aprendidas na sua vida anterior, e enquanto Bruno organizava seu grupo de mercenários em seu escritório, teve uma súbita revelação ao olhar para a lista de candidatos que começavam a se inscrever.

Primeiro, foi algo sutil, e então, abruptamente, Bruno deixou a caneta que segurava, que vinha sendo batida repetidamente na sua agenda — onde estava a estrutura organizacional daquele exército particular... —

Havia muitos homens voltando da guerra, marcados pelos horrores que vivenciaram, já tendo dificuldades para se readaptar. E, apesar de existirem serviços para tratar o "choque de guerra" e o uso de estimulantes como o "pervatin", fornecidos por organizações de Heidi.

Alguns homens simplesmente não conseguiam se ajustar a uma época de paz e, ao ouvirem falar sobre essa nova força de mercenários, logo se inscreviam. E foi ao perceber quantos veteranos do Grande Conflito estavam desesperados ao solicitar entrada, que Bruno teve um estalo, como um soco na cabeça.

O mais adequado para liderar esse grupo de desajustados, incapazes de se reintegrar em uma era de paz, era um homem que Bruno tinha abatido com sua própria arma… Um homem que era um de seus maiores amigos, irmãos de armas…

Naquele momento, uma gota grande de água caiu sobre a tinta da pena que manchara o papel, formando uma grande mancha irregular, que outra gota derramou por cima dela, seguida por mais gotas, até que lágrimas de culpa e tragédia começaram a escorrer.

Bruno estava irreconhecível, lutando para respirar, consumido por seu próprio medo existencial, até que, finalmente, conseguiu expelir sua culpa do peito.

"Tanto jeito que eu tinha… Tinha outro caminho… A vida toda… Ele tinha um lugar para ficar… E eu acabei com a vida dele! Será que tentei? Por que não percebi? Por que, droga?"

Bruno era um homem que raramente perdia o controle, mas naquele momento sua dor virou uma raiva desenfreada, ao destruir tudo à sua volta — apagou a luminária, quebrou vidro, óleo no chão — e começou a rasgar sua robusta mesa de carvalho com as mãos, primeiro tentando, depois usando uma ferramenta mais brutal para destruí-la.

No final, ele desabou na cadeira, como se o peso do mundo tivesse se feito carne moída, os ossos perdendo força, com a cabeça nas mãos, amaldiçoando-se… pelo pecado simples de não ser onisciente.

"Por que, droga!"

O silêncio permaneceu durante toda a noite, até Bruno emergir de sua solidão com um olhar assombrado, que ninguém perceberia, pois ele logo se deitaria na cama e adormeceria. Recuperando-se do tumulto físico ao acordar no dia seguinte… Mas algumas feridas permaneceriam invisíveis.

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