
Capítulo 1
Re: Blood and Iron
"Não através de discursos e decisões da maioria é que as grandes questões do dia serão resolvidas – mas pelo ferro e sangue." – Otto von Bismarck
Karl suspirou profundamente ao ler essa citação de um texto histórico exibido em seu celular. Logo em seguida, fechou o aparelho e ficou olhando pela janela do ônibus, que utilizava como transporte diário para ir e vir do trabalho.
Na era moderna, o papel da Alemanha no mundo era diferente do que fora no passado. Não era mais uma grande potência militar, capaz de exigir esforços conjuntos de toda a comunidade internacional para ser derrubada.
Pelo contrário, tornara-se uma nação rica e industriosa. Uma que liderava uma entidade econômica e política conhecida como União Europeia.
Mas, com suas derrotas repetidas no século anterior, Karl acreditava que a Nação Alemã e seu povo tinham perdido algo grandioso. Algo que era único em sua cultura e que nunca mais retornaria a este mundo.
E por mais que isso o incomodasse, suas crenças eram uma minoria nesta nova era. Na juventude, ele decidira seguir o caminho de seus antepassados e ingressar nas Forças Armadas alemãs, a Bundeswehr, como agora eram conhecidas.
Embora tivesse alguma experiência de combate no Afeganistão, já na velhice ele sabia que travar guerras em nome de interesses estrangeiros e de corporações internacionais não era uma experiência honrada.
Nesses dias, ele já passara da idade de lutar, e agora era instrutor na Escola de Comando e Estado-Maior da Bundeswehr, onde jovens oficiais eram moldados para se tornarem líderes capazes e, quem sabe, um dia generais.
A aula de hoje não tinha importância alguma. Por que algo que ele dissesse realmente importaria? A Alemanha estava muito atrás das outras grandes potências em termos de capacidades militares.
E mesmo com uma guerra tendo explodido na Europa Oriental, parecia apenas um sonho que um conflito mundial pudesse acontecer com eles, envolvendo a mobilização da Bundeswehr.
Com esses pensamentos pesando em sua mente, Karl estava sentado no ônibus, esperando que ele chegasse ao seu ponto. Mas algo estava errado. O ônibus parecia preso em um congestionamento incomum. Sem sinal de avançar.
Ele estava quase se levantando para perguntar ao motorista o que estava acontecendo, quando o som de tiros automáticos ecoou de uma distância moderada. Armas de fogo? Aqui em Hamburgo? Só podia saber uma coisa: isso só poderia significar uma coisa.
Os músculos do seu corpo, que haviam enfraquecido bastante com a idade e a falta de treinamento, de repente reagiram. Anos de experiência de combate na Guerra Global ao Terror impulsionaram o homem para frente, fazendo-o sair do ônibus.
Ele talvez não tivesse arma ou até uma faca consigo. Mas não podia ficar parado enquanto pessoas inocentes eram massacradas. Gritos enchiam o ar, uns arrancando sangue de medo, outros carregados de pavor. E, mesmo assim, os ecos dos disparos automáticos continuavam abafando os sons.
Eventualmente, Karl virou a esquina e encontrou a origem da confusão. Um pequeno grupo de homens, armados com rifles de proteção à moda AK, disparava contra as ruas lotadas de Hamburgo.
Em anos passados, um acontecimento assim seria quase impensável, mas, devido às leis de imigração frouxas da Alemanha, centenas de milhares, talvez milhões, de migrantes na faixa de idade militar tinham invadido o país e, de modo geral, a Europa, vindo principalmente de nações devastadas pela guerra.
O terrorismo era apenas "parte do pacote de morar numa grande cidade", como dizia um famoso motto do ex-prefeito de Londres. E Hamburgo não era exceção a essa regra. Mas isso não fazia Karl sentir medo, ao contrário, o que ele sentiu naquele momento foi uma ironia cósmica.
Apesar de décadas servindo no Exército alemão, nunca tinha tido uma oportunidade real de defender a pátria e seu povo. Agora, na velhice, com o corpo debilitado e cansado, ele tinha uma chance. Uma chance de fazer algo que honrasse seus antepassados.
Ao virar a esquina, ficou claro que um dos terroristas estava mantendo uma jovem como refém. Não, ela não era mais uma jovem, mas uma garota adolescente. Essa era uma descrição mais precisa.
Sabendo que a polícia ainda não chegara ao local do ataque, e que estavam provavelmente a minutos de chegar, Karl sentiu-se compelido a agir antes que essa jovem fosse morta, ou, pior ainda.
