Re: Blood and Iron

Capítulo 330

Re: Blood and Iron

A guerra na Itália mal tinha passado das fronteiras iniciais. Não porque Bruno e seus homens estivessem sofrendo perdas, mas porque estavam esperando seus aliados alcançarem-nos. Por isso, Bruno agora observava as trincheiras vestido com seu sobretudo, enquanto carregava uma das novas rifles de infantaria às costas.

Agora, os corpos dos mortos já haviam sido removidos, e os engenheiros haviam começado a restaurar as fortificações na fronteira, exatamente como deveriam estar. Apesar de terem a vantagem, Bruno não pressionou um ataque.

Ele precisava que seus aliados continuassem seu avanço por suas próprias linhas e, por isso, não se adiantou. Afinal, avançar demais poderia levar ao cerco e à derrota. Assim, Bruno observava enquanto seus homens aguardavam as ordens para se mover.

Chovia forte do céu, e mesmo assim, os soldados do 8º Exército, agora compostos pelos veteranos mais experientes de sua antiga organização, permaneciam imóveis. Os tiros de artilharia ecoavam ao longe, de outras batalhas próximas, e metralhadoras disparavam a cada momento do dia ou da noite.

No entanto, os homens sob comando de Bruno permaneciam inalterados. Dois anos de guerra nos Bálcãs tinham endurecido todos eles. O suficiente para suportar o que fosse preciso. E os sargentos e oficiais superiores, que já estavam ao lado de Bruno desde a Guerra Civil Russa, seguiam firmes com ele.

Era uma força de combate tão bem estabelecida quanto uma organização armada poderia ser. E o 8º Exército até adotou, de forma não oficial, uma insígnia própria para se distinguir dos demais. Seu uniforme foi alterado, acrescentando o novo emblema do 8º Exército Alemão no bícepo esquerdo da túnica e do sobretudo.

Essa insígnia era um escudo com um canto preto, um canto vermelho separados por uma faixa diagonal branca. Era o mesmo símbolo usado pela Wehrmacht durante a Segunda Guerra Mundial — a vida anterior de Bruno.

No entanto, uma alteração foi feita nesse símbolo: a inclusão do famoso totenkopf da Divisão de Ferro, estampada no centro do logotipo. Uma adição marcante a qualquer uniforme alemão, que inspirava medo em quem os visse.

Por isso, até mesmo o uniforme de Bruno tinha essa pequena modificação, embora não fosse uma inclusão oficial no traje de campo do soldado. Mesmo assim, se fosse questionado a respeito, ele argumentaria que o símbolo era um sinal de camaradagem e de orgulho do grupo, algo que elevava o moral dos soldados na batalha.

Assim, ao caminhar pelas trincheiras, Bruno usava um uniforme sem qualquer adorno, com um capacete igual aos demais. Seu sobretudo era como o dos outros soldados: sem medalhas ou bordados. E ele passava sozinho entre seus homens, com o rifle carregado, como todo mundo.

Para qualquer atirador que não estivesse familiarizado com seu aspecto, ele parecia apenas mais um soldado. Assim, Bruno gostava de inspecionar pessoalmente as tropas e o que estavam fazendo, sempre que tinha um tempo.

E era exatamente isso que fazia agora. Um grupo de soldados encostava as costas na parede da trincheira, fumando, enquanto seu metralhadorista estava na sua posição, com o bipé estendido na borda da barreira.

Ele permanecia atento ao máximo possível. Mas, em momentos como aquele, quando nada acontecia, o resto do grupo ficava mais ou menos de prontidão. Por isso, o atirador não reagiu à aproximação de Bruno.

Especialmente após Bruno colocar o dedo nos lábios, sinalizando silenciosamente que eles não falassem de sua presença. Feito isso, ele se aproximou do atirador e fez uma pergunta simples, sem sequer tentar disfarçar a voz.

“Então, como está lá fora?”

O atirador, mantendo o foco na linha de frente — pois sua disciplina era perfeita por causa de sua experiência até ali — nem olhou para Bruno enquanto respondia, sem saber que quem tinha feito a pergunta era o comandante do 8º Exército.

“Sinceramente? Nada. Zero sinal de inimigos, e quero dizer, nada mesmo: nem snipers, nem observadores avançados. Não houve movimento nas últimas cinco horas, e posso te dizer uma coisa: minha visão é totalmente dedicada a detectar isso. Confia em mim, se até um leônimo se mexer numa moita, eu percebo na hora. Mas lá fora, não tem nada...”

