
Capítulo 66
Re: Blood and Iron
Rapidamente, a notícia chegou ao País de origem informando sobre a tentativa de assassinato de Bruno nas ruas de São Petersburgo. Enquanto a Rússia atravessava uma guerra civil, São Petersburgo era considerada um refúgio do czar e de seus loyalistas, especialmente após o cerco que enfrentou nos últimos meses.
Afinal, qualquer pessoa mesmo minimamente suspeita de ter alguma lealdade aos bolcheviques ou até mesmo de simpatizar com eles era arrancada de suas casas e executada nas ruas. Por isso, a área era considerada relativamente segura. Ou, ao menos, tão segura quanto um território pode ser em um país atualmente dividido por uma guerra civil.
No entanto, no meio da luz do dia, um homem atirou contra o líder da Brigada de Ferro numa tentativa de assassinato falhada. E isso gerou várias manchetes. Felizmente para Bruno, um de seus hábitos — completamente prejudicial à sua saúde — ironicamente lhe salvou a vida.
Bruno era, afinal, um homem que dependia bastante do uso de substâncias para lidar com seu PTSD crescente. E por isso carregava sempre um maço de cigarros e uma garrafa de bebidas forte. Essa garrafa de aço tinha absorvido o impacto principal do tiro, permitindo que o projétil penetrasse apenas de forma superficial na carne, numa profundidade que não era letal.
Ele sobreviveu ao atentado, e rumores diziam que ele perseguiu o agressor e o espancou até quase matá-lo, depois de ter sido literalmente atingido no peito. A verdade, no entanto, era que o próprio atirador já tinha sido capturado pelos guardas de Bruno quando o homem desabafou sua raiva sobre ele.
Mas os soldados tendiam a exagerar nas histórias, e a narrativa que eles criaram logo se transformou mais em mito do que em realidade. Mesmo assim, o Lobo da Prússia conquistou a reputação de ser "à prova de balas" e de retaliar com extrema crueldade.
Claro que, depois de ser dispensado do hospital, o homem foi transferido para a Divisão de Inteligência Estrangeira do Exército Alemão. Quem fez a tortura nele para obter informações foi quem realmente tentou extrair a verdade? O homem tentou ao máximo se omitir, mas, no final, entregou tudo o que sabia sobre seus mestres e seus planos de eliminar Bruno do tabuleiro.
Naturalmente, quando o Kaiser soube que os franceses tiveram a audácia de tentar assassinar um dos seus generais, ficou revoltado. Afinal, ele tinha investido uma quantia significativa de recursos no desenvolvimento de Bruno como general.
Porém, a fúria do Kaiser não se comparava à de Heidi, esposa de Bruno. Ela foi rapidamente informada do ocorrido. E, ao saber, manteve contato com sua prima — que trabalhava na Divisão de Inteligência Estrangeira do Exército Alemão — que a mantinha atualizada sobre tudo o que era descoberto a partir da vítima.
No final, depois que o homem revelou tudo o que sabia, a reação de Heidi teria sido assustadora — se alguém estivesse lá para testemunhar. A dona de casa geralmente tímida e submissa tinha uma expressão arrepiante no rosto, que transmitia uma vontade de dilacerar a carne do homem que ousou tentar tirar seu marido dela e de seus filhos pequenos.
Porém, ela não respondeu imediatamente às palavras do primo, que estava do outro lado da linha. Ficou em silêncio por um longo tempo — tempo suficiente para provocar uma resposta do homem com quem falava.
"Heidi, você está bem…"
Heidi finalmente voltou à realidade, ao fazer uma pergunta ao homem, de uma maneira que o deixou profundamente desconcertado.
"Ei… Você disse uma vez que faria qualquer coisa que eu pedisse, certo? Depois do que fiz pela sua irmã, você disse que me devia mais do que eu poderia imaginar, não foi?"
Apesar de já ter dito aquilo antes, e com toda a intenção por trás, o primo de Heidi não pôde deixar de sentir algo terrível vindo da mulher ao telefone. E, talvez por isso, seu tom de voz ficou carregado de ansiedade ao responder às suas perguntas.
"Sim… Claro… Enquanto estiver ao meu alcance, vou ajudar no que você precisar… Mas o que exatamente você está pensando, Heidi? Seu marido está descansando na outra sala após ter se machucado? Você devia ir cuidar dele ao invés de perguntar o que quer que seja."
