
Capítulo 58
Re: Blood and Iron
Heidi soube que algo estava errado no momento em que Bruno começou a passar os dias em volta de casa. A princípio, ela achou que, talvez, o homem tivesse recebido um tempo extra de licença por motivos desconhecidos para ela. Mas, no final das contas, ela sabia que aquilo era bom demais para ser verdade.
Ela tinha seus métodos para descobrir exatamente o que Bruno estava fazendo. Mas não queria se meter por trás das costas dele para descobrir. Preferia confiar que, quando chegasse a hora, ele mesmo contaria.
Por isso, ela esperou pacientemente, enquanto cumpria seu papel de esposa amorosa e mãe dedicada. A vantagem de passar o tempo na casa dele enquanto organizava a formação da Brigada de Ferro era o fato de Bruno ter conseguido passar mais tempo com os filhos.
Eles eram, afinal, muito jovens para irem à escola, e, por isso, passavam o dia em casa, sendo criados pela mãe. Agora que ele estava em casa na maior parte do dia, além de algumas visitas semanais à Divisão Central para relatar os avanços do projeto aos superiores.
Bruno se via fazendo pausas bastante frequentes para brincar com as filhas, e para ensinar ao seu filho mais novo lições valiosas.
Com o passar das semanas, Bruno percebeu que tinha mais voluntários da Marinha Alemã do que esperava. Em especial, o Seebataillon Alemão, que era a Infantaria Naval Imperial Alemã — ou seja, a versão deles dos Marine Corps — e mais de duas dezenas de voluntários se juntaram à unidade.
Faz sentido, ao considerar que o Seebataillon era uma força de pequeno porte e que, na prática, não tinha muito o que fazer, já que apenas um dos seus dois batalhões havia sido enviado para defender colonos alemães nas Guerras Herero.
Na verdade, agora, em meados de outubro de 1904, Bruno já tinha noção do que tinha acontecido na região. Afinal, isso causou bastante alvoroço na Divisão Central do Alto Comando Alemão. Em um ato de rebelião, as tribos Khoi e Herero massacraram 125 colonos alemães, no que viria a ser conhecido como Namíbia, no século XXI.
Como retaliação, o General Lothar von Trotha ordenou o extermino das tribos Herero, matando todos os homens, e forçando mulheres e crianças a atravessarem o deserto, onde morreriam de desidratação ou exposição.
Não havia dúvida de que foi um ato cruel, mas, considerando que as tribos Herero tinham assassinado colonos alemães inocentes, Bruno acreditava — embora sem necessariamente justificar — que era mais uma consequência natural de uma ação tão hedionda. Afinal, quando uma colônia sofre uma brutalidade, é difícil esperar uma resposta diferente.
Além disso, Bruno conhecia bem o caráter de Lothar von Trotha. Tendo servido sob seu comando na China durante a Rebelião Boxer. Bem, não exatamente diretamente, pois Bruno tinha apenas o posto de capitão na ocasião, respondendo a um tenente-coronel. Mas o homem liderava a Força Expedicionária do Extremo Oriente, da qual Bruno fazia parte, e, portanto, poderia ser considerado o chefe do chefe de Bruno.
Na época, Lothar era o coronel cuja resposta foi jogar Bruno na prisão imediatamente após o incidente com os bandidos russos. Seu temperamento era forte e imprevisível. Costumava optar por punições severas antes de entender completamente a situação.
Naturalmente, a ordem do Alto Comando Alemão ao descobrir que Lothar efetivamente ordenara um ato de genocídio era revogá-lo. Mas Lothar simplesmente fingiu que não havia recebido as ordens do Chefe do Estado-Maior, e, por extensão, do Kaiser.
Sem dúvida, ele estava levando adiante sua própria forma de genocídio. E, por mais que Bruno deva ter alguma empatia pelas vítimas, ele só conseguia culpá-las — e isso era evidente — os Herero tinham que assumir a responsabilidade por suas ações.
Quer dizer, se eles não tivesse tomado as armas e massacrado colonos inocentes, que viviam vidas pacíficas e não faziam parte do Exército Colonial contra o qual tinham que reclamar, essa tragédia nunca teria acontecido.
Era, na verdade, uma tragédia de autoria própria. E, francamente, Bruno pensava que quem brinca com fogo, leva bomba — mesmo que as consequências sejam terríveis. Por mais horrível que possa parecer, ele via aquilo como algo natural, uma resposta aos atos de violência dos nativos contra a força de ocupação, que tinha poderes para varrê-los facilmente.
O que, afinal, eles esperavam que acontecesse?
No fim das contas, a lei da natureza era clara: o mais forte manda. Se os nativos não tinham força para repelir o Exército Alemão, o que aconteceu com eles após a rebelião era simplesmente algo que Bruno não ia derramar uma lágrima — mesmo que a retaliação tenha sido excessiva, como a extermínio.
Então, Bruno seguiu sua rotina, sem dar importância a atos que muitos considerariam uma mancha na história da Alemanha. Porque, ao final do dia, se vencesse a Grande Guerra e estabelecesse a hegemonia alemã na Europa, essa história seria lembrada não como um erro do Reich, mas sim como uma consequência dos próprios Herero, que sofreriam as consequências de seus atos sanguinários.
