Assassino Atemporal

Capítulo 900

Assassino Atemporal

— Não se preocupe, estou aqui para salvar você agora…

As palavras ecoaram sem esforço pelo pátio de execução e além dele, amplificadas pelas redes de transmissão ao vivo até transbordar em todos os mundos conectados ao mesmo tempo, enquanto bilhões de telas pelo universo exibiam a expressão calma de Soron e o Dragão ajoelhado aos seus pés, a declaração se asentando como uma pedra lançada em água parada.

Em sistemas distantes, as reações se fragmentaram instantaneamente.

Em alguns mundos, a indignação explodiu à medida que os cidadãos começaram a bater punhos nas mesas e a gritar diante das imagens projetadas, incapazes de suportar o desrespeito que Soron demonstrava em relação ao Governo Universal.

Enquanto em outros, a ansiedade se espalhava — mais silenciosa, mas mais profunda — à medida que as pessoas se aproximavam mais de suas telas com expressões tensas, percebendo que havia algo errado na maneira como ele falava, não desesperado, não desafiador, mas confiante, como se a execução fosse um contratempo temporário e não uma sentença definitiva.

Porém, enquanto a maioria dos mundos ficava indignada ou preocupada com suas palavras, permaneciam alguns mundos—

Mundos que, não muitos séculos atrás, haviam sido governados pelo Cult, onde a inquietação se transformava em medo, pois as palavras de Soron não eram vistas como uma ameaça ou vaidade naqueles planetas, mas sim como uma promessa, dita por alguém que acreditava completamente na sua capacidade de cumpri-la.

*Engolir em seco*

Bilhões pelo universo engoliram nervosamente ao mesmo tempo, enquanto a transmissão ao vivo continuava passando.

De volta ao FOSSO, Soron finalmente desviou seu olhar de Veyr, girando lentamente a cabeça enquanto sua vista varria a plataforma de execução, primeiro parando brevemente em Helmuth, cujo sorriso se aguçava em expectativa, depois se dirigindo a Mauriss, que via-o com divertimento aberto, os dedos tamborilando distraidamente no braço de seu trono.

Mauriss levantou uma sobrancelha, claramente entretido, mas Soron não lhe deu reação alguma, seus olhos passando por ele sem pausa, como se o Deus do Caos fosse apenas ruído de fundo, enquanto ele se virava completamente e travava olhos com Kaelith mais uma vez.

O momento se alongou.

A pressão entre eles não aumentou, mas o silêncio carregava peso, à medida que os lábios de Kaelith se curvavam lentamente, não em um sorriso de calor, mas em algo mais frio, mais consciente, até que finalmente começou a falar.

— Meu pai sempre te amou mais do que a mim.

Kaelith falou em tom equilibrado, sua voz calma e sem pressa, atravessando o espaço selado e chegando às transmissões, caindo com precisão deliberada, não com raiva.

— E veja onde esse amor te trouxe hoje… irmão.

Seu olhar se intensificou ligeiramente enquanto inclinava a cabeça, com os olhos percorrendo a forma de Soron sem pressa.

— Sua aura tem mais verde do que vermelha.

Continuou, a observação sendo clínica, não zombeteira.

— Pode me encarar o quanto quiser, mas ambos sabemos a verdade.

Você não tem mais força para me derrotar numa luta, irmão.

Seu corpo está podre até o âmago.

Kaelith falou com um sorriso, atingindo Soron psicologicamente no ponto que mais o incomodava, o que era o mais sensível ao Deus do Culto.

Soron conhecia melhor do que ninguém o estado de sua carne e de seus circuitos, os compromissos que havia feito e a decadência que carregava, mas não esperava que o inimigo chegasse à mesma conclusão tão rapidamente, pois havia esperança de esconder tudo o máximo possível antes que fosse revelado.

Porém, agora que tudo veio à tona, tentou manter-se estoico, pois se recusava firmemente a deixar Kaelith perceber que tinha chegado à conclusão certa, fingindo que as palavras o tinham atingido de forma inofensiva.

— Você perdeu o direito de me chamar de irmão no momento em que apunhalou nosso pai pelas costas.

