
Capítulo 96
Re: Blood and Iron
A esta altura, a maior parte da Divisão de Ferro já havia retornado ao Reich alemão. Ela foi oficialmente desfeita, e Bruno foi um dos últimos a entrar na pátria, como recompensa final do czar por seus serviços. No entanto, ainda havia alguns que permaneciam.
Principalmente aqueles envolvidos em esforços humanitários sob a liderança de Heinrich. Embora a guerra pudesse oficialmente ter acabado, as cicatrizes deixadas na paisagem russa e em seu povo levariam bastante tempo para cicatrizarem.
E Heinrich, em particular, tinha se aproximado demais da situação. O homem era tratado como uma espécie de santo, tendo chegado ao ponto de construir novos orfanatos com a mão de obra e ajuda material da Divisão de Ferro.
Ele não poderia simplesmente abandonar tudo sem antes estabelecer uma estrutura de apoio adequada para substituí-lo e aos seus homens após a partida. Pela vontade do czar, esses soldados da Divisão de Ferro tinham permissão para permanecer e continuar apenas os esforços humanitários.
No entanto, após vários meses criando um sistema para funcionar na sua ausência, chegou finalmente a hora de voltar para casa. Heinrich reuniu os órfãos, entre os quais havia se aproximado de vários durante seu tempo em Tsaritsyn.
Foi uma despedida particularmente dura para ele, pois sua ocupação na cidade, ou seu apoio àquele objetivo, tinha sido quase toda voltada a ajudar o povo, e não à busca e eliminação de remanescentes do Exército Vermelho na região do Volga.
A campanha de Bruno na região, afinal, tinha sido bastante completa nesse aspecto. E, ao olhar para as crianças, que variavam bastante de idade, mas eram principalmente velhas o suficiente para trabalhar — já que a Rússia ainda não tinha leis de trabalho infantil —, Heinrich pensava que isso era algo bastante comum, considerando que a prioridade máxima da Duma mesmo após a guerra recém-terminada eram os problemas que ela trouxe.
Havia um sorriso agridoce no rosto de Heinrich enquanto ele se despedida oficialmente daqueles a quem cuidou por cerca de um ano. Ele se ajoelhou e abraçou o máximo de crianças possível, tentando garantir que tudo ficaria bem para elas, mesmo após ele partir.
"Se fosse comigo, eu iria ficar aqui e ajudar a cuidar de vocês até que todos alcançassem a maioridade. Mas eu não sou russo, esta não é minha casa. E jurei servir ao Kaiser por vários anos ainda.
Mas não se preocupem, trabalhei duro nesses últimos meses para garantir que tudo que vocês precisam para sobreviver e prosperar neste mundo esteja preparado para funcionar perfeitamente, mesmo na minha ausência ou dos meus homens.
Quero que vocês se concentrem nos estudos e tenham sucesso quando alcançarem a maioridade. Façam isso por mim, combinado?"
As crianças se despediram de Heinrich e prometeram se comportar bem pelo bem do orfanato que ele havia fundado e garantido financiamento adequado. Bruno, para ser honesto, tinha contribuído financeiramente com recursos próprios. Afinal, ele era absurdamente rico graças aos investimentos que fizera. Financiar alguns orfanatos não era um problema para ele.
E isso agradava Heinrich, que havia se apegado um pouco demais às crianças que cuidava na Rússia.
No entanto, havia uma face familiar que não apareceu para se despedir de Heinrich. Talvez fosse a coisa mais preocupante nisso tudo. Durante seu tempo na Rússia, ele tinha se aproximado de muitas crianças pobres e desamparadas, que perderam os pais.
Porém, nenhuma delas tinha uma conexão especial com ele. Era a pequena garota que ele salvará pela primeira vez na rua naquela noite fatídica, quando estava bêbado, procurando alguma mulher mais velha para dormir com. Seu nome era Alina Zharova, mas Heinrich chamava-a simplesmente de Alya.