Bruno deu uma risada ao ouvir aquilo, antes de dar uma ordem inesperada para quem assistia à cena.

“Você está dispensado. Eu assumo daqui...”

O atirador suspirou, os ombros relaxando ao cuidadosamente colocar a trava do metralhador em uma posição que impedisse o disparo. Então, esticou os braços e as costas, reclamando mentalmente do serviço.

“Graças a Deus, se precisasse ficar de guarda mais uma ou duas horas, juro —”

De repente, ele ficou em silêncio, ficando pálido ao perceber quem exatamente estaria ouvindo suas reclamações. Bruno manteve uma expressão stoica, agachado na posição mais segura possível, com a cabeça protegida de possíveis tiros de atirador, enquanto assumia a posição de vigia no seu lugar, dizendo apenas uma frase de tranquilização.

“Aproveite o descanso… te vejo amanhã…”

Os soldados próximos a Bruno nem reclamaram de o atirador ter recebido um descanso repentino, apenas, ficaram mais alertas do que nunca.

Enquanto isso, o atirador saiu cambaleando, indo em direção às casamatas onde os colchões estavam dispostos, como se tivesse acabado de conversar com Jesus Cristo pessoalmente.

Quando se foi, os demais da sua equipe começaram a trocar olhares silenciosos. Tantas perguntas surgiam na cabeça deles sobre o homem, a lenda que comandava o exército — alguém com quem eles nunca tinham conversado de verdade até então.

Mas também sabiam que eram responsáveis por sua segurança. Debatendo silenciosamente o que dizer, como falar, ou se deveriam dizer algo ao certo, Bruno finalmente suspirou, repreendendo os homens por sua hesitação.

“Se têm algo a dizer, falem logo. Parecem umas meninas tímidas… Vocês são homens, não são? Mataram por minha ordem, sim? Então, digam o que precisa ser dito com convicção, como quem tem uma bola no lugar… Ou vocês são todas mulheres disfarçadas de soldados?”

Vendo que o próprio comandante não repreendeu o modo grosseiro e casual que o atirador usou, e até parecia uma conversa entre iguais, os homens ficaram tanto mais animados quanto mais alertas, levantando seus rifles para ficar ao lado de Bruno enquanto começavam a conversar com ele.

Durante toda a noite, Bruno ficou de patrulha junto com seus homens, conversando sobre tudo quanto era assunto. Várias vezes eles tentaram convencê-lo a voltar para descansar, preocupados com seu bem-estar.

Mas Bruno afirmava que isso não aconteceria antes de cumprir sua promessa ao atirador. Ao amanhecer, eles sentiram que a aura quase sobrenatural que cercava seu comandante começou a desaparecer; perceberam que, na verdade, ele não era uma lenda grega encarnada, mas um homem comum, como qualquer outro.

Quase como uma figura paterna, fazendo de tudo para mantê-los vivos e ao mesmo tempo esmagar o inimigo. As ações de Bruno se espalharam, humanizando-o entre seus próprios homens — algo difícil de entender até pelos outros generais da época.

Só ao amanhecer a equipe foi completamente substituída, e Bruno voltou para seus aposentos. Onde foi acordado ao meio-dia por Heinrich, que fez uma pergunta que Bruno não conseguiu levar a sério.

“Você passou a noite de guarda de novo, não foi?”

Bruno respondeu negando, enquanto se vestia para o dia de trabalho que tinha pela frente.

“Eu? Sou um Generalfeldmarschall. Por que faria isso? Não tenho homens para fazer isso por mim?”

Embora Bruno negasse, seu sorriso presunçoso e o tom de sua voz eram a confirmação que Heinrich precisava para entender a verdade.

Ele gritou então para Bruno, que se dirigia ao refeitório da trincheira:

“Sei que os homens precisam descansar, mas você também, senhor! Precisa repensar esse seu hábito!”

Bruno apenas acenou com a cabeça, sabendo exatamente o que estava fazendo. Sua lenda cresceu tanto que começava a ofuscar quem realmente era, até mesmo entre seus próprios soldados.

E, se queria a lealdade e o respeito deles, precisava lembrá-los de que Bruno não era uma figura divina a ponto de não se importar com as vidas humanas, como as deles.

Ele também estava no fogo, como todo mundo. A sobrevivência deles — e a dele próprio — eram prioridades. E, ao lembrar disso, eles se sentiriam mais motivados a segui-lo até o inferno e voltar. Mesmo sem ele nunca pedir isso.

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