Assassino Atemporal

Capítulo 971

Assassino Atemporal

(Enquanto isso, ponto de vista de Raymond)

‘Será que estou sonhando?'

A cabeça decapitada de Raymond se perguntou, pois mesmo tendo sido separada do corpo, a consciência ainda insistia em existir por alguns momentos efêmeros, teimando em não aceitar o que seus sentidos tentavam lhe dizer enquanto o mundo parecia inclinar-se de forma estranha e o céu parecia muito perto.

Algo estava errado.

Não havia peso.

Sem corpo.

Sem ar passando pelos pulmões.

E mesmo assim, visão e pensamento persistiam.

‘Huh? O que está acontecendo?’

Ele se perguntou, enquanto os sons chegavam fragmentados, distorcidos e distantes, como se o campo de batalha tivesse sido empurrado bem longe dele, abafado sob camadas de algodão e sangue, enquanto o chão se aproximava devagar demais.

‘Como ele foi tão rápido mesmo?’

A próxima dúvida veio de forma aguda e nervosa, cortando a névoa enquanto a memória se repetia em flashes desconexos: o passo à frente de Leo, o espaço se dobrando de forma anormal, a sensação de pressão gritando pelo ar antes mesmo que os instintos de Raymond pudessem terminar de gritar perigo.

‘Que técnica desumana foi essa?’

Ele se perguntou, enquanto a confusão se transformava em incredulidade ao tentar montar o quebra-cabeça do momento novamente, revivendo-o de todos os ângulos possíveis, desesperadamente procurando pelo erro que certamente devia estar lá.

‘Aquela velocidade não era mortal.’

Seus olhos se moveram, sua visão girando enquanto a cabeça rolava contra uma pedra quebrada, e, na névoa, ele viu.

Leo Skyshard.

Ainda de pé.

Ainda respirando.

Ainda sorrindo.

O corpo de Leo estava em ruínas, sangue encharcando suas roupas, escorrendo livremente pela boca e por ferimentos que teriam feito qualquer outro homem cair há muito tempo, mas sua postura permanecia ereta, seu olhar calmo e firme enquanto olhava para Raymond, não com ódio ou raiva, mas com a certeza silenciosa de alguém que já tinha vencido.

'Não…'

Os pensamentos de Raymond giraram violentamente à medida que a realidade começava a se firmar.

'Como pude ser derrotado por um mero mortal?'

A pergunta ecoou inútil dentro de sua mente fading, orgulho gritando mais alto que a dor, enquanto a raiva inflamava em seu peito, quente e sufocante, resistindo à escuridão que se aproximava.

"Não ouse me subestimar, mortal!"

Ele tentou gritar.

No entanto, ao invés de palavras, apenas sangue saiu de sua boca, espesso e borbulhante, escorrendo inutilmente sobre a pedra, enquanto que a mandíbula tremia e a visão se turvava ainda mais, sua ira sem saída enquanto seu corpo se recusava a obedecê-lo pela última vez.

*Estouro*

*Gargarejo indiscernível*

Passaram-se segundos, e lentamente a raiva diminuiu, o calor se esvaindo, dando lugar a algo mais frio.

Medo.

'Isso deve ser algum tipo de engano.'

A ideia veio fraquejante agora, já não mais afiada, nem mais dominante.

'Não posso morrer aqui…'

Seu entorno escureceu como se alguém estivesse lentamente apagando a luz do mundo, as pontas da visão escurecendo primeiro, enquanto sombras se fechavam de todos os lados e as sensações começavam a desaparecer pedaço por pedaço.

'Ainda não posso morrer.'

O pânico voltou, cru e desesperado.

'Pai!'

O nome atravessou sua mente como uma tábua de salvação.

'Alguém chame meu pai!'

Ele buscou desesperadamente, os olhos arregalados, procurando por qualquer sinal de Kaelith, por qualquer presença que pudesse intervir, negar esse fim ou puxá-lo de volta do limite para onde estava escorregando rápido demais.

Porém, para seu horror, não havia ninguém.

Sem aura familiar.

Sem resposta.

Somente Leo.

E silêncio.

O campo de batalha parecia impossivelmente distante agora, como se pertencesse a um outro mundo completamente, a percepção pesando com o peso esmagador de que aquilo não era um engano, nem um sonho prestes a acabar, mas algo real.

'Tinha tanto ainda para fazer…'

A ideia pairou nele, mais lenta agora, carregada de arrependimento do que de raiva.

'Tanto por conquistar.'

Memórias surgiram sem aviso, ambições, expectativas, futuros que ele achava garantidos apenas por quem era, imagens de poder ainda não reivindicado, alturas ainda não alcançadas.

'Ainda não tinha me tornado um Deus.'

A ironia cortou forte, amarga e definitiva.

'E agora…'

A ideia nunca se completou.

Sua consciência se quebrou, o entendimento escorrendo pelos dedos como areia, enquanto as pálpebras pesavam insuportavelmente, cada piscar ficando mais longo que o anterior.

*Escuridão*

O mundo se estreitou em um túnel, e no centro dele estava Leo Skyshard, ensanguentado, derrotado e sorrindo.

Aquela imagem queimou-se na mente de Raymond, cada vez mais fraca.

'Leo Skyshard… seu filho da mãe.'

A mágoa permaneceu, mesmo enquanto tudo o mais se desfazia.

'Meu pai vai me vingar…'

A ideia ressoou fraca, mais esperança do que convicção, enquanto a escuridão finalmente engoliu o que restava dele, fechando seus olhos para sempre, enquanto sua consciência se dissolvia na inexistência.

'Meu pai vai fazer você pagar por isso…'

Ele rezou, enquanto o último coisa que viu foi o mortal que o havia terminado, de pé, vitorioso, e depois disso, nada mais existiu.

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