
Capítulo 942
Assassino Atemporal
(Continuação da Transmissão ao Vivo da Execução, Pelo Universo)
Ao longo de inúmeras regiões da Facção Justa, estações, habitats orbitais e mundos, o clima mudou de uma forma que nenhum analista tinha previsto: a transmissão ao vivo da execução deixou de parecer distante e simbólica para os Civis e passou a ser desconfortavelmente pessoal.
Inicialmente, muitos cidadãos assistiam à cena no Quarto Anel com confusão, ao invés de medo, franzindo as sobrancelhas enquanto tentavam entender por que os dignitários estavam sendo contidos, pois certamente havia uma razão, algum protocolo invisível, alguma lógica superior que justificava aquilo que viam.
"São militares," murmura alguém em uma cúpula de habitação cheia de gente, cruzando os braços de forma defensiva enquanto mantém os olhos fixos na tela. "Estão apenas seguindo ordens. Provavelmente não têm escolha neste momento."
Alguns assentiram, gratos por uma explicação que permitia que o universo permanecesse organizado.
Porém, quanto mais tempo as câmeras focavam nos convidados em pânico, mais forte tornava-se o desconforto.
"Espera… não é o Darren Fletcher?" perguntou de repente uma mulher, inclinando-se mais perto da tela enquanto a imagem se aproximava de um homem que gritava e batia inutilmente contra escudos segurados pelos Monarchs.
"O aventureiro famoso? Aquele que limpou sozinho as Ruínas de Akmi?"
Sua voz tremeu levemente.
"Ele salvou três colônias na fronteira durante a Sobrecarga do Rift," completou outra pessoa, com reconhecimento surgindo em seus olhos enquanto a inquietação tomava seu tom. "Ele recebeu uma medalha de bravura nesta mesma transmissão."
Em outro mundo, numa praça de mercado movimentada, um silêncio tomou conta ao aparecer na transmissão um rosto familiar, seus trajes meticulosamente ajustados agora desalinhados enquanto ela suplicava por passagem.
"Não é a Professora Liora Vance?" sussurrou um jovem, baixando instintivamente a voz. "A cientista que desenvolveu os estabilizadores atmosféricos? Meu mundo natal usa a tecnologia dela."
"Ela é praticamente um patrimônio nacional," comentou outra pessoa, engolindo em seco. "Por que ninguém está ajudando ela?"
As justificativas começaram a se desintegrar.
Algumas ainda tentavam defender os Monarchs, vozes tensas de lógica forçada, insistindo que o Quarto Anel precisava permanecer fechado, que proteger deuses e semi-deuses tinha prioridade, que sacrifícios eram inevitáveis na guerra.
"É assim que funcionam as formações," argumentou um comentarista em um painel de rede local, enquanto enxugava o suor da testa. "Se o núcleo cai, Soron escapa e o Culto do Mal continua seu reinado de terror. Isso é necessário."
Porém, mesmo enquanto suas palavras saíam, a dúvida começava a surgir.
Pois as pessoas na tela não eram mais elites sem rosto ou títulos abstratos.
Eles tinham nomes.
Histórias.
Faces que cidadãos por todo o universo reconheciam.
E, com essa percepção, uma questão profundamente perturbadora começava a enraizar-se na mente de bilhões de seres… uma pergunta que parecia tão óbvia: se pessoas tão importantes estavam sendo abandonadas à própria sorte pela Facção Justa, então qual seria a chance de civis como eles serem realmente protegidos quando os tempos ficarem ainda mais difíceis?
Em apartamentos, famílias silenciaram, sentindo uma inquietação crescente no peito.
"Se eles não vão salvar…" murmurou um homem suavemente, a voz baixa e trêmula enquanto encarava a tela. "Por que eles deveriam se preocupar em tentar nos salvar?"
Ninguém lhe respondeu.
Nos transportes públicos, as conversas morriam no ar, enquanto os passageiros ficavam paralisados, assistindo civis gritar, implorar e, por fim, desabar de desespero diante de Monarchs imóveis, com formação imutável e indiferente.
Este não era o retrato justo que as pessoas tinham crescido acreditando.
Não era a promessa de proteção em que confiaram.
À medida que a transmissão ao vivo continuava, o desconforto tornava-se mais pesado, pressionando os espectadores em todos os lugares, e a questão surgia de novo e de novo, com palavras diferentes, mas com o mesmo significado.
Quando chegar a hora…
Quem vale a pena salvar?
E quem será mandado a permanecer parado e aceitar seu destino?
Quando a transmissão terminou, muitos civis não comemoraram, não discutiram, nem falaram nada. Simplesmente desligaram as telas em silêncio, inquietos com o pensamento de que a guerra já tinha chegado até eles, não por invasão ou destruição, mas por uma dúvida que não podiam mais ignorar.
"Cara, isso é uma baita palhaçada! Por que eles simplesmente não se movem?"
Por fim, um homem explodiu em um átrio residencial lotado, a voz rouca enquanto batia com força na grade abaixo da tela.
"Estão lá parados como estátuas enquanto as pessoas imploram na frente deles. Que tipo de piada doentia é essa?"
Ele gritou, e vários outros se revoltaram de repente, a raiva se espalhando mais rápido do que o medo alguma vez conseguiu.
"Não são ninguém!", interrompeu furioso uma outra voz. "Aquele ali na tela é Darren Fletcher. Darren, seu filho da mãe Fletcher. Se ele for mandado a se ajoelhar e esperar a morte, o que exatamente a gente deve esperar?"
Ela falou, enquanto as mãos tremiam e ela apontava para a transmissão, na qual os Monarchs permaneciam imóveis gravados na mente dela.
"É exatamente por isso que o Culto os chama de mentirosos," comentou um homem próximo, baixinho e venenoso, antes que pudesse se controlar. "Todo esse papo de justiça e proteção, e no momento que é incômodo, eles se recusam a se mover."
Ele falou, enquanto as cabeças ao redor lentamente se voltavam para ele, não em indignação, mas em reconhecimento sombrio.
"Nem pense em defendê-los agora," interrompeu alguém quando outro tentou falar. "Nem pense em desculpar com 'ordens' outra vez."
Um verdadeiro homem protegeria os fracos.
Esconder-se atrás de ordens é sinal de fraqueza."
Por praças e centros de trânsito, as vozes começaram a subir, sobrepostas, enquanto a indignação finalmente se libertava: os civis pararam de sussurrar e começaram a gritar — a transmissão parecia menos uma transmissão e mais uma acusação direta a eles.
"Então me diga," exclamou uma mulher, a voz aguda e trêmula, "quando as coisas ficarem ruins aqui, quando for nossa vez de entrar em pânico, a gente vai ganhar um escudo… ou também vai ser mandada a ficar paradas?"
Perguntou, sem resposta de ninguém.
Pois ninguém podia responder.
A percepção se espalhou rápida e feia, não mais como medo, mas como raiva transformada em algo perigoso, enquanto as pessoas começavam a questionar se o 'Governo Universal' estaria realmente trabalhando a favor de sua segurança e bem-estar ou não.
Quando a transmissão foi cortada, o estrago já era irreversível.
Embora a Facção Justa não tivesse perdido território naquele momento, o que ela perdeu foi algo muito mais valioso: começaram a perder a presunção de que poderiam confiar, de que seriam protegidos. Gerações de propaganda começavam a se desfazer em tempo real.