
Capítulo 3
Re: Blood and Iron
Bruno tinha uma expressão que refletia a do rosto de seu pai. Estava maravilhado com aquela proposta. Claro, era de conhecimento geral que alianças eram feitas entre famílias nobres ao longo da história, e muitas vezes as partes envolvidas eram bastante jovens quando essas negociações aconteciam.
Porém, ele era o nono filho de um Junker, de uma família cuja nobreza tinha menos de cem anos de existência. Por que esse general, que claramente olhava de canto para a família dele com desprezo, faria uma proposta dessas? A menos… Claro que, assim que Bruno começou a suspeitar que havia algum significado oculto por trás desse casamento, a expressão do rosto de seu pai mudou.
Inicialmente, o homem ficou chocado, e tinha motivos para estar — sabia mais sobre as circunstâncias por trás daquela "oferta" do que seu filho. Mas, quando o Lord finalmente se recompor, não pôde evitar apertar os dentes e fechar os punhos.
Foi preciso toda a força que tinha para manter a compostura, pois sabia que as consequências de agir de maneira impulsiva naquele momento seriam terríveis. Logo, perguntou ao general de meia-idade, que zombava dele enquanto brincava com o bigode com ar de quem tinha grande prazer na situação:
"Sua Graça, quero entender se sua intenção é casar a filha de sua amante com meu filho legítimo?"
Ao ouvir essas palavras, Bruno teve um estalo repentino. Aquela garotinha era uma bastardinha? Fazia sentido quando ele pensou melhor. Afinal, por que um homem de meia-idade teria uma esposa tão jovem, a não ser que fosse uma segunda esposa ou uma amante?
Isso também explicaria o jeito tímido da menina, que quase tremia enquanto se escondia atrás da mãe. Bastardos raramente eram tratados como parte da família pela nobreza, muitas vezes sendo alvo de bullying e assédio por parte de seus irmãos — muito mais do que Bruno tinha suportado nesses últimos anos.
Uma pista de piedade apareceu nos olhos azuis do garoto enquanto ele observava a tímida coelha que estava sendo vendida para sua família, por razões trágicas, sem menos. Ainda assim, Bruno desconfiava que havia algo mais obscuro por trás dessa oferta. Talvez um significado oculto ainda estivesse escondido.
Nesse pensamento, Bruno virou o olhar para o pai e a mãe. Ambos pareciam prestes a expulsar o príncipe e a família dele de casa por ousarem insultá-los dentro de suas próprias paredes. Mas, de alguma forma, encontraram forças para manter a calma.
Pelo fato de o pai ter usado o termo "sua graça" ao falar com o general, é provável que o homem seja um duque. Ou talvez um príncipe mediado. Bruno só descobriria depois que suas suposições eram corretas — o general era mesmo um príncipe de uma antiga e nobre família, von Bentheim, que foi elevada ao status de "Príncipes" por rei Frederico Guilherme III em 1817.
Porém, naquele momento, Bruno não sabia ao certo qual era o título exato daquele nobre, se ainda controlava suas terras ancestrais ou há quanto tempo ocupava uma posição tão elevada — ele não tinha tempo para raciocinar sobre esses detalhes, pois o príncipe de meia-idade respondeu rapidamente à fala do Lord.
"O quê? O que é isso? Você e sua linda noiva estão tão ofendidos com minha proposta? Devem sentir-se honrados por eu estar disposto a casar minha filha com alguém de uma linhagem tão questionável. Ela pode não usar meu sobrenome, mas meu sangue corre pelas veias dela. Quem sabe algum sangue nobre de verdade não faça bem a esses camponeses que se julgam nobres, hein?"
Agora, o homem nem mais se escondia nos insultos. E Bruno percebeu que o ponto de ruptura do pai estava próximo. Por isso, internamente, suspirou. Se seu pai insultasse um príncipe, e ainda mais um general do Exército Imperial, as consequências seriam severas para toda a família.
Vale lembrar que, nesta linha do tempo, a família von Zehntner detém algum patrimônio e influência no Exército e no Reichstag. Mas comparar sua família à de um príncipe era como comparar o poder de um tenente ao de um marechal de campo.
Sem dúvida, se o Lord agisse sem decoro aqui, o futuro da família estaria em risco absoluto. Por isso, Bruno deu um passo à frente — disposto a ser o cordeiro sacrificial pela segurança da família e pelo seu próprio futuro.
