
Capítulo 276
Re: Blood and Iron
Era praticamente unânime entre o Reich alemão e seus responsáveis que simplesmente descansar sobre os louros conquistados e confiar na tecnologia avançada que possuíam pelo restante da guerra seria um ato de arrogância tola.
Claro, eles tinham uma vantagem esmagadora em relação ao seu arsenal ao compará-lo com o que seus inimigos estavam usando. Contudo, a intervenção de Bruno na linha do tempo não só ajudou a Alemanha, como também beneficiou seus adversários no cenário mundial.
A necessidade é a mãe de toda invenção, e uma nação desesperada facilmente poderia produzir algo de valor baseado no que via seus inimigos utilizarem. A ideia de usar uma máquina antiga e desajeitada, como o Mark I britânico, introduzido em 1916 na vida passada de Bruno, parecia absurda.
Especialmente quando um projeto claramente eficaz já estava sendo empregado pelos alemães. Blindagem inclinada e uma torreta rotativa que usava uma arma principal de tamanho considerável, além de uma metralhadora coaxial, eram muito mais eficientes do que qualquer coisa que tivesse vindo antes.
E copiar esse tipo de projeto, ou ao menos fazer o melhor possível, tornou-se prioridade de nações como Grã-Bretanha e França, que tinham capacidade para isso. Os tanques Renault FT e Mark V pareciam esforços tolos de serem perseguidos, quando um Panzer alemão nesta vida poderia destruí-los com um único tiro, além de resistir a qualquer hostilidade recebida.
Obviamente, conceitos como blindagem homogênea e de aço rolado eram ainda pouco compreendidos por britânicos e franceses, que preferiam optar por chapas de aço revestidas por rebites, como durante a Grande Guerra e os períodos de entreguerras da vida passada de Bruno, o que tornava sua blindagem significativamente mais fraca.
No entanto, a realidade era que logo as forças aliadas poderiam estar usando algum nível de blindagem capaz de competir com os avanços alemães no campo de batalha.
Como resultado, os engenheiros na fábrica de Bruno não ficaram de braços cruzados após a conclusão do Panzer I e das variantes do Spähpanzer Ausf B, ambos baseados no projeto de tanque E-10, uma ideia do papel da vida passada de Bruno.
Pelo contrário, eles estavam desenvolvendo novas variações do mesmo chassi, todas voltadas a apoiar o conceito de guerra mecanizada. A primeira dessas novidades era um tiro de artilharia autopropelido.
Baseado no chassi E-10, que tinha peso mínimo de 10 toneladas e máximo de 25 toneladas, esse veículo montava uma peça de artilharia de 10 cm K 17 no topo, num projeto semelhante às peças autopropelidas usadas na Segunda Guerra Mundial como o m40 de 155mm dos EUA, ou o canhão coreano Koksan de 170mm de 1978.
Existem outros projetos similares, mas a filosofia de design dessas peças autopropelidas diferia mais de algo como o Hummel alemão ou o moderno sistema M109 Paladin, usado pelos Estados Unidos.
E essa diferença principal era que o canhão ficava sobre o chassi, mas não dentro de uma torre blindada para proteger a tripulação. Em vez disso, os operadores ficavam na parte de trás do chassi, carregando e apontando manualmente cada disparo.
Considerando que o chassi E-10 tinha peso semelhante ao de um Panzer II ou Panzer III da vida passada de Bruno, e comprimento comparável ao de um Panzer III, seu tamanho era ideal para o uso do obuseiro de 105mm K 17, ao invés de algo maior, como o 15cm SFH 18, mais comum em unidades de artilharia.
Na verdade, pode-se dizer que a arma usada nesse veículo blindado se assemelhava mais ao 10cm SFH 18, pois os engenheiros aprimoraram os designs desses obuseiros de 105mm que estavam em uso pelo artilharia alemã na época do desenvolvimento do veículo blindado.
A introdução de artilharia autopropelida, que usava o mesmo chassi blindado do Panzer I, simplificou enormemente a logística em comparação às peças de artilharia puxadas por caminhões.
Mas os engenheiros alemães não pararam por aí. Estavam atualmente testando protótipos de várias outras variantes, como uma versão de canhão antiaéreo autopropelido, ou SPAAG — sigla para Self-Propelled Anti-Aircraft Gun. Essa versão usava uma única metralhadora de 2cm Flak montada no topo do chassi, de design semelhante ao Flakpanzer I da vida passada de Bruno.