Alya não apareceu hoje, sem dúvida por estar triste com sua partida, e por isso, após se despedir, Heinrich só pôde suspirar e balançar a cabeça, perguntando-se se a garota realmente ficaria bem sem uma despedida adequada.
No entanto, foi ao chegar na estação de trem, acendendo um cigarro para aliviar a ansiedade de partir daquela forma, que sentiu uma puxada familiar na manga da camisa. Seguido de uma voz jovem que ele reconheceria em qualquer lugar.
"Senhor… Pode me dar uma fatia de pão?"
Heinrich imediatamente se virou e viu Alya olhando para ele com um sorriso largo no rosto. Ela estava vestida de forma adequada ao clima de verão, mas tinha uma mala de mão ao seu lado. Assim que viu isso, Heinrich logo quis saber o que ela planejava fazer.
"Alya, o que você está fazendo aqui? Você deveria estar no orfanato! Não diz que está fugindo agora que não tenho mais controle?"
Alya cruzou os braços rapidamente e desviou o olhar de Heinrich, mas abriu um olho para garantir que o homem ainda estivesse atento a ela, antes de afirmar sua decisão — o que fez Heinrich levar uma mão à testa, frustrado.
"Não vou voltar para o orfanato! Decidi que você vai me adotar! Eu me recuso a deixar a Rússia sem mim!"
Heinrich olhou para a adolescente como se ela fosse a coisa mais sem-vergonha que já vira. E, pelo jeito dela, ele sabia que, se dissesse não, ela fazia um escândalo na hora. Por isso, tentou explicar tudo de forma racional.
"Alya, isso não é de modo algum apropriado! A adoção envolve papéis, procedimentos oficiais que precisam ser seguidos! O orfanato precisa aprovar tudo isso!"
Alya simplesmente pescou na mala uma papel e entregou para Heinrich sem dizer uma palavra, começando a fazer bico e cruzando os braços de novo, enquanto olhava para longe. Heinrich olhava, incrédulo, para o documento, sem acreditar que a velha que ele deixara encarregada da instituição fosse agir de forma tão traiçoeira.
O papel era um documento assinado, garantindo que, do ponto de vista do orfanato, todas as questões estavam resolvidas, permitindo que Heinrich adotasse a garota. Tudo o que ele precisava fazer era assinar e, para o Império Russo, isso era legalmente válido.
Quanto ao Reich alemão, não seria difícil aprovar a documentação de imigração para a menina, considerando as conexões de Heinrich com o governo. Mas… ainda havia o problema de alojamentos adequados, e o fato de Heinrich ser um jovem solteiro, sem intenções de se casar, muito menos de cuidar de crianças.
Ele ficou boquiaberto, completamente pasmo, ao levantar o próximo ponto de contato nesse assunto.
"Mesmo que o orfanato aprove, o departamento de imigração do Reich precisa aprovar também, e depois tem a questão do alojamento. Sou solteiro. Moro sozinho no quartel! Não posso simplesmente trazer uma menina de treze anos para a base! E, além disso, o que você vai fazer quando eles me enviarem para algum campo de batalha no exterior?"
Alya continuou de bico, olhando para longe com os braços cruzados. Ela falou uma única coisa antes de subir no trem com a mala: deixou Heinrich completamente sem palavras.
"Não é meu problema. Você que se vire com isso! Papai…"
Heinrich ficou ali, de repente, com vontade de beber uma garrafa inteira de vodka sozinho. O que ele faria agora? Uma coisa ele tinha certeza: precisaria da ajuda da família e dos amigos para cuidar da menina, já que não tinha mais escolha.
Mesmo assim, ele não sentia qualquer arrependimento por como agira na Rússia. No fim, ele saiu do transe justamente quando o trem começou a partir, conseguindo subir a bordo de última hora e sentar ao lado de Alya, que sorria feliz, satisfeita por ter alcançado seu objetivo.
Já Heinrich, passaria o restante da viagem de volta ao lar, imaginando o que exatamente faria a partir de então. Uma coisa era certa: os dias de Heinrich como um playboy irresponsável finalmente tinham acabado. E, de uma forma que ele nunca imaginara.