"Peço desculpas pela interrupção, mas gostaria de expressar minha opinião sobre o assunto, se for de sua permissão, sua graça…"
O pai de Bruno olhou para ele com atenção. O garoto era excepcionalmente inteligente e maduro para sua idade. Mas, ao interferir agora e falar com o príncipe — e não com ele —, era claro que havia alguma manipulação em jogo na cabeça do menino. O homem tentou impedir seu filho de cometer um erro, mas foi tarde demais.
O príncipe levantou uma sobrancelha e olhou para Bruno como se estivesse diante de uma criatura única. A maioria das crianças de sua idade nem perceberia a importância dessa conversa ou seu significado oculto. Mas Bruno parecia ter acompanhado perfeitamente o diálogo entre os dois nobres.
Não era um pouco assustador que uma criança possuísse tamanha inteligência e sabedoria? Ainda assim, ele não sabia por quê, mas queria ver o que Bruno iria dizer — e, por isso, acentuou o gesto com um aceno de cabeça, aceitando o pedido do menino.
"Fale à vontade, garoto…"
Embora Bruno tivesse memórias de um homem de meia-idade, ele havia reencarnado e renascido. Por isso, ainda era uma criança, e decidiu agir usando essa vantagem.
Assim, sorriu de forma gentil para a jovem que tinha seu futuro sendo discutido ao lado do dele, e preparou uma fala que salvaria sua família de falar bobagens diante de seus superiores.
"Gostaria de agradecer a sua benevolência, sua graça. Será uma honra me casar com sua filha, seja ela oficialmente reconhecida por sua família ou não..."
Essa resposta deixou o príncipe surpreso. Na verdade, ele não tinha a intenção de casar sua filha bastardinha com Bruno. Sua real intenção ao vir ali naquele dia era sabotear a família von Zehntner, que ele desprezava.
Afinal, a família von Zehntner era reverenciada por muitos nobres mais novos, que conquistaram seus títulos na última centena por bravura em batalhas ou por grandes feitos na ciência e na cultura.
Se atacassem uma família nobre mais antiga e consolidada, como a do próprio príncipe, poderiam difamar todas as famílias nobres emergentes. E esse era o verdadeiro objetivo do príncipe.
Mas havia mais pessoas que se incomodaram com a declaração de Bruno do que apenas o príncipe. Por exemplo, a mãe da criança foi rápida em exclamar, chocada, tentando fazer seu filho calar a boca de forma maternal.
"Cala a boca, menino, você não sabe—"
Porém, seu marido, que levantou a mão para silenciá-la, a interrompeu rapidamente. O homem tinha poucas interações com o mais novo dos filhos ao longo dos anos, mas ouvira histórias sobre sua genialidade. Em seus poucos encontros, o Lord sabia que seu filho possuía um grau assustador de inteligência e sabedoria — muito superior ao que uma criança de sua idade deveria ter.
Além disso, ele vinha monitorando todos os seus filhos e seu crescimento ao longo dos anos. Entre eles, Bruno se destacava por sua precocidade. Por isso, o Lord olhou para o menino com uma expressão severa e fez uma pergunta simples. A resposta de Bruno definiria seu destino.
"Bruno… você sabe o que está dizendo agora?"
Na verdade, o que o Lord queria dizer era: você entende as consequências do que fez e o impacto que isso terá no seu futuro?
Ao que Bruno respondeu, com um olhar igualmente sério e um leve aceno de cabeça, soltando uma única palavra:
"Perfeitamente…"
O pai de Bruno suspirou rapidamente, balançando a cabeça e passando a mão pela ponte do nariz, como quem tenta aliviar uma dor de cabeça. Depois, virou-se para o príncipe, que continuava olhando fixamente para o menino, como se algo estivesse errado com ele. A resposta do Lord terminou por despertar o príncipe de seu espanto, fazendo-o perceber que seus planos não tinham saído como esperado.
"Você ouviu o garoto. Não tenho escolha a não ser aceitar sua proposta. Meu filho Bruno, e sua filha Heidi serão casados quando atingirem a maioridade. Ou você está disposto a retirar sua oferta por motivos que não nos são conhecidos?"
Era evidente na expressão do próprio príncipe e de sua jovem amante que eles inicialmente não souberam como responder. Esperavam que o Lord recusasse e talvez até criasse um escândalo.
