Assassino Atemporal

Capítulo 958

Assassino Atemporal

(Alguns dias antes, Planeta Ixtal, ponto de vista de Leo e Soron)

*Vapor subindo*

*Luz do sol entrando através de vidro tingido*

Soron sentou-se em frente a Leo, com uma xícara de chá quente nos mãos, finos filamentos de vapor se levantando enquanto a luz dourada atravessava as janelas e cobria metade de seu rosto com uma suave calor, enquanto a outra permanecia mergulhada na sombra, pensativa e impossível de decifrar.

Ele escutava sem interrupções, com os olhos baixos sobre a superfície do chá, como se a resposta pudesse estar ali esperando.

"Pense nisso, Mestre do Culto," disse Leo com firmeza, inclinando-se um pouco para frente, demonstrando convicção sem parecer apressado.

"Se você abrir um caminho para a Quarta Dimensão exatamente a noventa e quatro vírgula quarenta e quatro graus a partir do centro do Abismo, encontrará Moltherak esperando do outro lado, já enroscado e preparado."

O sobrancelha de Soron tremeu quase imperceptivelmente.

"Desde que você consiga enganar um dos Deuses para passar por ele," continuou Leo, com a voz calma mas determinada, "então isso já é suficiente. Moltherak fará o resto."

A sugestão pairou no ar entre eles, ousada a ponto de parecer imprudente, enquanto Soron permanecia em silêncio, levantando a xícara aos lábios e dando um gole lento, a temperatura o ancorando enquanto sua mente acelerava, passando por possibilidades, estratégias, riscos e fracassos inevitáveis.

Por um longo momento, o único som na sala era o tilintar suave da porcelana.

Então ele respirou fundo, com calma, abaixando a xícara enquanto limpava a garganta.

"Vou te valorizar por uma coisa, garoto," disse Soron finalmente, um sorriso cansado e tênue surgindo nos cantos da boca. "É um plano bem audacioso e criativo."

Ele passou a mão pelos cabelos, puxando os dedos para trás como se tentasse fisicamente afastar o pensamento.

"Mas forçar um Deus a entrar em um portal que ele não quer passar não é exatamente uma jogada comum," continuou, com o tom ficando mais sério. "Ainda mais quando vou lidar com sete adversários ao mesmo tempo."

Soron inclinou-se um pouco para trás, o olhar perdendo-se na janela, como se lembrando de batalhas passadas contra outros Deuses.

"Você entende que combate de nível divino não acontece de maneira limpa na Terceira Dimensão," disse em voz baixa.

"Ele ocorre entre a Terceira e a Quarta, justamente na fronteira onde a realidade deixa de ser… cooperativa."

Ele olhou novamente para Leo.

"O tempo não se comporta normalmente lá."

"E se eu parar até por um instante, por menor que seja, para empurrar alguém num portal, essa ação vai me custar tudo o que tenho."

Seus dedos apertaram levemente ao redor da xícara.

"Eu estaria trocando um movimento pela minha vida," afirmou Soron de forma direta. "Seis outros ataques aconteceriam no mesmo instante. Tenho certeza disso."

A verdade pesada ficou no ar, enquanto Soron vasculhava seus próprios pensamentos à procura de uma solução alternativa, de uma inversão ou brecha inteligente que pudesse tornar o plano mais seguro.

Porém, infelizmente, naquele momento, ele não encontrou nenhuma.

"Não prometo que consigo fazer isso," disse, finalmente, encarando Leo de frente. "Mas o que eu posso prometer é que vou tentar."

Leo ficou em silêncio, ouvindo.

"Vou tentar convencer o Helmuth," acrescentou Soron. "Se alguém pode ser levado a exagerar na aposta, é ele. Mas não vou arriscar minha vida só para que isso aconteça."

Ele fez uma pausa, após a qual falou em tom mais baixo.

"Se, entre agora e a batalha, eu encontrar uma forma de fazer isso sem morrer, eu me dedicarei completamente ao seu plano."

"E se não conseguir…", ele balançou a cabeça uma vez, "…prefiro passar meus últimos minutos tentando derrubar o máximo de porcaria possível enquanto meu corpo ainda responde à minha mente."

Terminou seu chá com um último gole, como se fosse seu final.

*Toque*

Colocando a xícara vazia de volta na mesa, ele olhou para Leo, que assentiu solenemente, como se tivesse entendido exatamente o que Soron tentava transmitir. Pois, no fundo, Leo compreendia que não era um Deus… E que, embora pudesse traçar estratégias teoricamente, executar esses planos cabia apenas a Soron.

"Faz sentido," disse Leo após um momento. "Vou pedir para Moltherak estar lá, só por garantia, caso você realmente consiga fazer isso…"

Ele encarou Soron com firmeza.

"Noventa e quatro vírgula quarenta e quatro graus, Mestre do Culto.

Só tenta, se puder."

Disse, enquanto Soron assentia lentamente, com o peso do futuro sobre os ombros, enquanto a luz do sol continuava a inundar a mesa, alheia à guerra que se armava sob sua luz.

—----------

(O presente, Abismo, ponto de vista de Soron)

Quanto mais se aproximava do coração do Abismo, mais vívido se tornava na sua memória a conversa com Leo, enquanto o número '94,44' parecia repetir-se na sua cabeça, incessantemente.

"Só tenta, Mestre do Culto… Se puder."

Soron recordou as palavras de Leo, e, de modo estranho, olhando para aquela conversa agora, não pôde deixar de sorrir ainda mais amplo.

*Passo*

*Desviar*

*Estilhaçar*

Se esquivando dos ataques de sete oponentes, continuou avançando rumo ao coração, enquanto liderava os adversários no engano, pois naquele momento, finalmente vislumbrou uma solução para dois dos maiores problemas que pesavam em sua mente desde os últimos dias.

'Finalmente vejo… Finalmente encontrei a maneira de passar a armadura de Guardião da Rancor e empurrar Helmuth para a Quarta Dimensão.'

Soron pensou, num raro momento de clareza, descobrindo uma sequência de ataques que talvez pudesse realizar o impossível.

'Leo Skyshard, seu maluco.

Ah, como eu desejaria ter te conhecido alguns séculos atrás.

Quem sabe, se tivéssemos nos encontrado então, eu não precisaria morrer depois desta batalha.

Quem sabe, se tivéssemos nos encontrado naquela época…

Talvez eu tivesse tido a sorte de te ver reconstruir o Culto com meus próprios olhos.

Infelizmente, o destino não foi tão generoso comigo.'

Pensou, enquanto uma lágrima pequena se formava no canto do olho.

Sorrindo com os lábios, mas com o coração apertado, ao perceber que tinha poucos minutos de seu corpo ainda suportando seu peso nesta dimensão, antes que parasse para sempre.

Comentários