Heidi, é claro, não ouviu o que o homem disse. Estava em um transe assassino, e por isso suas palavras saíram carregadas de hostilidade.
"Me prometa… Prometa que esse homem que ousou atacar meu marido… Promete que a morte dele será lenta e dolorosa… Quero que ele sofra o inferno antes de ser enviado para onde merece…"
Heidi não esperou uma resposta e desligou na hora, voltando ao seu jeito normal de ser, amorosa e alegre, enquanto corria para o outro cômodo para cuidar de Bruno, que estava deitado na cama, descansando, após os médicos terem informado que ele não voltaria para São Petersburgo até que suas feridas cicatrizassem.
Era, afinal, uma ordem do Kaiser. E, por isso, Bruno não tinha escolha senão deixar os assuntos da Brigada de Ferro sob responsabilidade do oficial imediatamente abaixo dele. Bruno não estava gravemente ferido, pelo menos não o suficiente para ficar de cama, mas, por algum motivo, as pessoas ao seu redor estavam tratando-o como se estivesse.
Com Heidi entrando para trocar seu curativo e desinfetar sua ferida com álcool — embora na verdade não precisasse de tanto cuidado assim.
"Está se sentindo bem? Quer algo para a dor? Posso trazer álcool, ou talvez ópio, se precisar mesmo."
Bruno deu uma risada de canto. Dor? A bala tinha penetrado menos de uma polegada na carne dele. Quando o médico a tirou, a ponta do projétil ainda estava visivelmente saindo de sua carne. Era uma ferida leve, que mal justificava um alarde.
Por que todo mundo agia como se ele estivesse morrendo? Bruno, claro, não tinha ideia de que Heidi acabara de garantir que a morte do provável atacante dele fosse o mais lenta e dolorosa possível. Não que os psicopatas sádicos que trabalhavam como interrogadores do Reich Alemão se importassem com o esforço adicional.
Era uma época em que torturar prisioneiros para obter informações não era considerado imoral, antiético ou ilegal. Por isso, uma raça bem peculiar de maluco acabava sempre empregado nessa profissão, e eles sabiam aproveitar cada momento.
Mesmo assim, Bruno não quis demonstrar que estava incomodado com a forma como sua esposa o mimava, e forçou um sorriso, balançando a cabeça e garantindo que estava bem.
"Heidi, estou mesmo bem, de verdade. Não sei por que vocês estão exagerando assim. Não é a primeira vez que quase morro…"
Bruno estava quase dizendo que não seria a primeira vez que morreria, mas parou no meio da frase. Quer dizer, em comparação a morrer de verdade na vida anterior dele, uma experiência de quase morte não era nada traumático.
Claro que essa também não era exatamente a resposta que Heidi esperava. Sua expressão escureceu imediatamente, e ela passou a interrogar o marido sobre quando mais ele quase perdeu a vida.
"O quê? Quando? Onde? Foi aqueles bastardos amarelos? Quase te mataram na Manchúria? Não se preocupe, querido, vou fazer eles pagarem pelos pecados!"
Bruno nunca tinha visto esse lado tão louco de sua esposa antes. Ela nunca tinha usado palavrões na frente dele. Por isso, ficou surpreso ao segurá-la pelos ombros e devolver a ela uma expressão mais calma.
"Estou sendo exagerado, Heidi. Relaxa, tá bom? Está tudo bem! Eu estou bem! Você não precisa se preocupar tanto."
Heidi voltou, mais uma vez, ao seu modo habitual de ser, agarrando Bruno com força, dizendo coisas que, na verdade, não ajudavam muito a tranquilizá-lo.
"Desculpe, querido. Exagerei agora… É que, depois de tudo que aconteceu… Depois da sua ferida… Eu tenho me preocupado com o que aconteceria se eu perdesse você! Se as crianças pudessem perder você! Eu… não sei como seguir em frente sem você!"
Bruno decidiu interpretar essa declaração como uma demonstração de afeto, e não algo que precisasse deixá-lo preocupado. Então, acariciou os cabelos dourados da esposa e a segurou apertado, tentando confortá-la.
Sem dúvida, ela estava abalada pelo que tinha acontecido com ele. E, até aquele momento, ele tinha feito um péssimo trabalho em aliviar sua ansiedade. Por isso, passou boa parte do dia na cama, abraçado à esposa.