Ele rapidamente saiu de trás da esquina e atacou o terrorista próximo, que mantinha a refém. Fez isso agarrando o homem por trás, entrando com um movimento de estrangulamento na região do pescoço.
Um ato que deixou o terrorista surpreso, pois ele não esperava um ataque. Antes que pudesse disparar sua arma, Karl usou toda a força que lhe restava — e as técnicas de combate que aprendera na marinha — para quebrar o pescoço do inimigo.
O homem caiu ao chão, junto com sua vítima, mas, ao contrário do terrorista, ela ainda respirava. Antes que Karl pudesse fazer outra ação, uma rajada de tiros cortou o ar, e ele slamentou ao sentir um ardor no peito, percebendo que fora atingido por um dos outros dois homens.
Usando sua última força, Karl gritou para a jovem correr, enquanto suas pernas fraquejavam.
"Corra! Salve-se!"
A garota fugiu, sem sequer olhar para o homem de meia-idade que a havia salvo. Nem uma palavra de agradecimento. Mas para Karl, nada disso importava. A corrupção dos jovens, a falta de preocupação com o próximo — tudo isso era apenas um sintoma de problemas muito maiores neste mundo cruel.
Ele preferiria morrer aqui, de forma honrosa, defendendo seu povo, do que continuar desperdiçando sua vida em uma existência sem sentido, num futuro sem esperança ou felicidade.
Seus últimos pensamentos eram sobre quão amargurado ele se sentia com este mundo e seu estado degenerado atual.
"Esse mundo do **cacete**…"
*bang*
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Uma escuridão total envolveu Karl. Ele não podia falar, nem gritar, por mais que quisesse. Mas havia algo mais que ele percebeu enquanto jazia ali: não sentia dor, mesmo tendo sido atingido. Estava vivo, morto, ou esperando ser julgado por seus pecados nesta existência? Não fazia ideia.
Nem acreditava realmente que tais coisas fossem verdade. Se Deus realmente existisse, Karl tinha direito a uma dívida de gratidão pelos sofrimentos que suportara nesta existência miserável e sem sentido. E, como se suas preces tivessem sido de repente ouvidas, uma luz começou a surgir ao final de um túnel de trevas.
Por impulso, rastejou em direção à luz, apenas para se deparar com uma cegante claridade vinda do mundo exterior. Ou seria alguma outra coisa? De qualquer forma, ele não tinha ideia de onde estava ou do que estava acontecendo. Seu único indício era a voz de um homem ao fundo.
"É um menino! Parabéns, minha senhora…"
Sem controle de si mesmo, Karl logo foi entregue à sua mãe após o corte do cordão umbilical. Mal conseguia distinguir seus traços faciais enquanto sua nova mãe o abraçava ao peito, sorrindo com carinho, embora com um olhar cansado.
Somente após experimentar essa sensação arrebatadora, Karl percebeu que tinha sido realmente renascido.
Talvez, se tivesse uma clareza perfeita de visão, notaria que as coisas não eram exatamente como esperava. Ele não estava em um hospital — era uma criança renascendo. Mas sim em um quarto luxuoso, claramente de uma residência.
Além disso, a decoração era antiquada. Teria sido moderna há cem anos, ou quizás mais tempo, mas certamente não no presente. E então havia a equipe.
Enfermeiras e criadas atendiam à senhora da casa e ao seu recém-nascido. Não pareciam estar vestidas de forma condizente com o século XXI, o período em que ele havia morrido.
O que exatamente estava acontecendo? Então, a mãe obrigou Karl a olhá-la nos olhos. Ela estava cansada, evidentemente por ter passado horas em trabalho de parto, mas ainda assim deu um nome ao menino antes de ser levada para cuidar dele por sua ama-de-leite.
"Meu filho… A partir de hoje, você levará o nome do seu pai, Bruno…"
Karl, ou Bruno, como passou a ser chamado, foi levado enquanto sua mãe mergulhava no sono. Sem ver seu pai ao lado. Logo foi colocado para descansar em um bercinho, onde uma jovem bonita conversava com ele. Suas palavras seriam a última coisa que ele lembraria de sua reencarnação antes de perder a consciência.
"Jovem senhor Bruno, você foi agraciado com a maior honra de nascer como o nono filho da família von Zehntner. Tendo sido batizado com o nome de seu ilustre pai, não tenho dúvida de que alcançará grandes feitos na vida… Descanse agora…"