Porque, na visão dele, os conceitos de direitos humanos e igualdade não eram o próximo passo natural da civilização, como muitos acreditavam na sua vida anterior. Pelo contrário, esses conceitos eram fruto da hegemonia americana no mundo, após o fim da Segunda Guerra Mundial.
A força militar dos EUA e sua constante repressão a quem desafiasse seus interesses ao redor do globo ao longo do século XX e XXI é o que fez do liberalismo a norma na civilização ocidental.
Se as Potências Centrais tivessem vencido a Guerra, ou se os Eixos tivessem triunfado na Segunda Guerra Mundial, as normas que hoje consideramos garantidas na civilização ocidental seriam totalmente diferentes — com valores bem distintos.
E isso era tudo que precisava ser dito. Então, ao colocar esses assuntos insignificantes de lado, Bruno voltou sua atenção para a criação da sua Brigada de Ferro. A arma padrão evidente para uma infantaria seria o Rifle Gewehr 98. Produzido em larga escala, o Reich poderia facilmente fornecer algumas mil unidades para os "voluntários" alemães.
No entanto, como tinha meses para montar a Brigada de Ferro e enviá-la para a Rússia, Bruno queria fazer algumas pequenas modificações nesses rifles. Para simplificar, Bruno não suportava as miras de ferro do Gewehr 98 padrão, consideradas horríveis pelas suas perspectivas modernas.
Por isso, mandou a empresa da família reformar esses rifles que seriam usados pela Brigada de Ferro. Especificamente, para convertê-los na versão G98m, fabricada na época entre guerras, que foi usada pelos nacionalistas na Guerra Civil Espanhola e, em quantidade limitada, pela Waffen-SS no início da Segunda Guerra Mundial.
Quanto à artilharia, a escolhida foi a Krupp de 7,5 cm Modelo 1903. Para começar, ela não era propriamente um canhão utilizado pelo Exército Alemão em grande escala, mas uma arma exportada para outros países, como Sérvia, Japão, Romênia, etc.
Nesse universo alternativo, a Alemanha enviou essa arma ao Japão durante a guerra contra os russos na Manchúria como forma de auxílio. Agora também enviavam para os russos. Era a resposta da Krupp ao Canon de 75 modèle 1897, arma francesa que tornou obsoleta a artilharia alemã do século anterior.
No entanto, o Modelo 1903 perdeu nas provas militares para a Waffenwerke von Zehntner 7,5 cm FK 1901, que era o projeto de Bruno baseado na FK 16 nA de 7,5 cm da sua vida passada, que agora estava sendo produzida em massa para uso militar.
Claro que o Modelo 1903 foi "adotado" em quantidade limitada, principalmente para fins de contraespionagem. Sua função era basicamente servir como uma peça de demonstração, para que possíveis espiões observassem e reportassem informações incorretas ao seu país. Por causa disso, a Krupp produzia o suficiente, inclusive para a Brigada de Ferro em campanhas no exterior.
Por fim, havia mais um equipamento empregado pela Brigada de Ferro nesta guerra: a metralhadora MG 01. Ou, mais especificamente, a MG 01/03, uma versão produzida pela Waffenwerke von Zehntner que atendia às necessidades do Exército Alemão, que havia começado a apostar pesado em metralhadoras antes de a MG-34 estar pronta para a produção em série.
Ou seja, era uma MG 08 com suporte de tripé — ao invés do famoso trenó. E utilizava uma correia metálica, similar à PM M1910, que os russos adotaram em 1910.
Essa era uma grande diferença em relação às correias de pano usadas pelos alemães e outros países em suas variantes da Maxim, também conhecida como "A Pincel do Diabo", por tantos jovens que tiveram suas vidas ceifadas por ela na Terra de Ninguém durante a Grande Guerra do passado de Bruno.
Por ela ser facilmente fornecida e bastante capaz de cumprir as funções que Bruno precisava, ele a escolheu para compor a Brigada de Ferro. Afinal, o Reich alemão era o único país investindo pesado em desenvolvimento e produção de metralhadoras. A maioria das nações ainda não tinha entendido sua importância no campo de batalha.
Mesmo após o uso marcante na Segunda Guerra dos Bôeres e na Guerra Russo-Japonesa.
E, por isso, Bruno sabia que o Exército Vermelho dificilmente conseguiria adquirir armas tão devastadoras. Talvez, se fosse sorte, conseguissem uma ou duas. Mas de forma alguma suficiente para contrabalançar a força da Brigada de Ferro. Principalmente se Bruno fizesse seus atiradores de elite em nível de pelotão.
Depois de completar as requisições de equipamentos específicos para sua Brigada de Ferro, Bruno tinha plena certeza de que sua vitória sobre o Tsar Russo era questão de tempo. Mas uma preocupação persistia:
Ele não tinha ideia de quando essa guerra iria acabar, ou quantos comunistas teria que eliminar ao longo do caminho. Com certeza, ele não queria ficar conhecido por fazer a história da Rússia sangrar com a sua violência, certo?