Assim poderiam manchar a reputação da família, rotulando-os como simples camponeses mal-educados disfarçados de nobres. Mas esse garotinho tinha se intrometido, aliviando o peso das costas de seus pais e assumindo a responsabilidade sozinho. Era realmente impressionante.
Antes que pudessem decidir como agir, Bruno tomou a iniciativa. Aproximou-se da menina, que ainda se escondia atrás da mãe. Ele tentou fazê-la confiar na sua gentileza, usando o sorriso mais inocente e gentil que conseguiu. E, ao mesmo tempo, confirmou que tudo estava acertado.
"Então, seu nome é Heidi? Prazer em conhecê-la, minha senhora. Meu nome é Bruno. Quando ficarmos mais velhos, vamos nos casar, e espero que cuide bem de mim quando esse dia chegar!"
A menina, ainda sem tanta desenvoltura, era uma criança normal. Mas, ao ver a gentileza de Bruno, começou a chorar e, instintivamente, o abraçou.
Uma atitude que o surpreendeu. A primeira reação de Bruno foi querer se afastar, mas sua mãe olhou para ele com ternura ao perceber sua bondade, e acabou o convencendo a ficar ali enquanto a jovem noiva lutava para dizer as palavras corretas entre soluços e seu abraço desajeitado.
"Eu… eu vou cuidar de você…"
No começo, Bruno não entendeu por que a menina chorava. Mas levou poucos segundos para perceber que, talvez, aquela fosse a primeira vez na vida que alguém lhe mostrava algum afeto. E, por isso, aceitou seu gesto com o coração apertado, mesmo sem palavras para responder.
Por outro lado, o príncipe começou a entrar em pânico. Ele já tinha perdido o controle da situação há muito tempo, e sua ansiedade só aumentava — até que Bruno, de repente, virou o olhar para ele.
O menino exibiu o sorriso mais malicioso que conseguiu, mostrando ao príncipe que a derrota tinha sido dele — fazendo o homem de meia-idade quase sofrer um ataque cardíaco, desabando de costas na mesa próxima, lutando para respirar.
Seu amante entrou em pânico rapidamente — não demonstrando, nem de longe, preocupações com a crise de seu marido, só se preocupando em verificar se ele estava bem.
"Sua graça! Você está bem?"
Mesmo parecendo estar à beira da morte, tudo o que precisou para o homem se recuperar foi perceber que tinha sido vencido por uma criança. Então, conseguiu se recompor após sua cena embaraçosa, saiu do cômodo drasticamente, deixando sua amante e a filha seguirem logo atrás.
"Você… eu… vamos embora!"
A mãe de Heidi puxou a filha para longe de Bruno, prometendo que voltariam em breve. Enquanto a menina, com os olhos marejados, limpava as lágrimas e corava, sendo arrastada pela mãe, usou toda sua coragem para acenar de despedida com um sorriso forçado ao garoto que, um dia, seria seu marido — quando ambos crescessem.
Já Bruno, retribuiu o sorriso com um rosto sereno, perfeito. E, assim que ela e a família saíram de alcance, seu semblante caiu numa expressão fria e estoica. Ele deu uma longa respiração, virou-se para o pai, que o encarava com uma expressão insatisfeita.
O pai de Bruno, que cresceu entre soldados, tinha o mau hábito de quebrar a etiqueta quando estava irritado com a família, e não perdeu a oportunidade de chamar seu filho de “filho da pm” e outros insultos vulgares que normalmente seriam inadequados a um nobre.
"Seu puto… O que você está planejando?"
Bruno apenas olhou de volta, completamente impassível, e falou com uma frase curta antes de partir:
"Nada que seja da sua conta, pai…"
Depois de dizer isso, virou-se e saiu pela porta. Enquanto seu pai desabafava na cadeira, frustrado, com a esposa.
"Aquele moleque vai ser o meu fim um dia…"
Já a mãe de Bruno, cheia de orgulho materno, acariciou os ombros do marido e lhe assegurou que tudo ficaria bem.
"Na verdade, nosso menino acabou de nos poupar um grande problema…"
Por fim, o Lorde não pôde discordar das palavras da esposa. Se Bruno não fosse tão perspicaz e disposto a se sacrificar pela família, poderiam estar em grandes apuros. E, se ele demonstrar esse talento tão precoce, seu pai talvez precise prestar mais atenção nele daqui em diante.