
Capítulo 904
Assassino Atemporal
(Continuação da transmissão ao vivo da Execução, 'O Poço')
A luta não cessou.
Ela simplesmente mudou de forma.
Helmuth não deu a Soron tempo para se recompor, respirar ou refazer a troca que havia escapado de suas mãos, enquanto o Deus Berserker torcia a empunhadura e avançava novamente com violência renovada, sua aura se tensionando em vez de se inflar, o calor sendo absorvido para dentro, em vez de expelido. Desta vez, ele não balançou a arma, mas sim a empurrou pra frente.
*JAB*
A machadada avançou como uma lança, com a lâmina inclinada para pegar e rasgar, enquanto Helmuth inclinava os ombros e colocava toda a força de seu corpo por trás da arma, transformando-se em um projétil vivo ao impulsionar a lâmina na direção do peito de Soron com a intenção de prender o oponente na pedra e abri-lo numa única e decisiva golpe.
Para isso, os punhais de Soron se ergueram cruzados, não com a intenção de bloquear, mas de redirecionar o golpe.
*CHING*
Soron segurou a cabeça do machado entre as lâminas sem deixar o metal realmente tocar, a pressão divina comprimindo entre elas como uma mandíbula travada, enquanto rodava os pulsos e deslizava a arma para o lado por uma fração que não deveria importar, mas que, num combate desse nível, mudou completamente o desfecho.
*SUSSURRO DO VENTO*
O impulso de Helmuth errou o alvo.
Não por pouco.
Por uma decisão.
A machadada passou perto das costelas de Soron o suficiente para fazer o calor rasgar a roupa, mas Soron se moveu junto com ela, não para longe, mantendo-se na linha do ataque como se fosse arrastado, e, nesse mesmo movimento, deu um passo atrás do ombro de Helmuth.
*ENGASGADO*
*GROTA*
O público voltou a gritar, pois, para eles, Soron havia desaparecido e reaparecido no lugar errado, a movimentação parecendo algo que indicava uma morte certa para Helmuth.
No entanto, Helmuth não morreu.
Helmuth riu.
"HAHAHAHA!"
O som atravessou a confusão, sincero e cheio de prazer, enquanto o Deus Berserker recuava de costas, numa inclinação que deveria ter quebrado sua coluna, seu corpo dobrando-se só o suficiente para atrapalhar a linha de ataque de Soron, enquanto sua mão livre se estendeu para trás e fechou ao ar vazio… Exceto que não estava vazio.
*Apertar*
A mão dele fechou-se ao redor do pulso de Soron, num contato adiante, pela primeira vez.
Nada de carne contra carne.
Aura contra aura.
Enquanto Soron se via preso numa prisão feita de calor e vontade.
"Consegui você agora, Mestre do Culto."
Helmuth provocou, mas Soron não entrou em pânico. Sua mão pairava a um fio de cabelo do pescoço de Helmuth, enquanto a lâmina tremia levemente sob pressão.
*PUSHHHH*
Ambos os deuses pressionaram um contra o outro com toda força, e a plataforma pareceu congelar.
Um punho trancado.
Uma adaga parada.
Uma única respiração em que um Deus impediu o outro de completar uma ação.
O olhar de Soron se afinou.
Sorrido de Helmuth se alargou.
Então, Soron soltou a adaga.
Não por deixá-la cair, mas girando os dedos de modo que a arma girasse dentro do seu grip, sem mover-se pelo espaço, fazendo a adaga virar de ponta a ponta, permitindo que sua mão escapasse do aperto de Helmuth, enquanto ele a segurava novamente pelo cabo de um novo ângulo. Helmuth teve a mão fechada de volta no vazio, um pouco tarde demais.
*Batida de palma*
*Batida de palma*
Mauriss começou a aplaudir.
Devagar.
De forma debochada.
Como quem aplaude uma apresentação.
Enquanto Helmuth virou a cabeça de lado, cuspindo um hálito de calor, uma irritação surgindo em seu rosto, mas sua atenção nunca saiu de Soron, pois o Deus Berserker podia senti-lo agora, a linha fina que separa o domínio da humilhação.
Ele avançou novamente.
Sem esperteza.
Sem contenção.
Apenas combate bruto.
A machadada subia e descia num ritmo brutal, cada golpe mais rápido que o anterior, enquanto Helmuth tentava afogar Soron na inevitabilidade, tentando fazer seu movimento tão denso que nenhum grau de precisão pudesse passar por ele.
No entanto, Soron respondeu tornando-se menor.
Não fisicamente.
Taticamente.
Reduzindo seus movimentos a mínimas mudanças, conservando distância como se fosse oxigênio, enquanto seus punhais trilhavam linhas delicadas pelo ar — ainda que não fossem ataques, mas calibrações — medindo o tempo de Helmuth, testando seu alcance e mapeando os micros delays entre intenção e execução.
Para a maioria dos espectadores, parecia que Soron mal se movia.
Para quem conseguia enxergar de verdade, parecia que Soron se mexia demais para ser real.
Houve momentos em que o machado de Helmuth passou pelo espaço de Soron, e Soron estava lá, inalterado.
E momentos em que os punhais de Soron pulavam em direção à garganta de Helmuth, e Helmuth permanecia inteiro, intocado, como se o próprio universo se recusasse a permitir que um deles recebesse, de primeira, a ferida verdadeira dentro dessa cela.
Então Helmuth mudou novamente.
Parou de perseguir.
Começou a esperar.
Firmou os pés, com o machado baixo e pronto, o calor ao invés de explodir, seus olhos fixos em Soron com uma calma de predador que parecia errada para um berserker, como se a raiva tivesse aprendido a ter paciência para matar.
Soron percebeu.
Os ombros dele diminuíram uma fração.
Os passos desaceleraram.
Seus punhais inclinaram-se para dentro.
A primeira fase acabou sem golpe decisivo, mas o ar ficou mais pesado, pois agora os dois deuses estavam se estudando de verdade, e a próxima troca não seria caótica.
Seria limpa.
Seria intencional.
Pelo universo, trilhões prenderam a respiração novamente, não porque um golpe tinha sido desferido, mas porque nenhum tinha, e até os espectadores mais distantes podiam sentir que a luta finalmente começava a fazer sentido para os combatentes, mesmo enquanto permanecia incompreensível para todos os demais.
E, ao levantar novamente seu machado, e Soron ajustar sua postura sem dar um passo, ele murmurou uma frase que só Leo entenderia, pois sabia que Leo estaria assistindo de Ixtal.
"Por que não experimenta este aqui?"
Disse Soron, enquanto, de volta em Ixtal, Leo sentia um arrepio subir pela pele ao ouvir essas palavras, e imediatamente pulou de pé, fazendo um sinal para seus Comandantes que era hora de avançar.