
Capítulo 969
Assassino Atemporal
Por um tempo, ninguém se moveu.
Cada Deus prestou sua última homenagem a um inimigo formidável, enquanto observavam a figura caída de Soron com emoções complexas crescendo em seus corações, e o campo de batalha permanecia suspenso numa silêncio tão denso que até a cinza que ia caindo parecia relutante em cair.
Soron jazia onde havia caído, com um joelho apoiado na pedra quebrada, uma mão solta próxima à Daga Guardiã do Ressentimento cravada ao seu lado, seu rosto assustadoramente calmo, enquanto a fraca curva de um sorriso ainda se desenhava nos cantos dos lábios, como se a própria morte não tivesse conseguido tirar dele sua afronta.
Ru Vassa foi a primeira a desviar o olhar.
Sua braço caiu lentamente, os dedos se cerrando com força como uma onda de alívio que chegou atrasada, e tremia, deixando-a fraca mais do que vitoriosa, como se um peso terrível tivesse finalmente sido levantado, só para revelar o vazio que o sustentava.
Soron não estava mais ali.
O pesadelo tinha acabado.
E, ainda assim, abaixo daquela sensação de alívio, uma inquietação rastejante começou a se enraizar no seu peito, porque Soron havia caído sozinho, enquanto Kaelith ainda estava vivo.
"O universo sempre precisa de um vilão ao qual se possa se agarrar."
"Com Soron fora de cena, quem será o próximo a assumir esse papel?"
Ru Vassa pensou, enquanto, de forma insegura, torcia para que não fosse ela ou suaclã, uma sensação de medo silencioso se aprofundando ainda mais em seu peito enquanto seus olhos finalmente baixaram.
Lu Han não desviou o olhar.
Com a ponta da espada apoiada no chão, ele encarava o corpo de Soron com os olhos semicerrados, não por ódio, mas por descrença, como se ainda esperasse que o Culto Mestre levantasse-se de novo, risse, retirasse a poeira das vestes e lembrasse a todos que homens como Soron não simplesmente desaparecem.
"Você foi o melhor guerreiro que tive a honra de medir forças."
"Talvez, se fosse outra vida, pudéssemos ter sido amigos."
Lu Han pensou, deixando escapar um suspiro profundo e contido, os olhos ainda arregalados, lutando para entender a morte de um Deus, mesmo que fosse um inimigo.
*Olhar*
*Deslocar-se*
Por um tempo, ninguém falou nada, até que, de repente, Mauriss se moveu.
*ESTRIDÊNCIA*
Avançando com uma velocidade repentina e irreverente, Mauriss deslizou de forma tão suave entre Kaelith e o corpo de Soron que parecia que o próprio espaço se abriu para facilitar sua passagem, enquanto sua risada borbulhava alto e inapropriada diante do peso do momento.
"Ah—ah—ah," Mauriss riu quase de forma carinhosa, passando ao lado de Kaelith sem dar-lhe uma olhada, concentrando toda sua atenção em um único objeto com uma intensidade predatória.
A Daga Guardiã do Ressentimento.
*Apertar*
Sua mão se fechou ao redor do punho com uma fome evidente, os dedos se apertando como se temesse que ela desaparecesse se hesitasse por um instante, o metal de origem zumbindo suavemente ao aceitar sua pegada, seu peso se acomodando na palma da mão como um prêmio há muito esperado.
*Deslizar*
"Consegui… É minha."
Declarou, saindo do lado oposto, com uma expressão de alegria enquanto levantava a adaga, admirando-a abertamente, o brilho nos olhos ao girar a lâmina para refletir a luz, como quem analisa uma relíquia arrancada da própria lenda.
"Nossa, que coisa maravilhosa de se deixar para trás."
Ele disse, a voz carregada de zombaria, enquanto ao redor dele, o caos começava a se desenrolar.
Quando Mauriss ergueu a Daga Guardiã do Ressentimento bem à vista, a inquietação que fermentava por baixo da superfície explodiu violentamente, pois cada Deus presente compreendeu instintivamente a mesma verdade de uma só vez: uma arma de Metal de Origem, especialmente uma tão formidável quanto a Guardiã do Ressentimento, não poderia ficar nas mãos de um psicopata como Mauriss sem que algo fosse feito.
Ru Vassa sentiu primeiro, uma dor aguda no peito ao fixar o olhar na adaga, seu alívio minutos atrás evaporando-se em um frio medo, porque qualquer equilíbrio que a morte de Soron tinha restabelecido agora ameaçava ruir novamente.
