Re: Blood and Iron

Capítulo 325

Re: Blood and Iron

O sentimento revolucionário na França havia sido controlado por um tempo, mas após sofrer derrotas contínuas no campo de batalha, ficou claro que o povo tinha sido enganado pelos dirigentes.

E isso mais uma vez provocou protestos por todo o país. Seja pelos revolucionários marxistas que buscavam instaurar uma utopia comunista dentro das fronteiras francesas, ou pelos reacionários de direita que culpavam as derrotas de 1871 e as perdas contínuas durante a Grande Guerra pelo fracasso da própria república. Todos que desejavam participar dos tumultos faziam suas vozes serem ouvidas.

Para reprimir essas manifestações, o Governo francês começou a intensificar a repressão, dispersando qualquer reunião de dez ou mais pessoas pelas forças policiais, enquanto impunha toque de recolher a todos os cidadãos.

Além disso, qualquer um pego espalhando sentimentos de "derrotismo" era preso sem o devido processo legal. O que só aumentava a tensão, que parecia prestes a explodir. Veja bem: se alguém tinha uma queixa, seja legítima ou não, a última coisa que se queria era silenciá-lo.

Pois, se você tira das pessoas sua capacidade de falar sobre suas preocupações — seja por meios legais ou tentando cortar suas raízes socioeconômicas — a única forma de expressar suas convicções restante seria a violência.

Talvez essa fosse uma das razões pelas quais Bruno, em sua vida passada, temia o futuro de sua própria nação. Quando figuras do governo saíam dizendo que a liberdade de expressão não deveria ser permitida se aquilo fomentasse opiniões divergentes, bem, esses opositores só tinham uma alternativa para fazer seu ponto de vista ser ouvido.

E, quando isso acontecia, a guerra civil estava a um passo de engolir a nação. O debate público e a discussão política eram o coração de uma república. Se você começasse a reprimir opiniões que não gostava, acabaria estimulando a dissidência violenta.

Isso não era problema para governos mais autoritários, como monarquias, ditaduras e outras formas de autocracia. Pois esses não pregavam falsamente valores elevados como a liberdade de expressão, a igualdade e a democracia. Muito pelo contrário, não se importariam com isso.

Mas, em uma república, fundada sobre os chamados “valores democráticos”, rejeitar esses princípios por um lado e praticá-los por outro era uma baita hipocrisia, e a hipocrisia era algo universalmente desprezado por culturas humanas ao redor do mundo.

Por exemplo, se um líder de uma nação se autodenominasse um autocrata e assumisse publicamente que buscava reprimir a liberdade de expressão do povo, infringir seus chamados "direitos humanos", manipular eleições em favor do seu partido (se é que havia eleições), prender rivais políticos e banir partidos que discordassem de sua visão de mundo,

maioria das pessoas aceitaria. Essas eram as regras do jogo em que viviam, e, mesmo que esse autocrata fosse “ruim”, ao menos era honesto sobre suas ações.

Por outro lado, políticos democraticamente eleitos que praticassem exatamente o oposto — e que se comportassem da mesma forma — não poderiam ser tolerados! Por que um seria aceitável e o outro não? Hipocrisia. Essa era uma razão suficiente para que as pessoas se levantassem em rebelião.

E essa também foi a gota d'água que fez a gota transbordar na República Francesa. Para uma nação que apresentava as potências centrais como pilares de um inferno autocrático, sem respeito pelos princípios do Iluminismo e da democracia, os próprios líderes da República estavam se comportando como tais.

Assim, mais uma vez, a violência começava a tomar as ruas. A escala e o alcance variavam por região: em Paris, por exemplo, onde o governo tinha um número de forças policiais e gendarmes suficientes para manter a ordem, os confrontos eram restritos a algumas pequenas disparidades entre manifestantes de diferentes ideologias políticas, além de enfrentamentos com agentes da república.

No interior, em áreas rurais, tudo era mais severo, com bombardeios, facadas, tiroteios e afins. Mas, curiosamente, Bruno não tinha nenhum papel nessas ações. Sua atenção estava na guerra, em destruir o Exército francês de uma forma tão devastadora que eles jamais ousariam desafiar novamente o poder do Reich.

Seu objetivo estratégico era proteger as fronteiras alemãs, consolidar a unificação do Reich e destruir a vontade dos franceses de lutar futuras guerras. E ajudar no caos que se desenrolava na República agora contrariava esses objetivos.

Pois os franceses sempre poderiam usar a contribuição alemã para justificar uma escalada de violência e preparar o terreno para futuras guerras. E qual seria a graça de reencarnar nesta linha do tempo e lutar na Grande Guerra se a Segunda Guerra Mundial fosse inevitável no futuro, de qualquer maneira?

Ou será que Bruno considerava possível encurtar as hostilidades ajudando ou apoiando as forças revolucionárias francesas? Com certeza, mas isso seria uma visão de curto prazo. Bruno não sacrificaria seus objetivos de longo prazo por ganhos passageiros.

No entanto, nem todos no alto comando do Reich compartilhavam essa visão de futuro. Para Bruno, essa era a guerra que havia acabado com a civilização ocidental e colocado a humanidade numa trajetória rumo à ruína certa.

Uma nova era sombria se aproximava em sua vida passada, e essa guerra foi a causa de tudo isso. Mas ninguém conseguiria entender algo assim — a não ser uma pessoa comum que tivesse vivenciado as consequências da Grande Guerra.

Na visão dele, a maioria pensava apenas em benefícios imediatos, poucos tinham capacidade de antever cinco anos à frente, quanto mais uma década ou um século. Assim, havia pessoas dentro do Bundesrat, do Reichstag e do Alto Comando alemão que estavam muito dispostas a fornecer armas aos rebeldes franceses.

E por que não? O Exército Imperial Alemão tinha centenas de milhares de Mauser 98s parados em depósitos, além de ainda mais Gewehr 88s. Basta trocar algumas marcas, recarregá-las em calibres diferentes, encurtar o cano para o tamanho de um carabina — e pronto. Assim, se tem uma arma adulterada, com marcas apagadas, que pode ser facilmente confundida com um armamento de origem duvidosa. Afinal, a ação do Mauser 98 havia sido adotada por várias forças armadas ao redor do mundo e existiam em diversos calibres.

Seria difícil apontar exatamente essas armas adulteradas — sem marcas — como provenientes do Reich alemão. Pode-se até desconfiar de que os alemães estavam fornecendo tais armas aos revolucionários franceses, mas... o termo “dúvida plausível” existe por uma razão.

Era exatamente isso que o alto comando alemão fazia para estimular a revolta civil na França. Algo que, ao ser descoberto por Bruno, certamente o deixaria extremamente descontente….

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