Para o Exército alemão, essa solução era muito mais eficaz do que as metralhadoras quad de 20mm montadas na traseira de caminhões de transporte, que eram uma solução paliativa usada atualmente pelo 8º Exército Alemão nos Bálcãs.
E embora o uso de artilharia autopropelida e antiar porviam várias soluções, os alemães estavam introduzindo um novo sistema de armas voltado também para a guerra de conjunctiono de armas.
Era o sistema MLRS (Multiple Launch Rocket System), adaptado na parte de trás de um chassi E-10. Com o desempenho fenomenal do Nebelwerfer usado em campos de batalha fora da Bulgária, engenheiros das corporações de Bruno rapidamente desenvolveram versões autopropelidas para uso nos batalhões de armas combinadas alemães.
Por fim, foi criada uma última variação do chassi E-10 — uma versão dedicada a um lança-teiro antitanque autopropelido, motivada pelo medo de tanques aliados na guerra e pela possibilidade de batalhas abertas entre essas máquinas de guerra. Os engenheiros de Bruno já se preparavam para essa possível realidade há algum tempo.
Primeiro, criaram uma arma antitanque dedicada, o 5cm PaK 38, herdado da vida passada de Bruno. Essa arma era basicamente a mesma do Panzer I atual, apenas modificada para uso na artilharia.
Depois, colocaram esse canhão em cima do chassi E-10. Na vida passada de Bruno, os alemães já tinham feito algo semelhante durante a Segunda Guerra com o Panzerkampfwagen I Ausf.B equipado com um canhão de 7,5cm StuK 40. Embora esse veículo tivesse usado o superior 7,5cm PaK 40, introduzir uma arma tão cedo daria ideias demais aos aliados, algo que Bruno queria evitar.
No entanto, atualmente, o PaK 38 era uma arma capaz de destruir qualquer blindado à sua frente.
Também era uma arma que, se bem mantida, poderia até ser útil na Segunda Guerra Mundial, caso essa linha do tempo fosse azarada o suficiente para gerar outro conflito, mesmo após tudo que Bruno fez e continua a fazer para evitar isso. Pelo menos, poderia servir em seus primeiros dias.
De qualquer forma, Bruno provavelmente só veria essas armas em ação quando fossem implantadas em larga escala em sua unidade. E, ao vê-las, ficaria impressionado com o que seus engenheiros tinham feito nos últimos anos, enquanto ele priorizava outros aspectos da guerra.
No entanto, a produção delas foi uma prioridade enquanto as armas implantadas no teatro italiano se tornavam um obstáculo a ser superado.
As linhas de frente se estabilizaram por vários meses após a derrota catastrófica ocorrida na fase mais fria do inverno, no teatro dos Alpes. Todos os dias, milhares de homens eram feridos ou mortos em combate, enquanto Aliados e Potências Centrais trocavam vitórias e derrotas.
Foi a primeira vez desde o início da guerra que as Potências Centrais tiveram que passar à ofensiva fora dos Bálcãs e da Frente Ocidental. E sua escassa presença de unidades blindadas se evidenciou ao mundo, enquanto travavam uma guerra de trincheiras brutal para reconquistar o território que perderam meses antes.
Estava tudo empatado, completamente. E a razão era simples: os alemães só tinham produzido tanques e carros blindados por no máximo quatro anos antes do começo da guerra.
Isso, aliado a outras prioridades do exército alemão na preparação, fez com que essas máquinas de guerra fossem enviadas principalmente para os Bálcãs e a Frente Ocidental.
Haviam veículos blindados suficientes? De jeito nenhum. Especialmente em áreas como o Isonzo, onde Bruno acreditava que tudo permaneceria como estava até a chegada da cavalaria, pronta para destruir o exército italiano e marchar sobre Roma com força brutal.
Mas as irmãs do destino estavam reunindo todo seu poder para desfazer a trama da profecia neste mundo, que Bruno havia modificado com sua interferência. E, devido às ações do Império Austro-Húngaro e às suas próprias ações de semear medo, os Aliados avançaram na região mais inesperada.
E embora ainda não tenham recuperado os territórios perdidos, o campo de batalha permanecia empatado desde a interrupção inicial da ofensiva aliada. Até hoje, claro.
Pois foi hoje que os Aliados revelaram o uso de veículos blindados na Grande Guerra. E o estrondo de seus motores chamou, certamente, a atenção dos soldados alemães e austro-húngaros, que encaravam a subida até os morros com apreensão no coração.
Uma oração silenciosa foi feita por todos antes que o fogo começasse a rasgar o silêncio das montanhas, marcando o início da batalha.