"Aquela lâmina…" ela murmurou baixinho, os dedos se mexendo inconscientemente enquanto a essência divina começava a se concentrar na palma da mão. "Ele não pode ficar com ela."
Lu Han apertou sua espada com força também, seus instintos gritando tão alto quanto, porque um tesouro capaz de matar um Deus não representa apenas poder, mas também influência, medo e a capacidade de reescrever hierarquias que existem há milênios.
E, se os Grandes Clãs fossem algum dia reescrever as dinâmicas do poder universal, era absolutamente crucial que eles garantissem uma dessas armas nas mãos próprias.
Kaelith virou de repente, os olhos se estreitando ao perceber finalmente o que Mauriss havia tomado, sua mandíbula se cerrando de fúria quase incontrolável, pois aquela adaga jamais tinha sido destinada ao Enganador, e Mauriss roubando-a tão descaradamente teria deixado qualquer um louco.
"Mauriss," disse Kaelith friamente, com um tom de advertência na voz. "Deixe isso aí."
Ele avisou, enquanto Mauriss apenas ria em resposta.
O som era leve, quase brincalhão, como se fossem crianças discutindo por um brinquedo ao invés de Deuses encarando uma catástrofe futura, enquanto ele movia casualmente a adaga na mão e recuava meio passo, já intuído suas intenções com facilidade.
"Vamos lá," respondeu com jeito brincalhão. "Não me olhe desse jeito. Ele está morto. Só peguei o que sobrou."
Justificou, quando, naquele momento, todos avançaram ao mesmo tempo.
Yu Kiro foi o primeiro, a lança reluzindo ao avançar com um golpe rápido e preciso, não para matar, mas para desarmar, seu ataque treinado por séculos de instinto de combate. Contudo, Mauriss já havia desaparecido antes mesmo que a lança tocasse-o, escorregando de forma tão fluida que parecia mentira.
*SOM RÁPIDO*
Ru Vassa foi logo em seguida, sigilos múltiplos se formando ao seu redor na tentativa de amarrar Mauriss no lugar, fios de magia se unindo para prender seus membros e cortar seu movimento, só que ele se virou no meio do passo, fazendo as magias passarem pelo espaço onde estivera a um instante.
Lu Han entrou na luta, a espada brilhando em um arco controlado, tentando tirar a adaga de suas mãos, enquanto Du Trask, ignorando a dor no braço destruído, forçou-se a avançar, pressionando Mauriss de três lados ao mesmo tempo.
*SOM DE metal batendo*
*ESTALO*
*EXPLOSÃO*
Por mais que tentassem, falharam.
Mauriss se movia entre eles como uma sombra com intenção, seus movimentos rápidos, precisos, irritantemente certeiros, usando o caos dos ataques coordenados contra eles, deixando um golpe interromper o outro, entrando em pontos cegos que não deveriam existir, rindo o tempo todo como se esse fosse o jogo mais divertido que jogara em séculos.
"Cuidado aí," zombou suavemente, desviando a lâmina de Lu Han com a parte plana da empunhadura da adaga, o metal de origem reverberando com um som que fez cada Deus estremecer. "Vocês vão se machucar."
Kaelith rosnou e foi até lá, as duplas de adagas reluzindo enquanto tentava superar Mauriss na aproximação, as lâminas colidindo numa troca rápida e violenta, faíscas e pedaços de espaço distorcido voando por todos os lados. Ainda assim, Mauriss nunca soltou sua pegada.
Por mais que tentassem, cada golpe, a pressão, a tentativa desesperada de tirar a adaga de sua mão, ela permanecia ali, como se fosse algo que ele escolheu naquele momento, vibrando numa ressonância que tornava o ar fino demais.
Gradualmente, uma terrível compreensão finalmente se instalou.
Eles não podiam tirá-la dele.
Nem rapidamente.
Nem de forma limpa.
E certamente, sem consequências.
Quando Mauriss finalmente se afastou, deu alguns passos tranquilos para trás, girando a Daga Guardiã do Ressentimento uma vez antes de acomodá-la ao lado, com um sorriso ainda mais largo, olhos brilhando de satisfação ao observar sua frustração.
"Oh, meu," disse suavemente, quase reverente.
"Vocês parecem tão preocupados... exatamente como deveriam estar."
Brincou, guardando a adaga em seu anel de armazenamento, e permanecendo na postura de quem acha que o assunto já terminou.