Soron disse friamente, sua palavra cortando o ar na plataforma enquanto seu olhar permanecia fixo.

— Ó grande traidor, Kaelith.

Sim, os dois mil duzentos e cinquenta anos passados foram difíceis com meu corpo.

Soron continuou, sem negar seu estado ou tentar suavizar suas consequências.

— Mas isso não pesou na minha consciência.

Ele declarou antes de dar um passo à frente, não ameaçando, mas com intenção deliberada.

— Ao contrário de você.

Posso olhar no espelho e me orgulhar da vida que vivi.

Ele fez uma respiração longa, devagar.

— E isso para mim… Vale mais do que qualquer trono vazio ou título sem valor—

— O Soberano Eterno.

Soron disse, completamente ereto, com o olhar firme enquanto pronunciava as últimas palavras.

Porém, ao contrário do que esperava, Kaelith não reagiu externamente às provocações, permanecendo com a expressão imperturbável, como se palavras de tamanha magnitude já tivessem perdido há tempos a sua força, enquanto a transmissão captava tudo com uma clareza implacável.

— Acabei de ouvir o Deus do Culto Maligno acusar Lorde Kaelith de cometer alguma injustiça?

A pergunta ecoou por incontáveis mundos enquanto a transmissão continuava sem interrupções, enquanto casas, praças, centros de trânsito e postos militares pelo universo mergulharam em silêncio desconfortável, os cidadãos fixando os olhos nas telas com sobrancelhas franzidas, pois a troca que haviam acabado de presenciar não se encaixava mais na narrativa que lhes haviam ensinado desde pequenos.

— Isso só pode ser uma brincadeira.

Outra voz veio rapidamente, mais aguda e convicta, como se repetisse uma lição decorada há muito tempo, em vez de uma consideração realmente pensada.

— Líderes do Culto sempre mentem. Distorcem a verdade. Plantam dúvidas e discórdia que não precisam existir. Não devemos escutá-los.

O reforço espalhou-se rapidamente, passando de um espectador para outro, enquanto comentaristas em canais controlados pelo estado acenavam com seriedade e reafirmavam o sentimento, recordando que o maior poder do Culto era a mentira, como se repetir a mesma coisa várias vezes pudesse sufocar o desconforto que começava a brotar em seus peitos.

— Ele está tentando provocar pena.

Um homem de meia-idade murmurou em uma transmissão de um mundo comercial, balançando a cabeça com uma convicção forçada.

— É assim que eles agem.

— Reescrevem a história.

— Transformam monstros em vítimas.

Outros concordaram rapidamente, aliviados, pois sentir que tinham uma explicação familiar era mais seguro do que aceitar a possibilidade de algo estar errado, de que a troca que acabaram de ver carregava um peso que a propaganda sozinha não conseguia enterrar completamente.

Porém, nem todos falavam com tanta segurança.

Alguns espectadores permaneciam em silêncio, os olhos fixos na imagem congelada de dois Deuses se encarando, enquanto a calma de Kaelith e a firmeza de Soron se repetiam em suas mentes, incessantes.

— Por que Lorde Kaelith não negou?

Uma jovem sussurrou em um canal civil, antes de diminuir a voz, como se receosa de que a própria pergunta fosse ouvida.

— Ele nem parecia bravo.

— Parecia… irritado.

Aquela observação ficou desconfortável, enquanto outros se mexiam na cadeira e olhavam ao redor antes de responder.

— Porque ele não precisa se justificar.

Alguém respondeu rapidamente.

— Ele é o Soberano Eterno.

— Só tontos duvidam dos Deuses.

A resposta foi aceita externamente, repetida em voz alta, reforçada com acenos e convicção treinada.

Porém, por baixo da superfície, algo se quebrou.

Não a fé.

Não a lealdade.

Mas a tranquilidade.

E enquanto a transmissão ao vivo continuava, mostrando Soron parado, inabalável, na armadilha que parecia destinada a acabar com ele, trilhões de olhos pulsaram em seus peitos, mais acelerados do que antes, inquietos não pelo medo do Culto—

Mas pela certeza de que aquela execução não era mais tão simples quanto lhes haviam prometido inicialmente.

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