
Capítulo 852
Assassino Atemporal
"Você fez um bom trabalho com sua barreira de aura, garoto, então agora começamos a parte que realmente importa para a viagem pelo espaço."
Moltherak disse, enquanto se acomodava em uma postura mais relaxada com sua imensa forma de alma, e a câmara ao redor ficava silenciosa, como se a própria ilha flutuante entendesse que algo muito mais complexo estava por vir.
"Primeiro, quero que imagine um corredor comprido à sua frente, cheio de paredes, centenas, milhares delas, todas grossas, duras e que à primeira vista parecem inquebráveis."
Moltherak continuou, seus olhos dourados se estreitando um pouco enquanto delineava a imagem com suas palavras.
"Essas paredes estão cheias de fragilidades estruturais, fissuras minúsculas e manchas macias que não são fáceis de enxergar, mas se você acertar exatamente um desses pontos com mesmo uma mínima força, há uma chance de toda a parede desabar. Por outro lado, se você correr de cabeça, cegamente, contra ela, pode quebrar seu crânio, cair de costas e ainda assim não destruir a parede."
Ele falou, enquanto Leo cruzava os braços e ouvia, sua mente já tentando compreender a metáfora enquanto imaginava parede após parede se estendendo infinitamente ao longe.
"Então, o nome do jogo é simples," explicou Moltherak, sua voz calma enquanto sua cauda traçava uma linha lenta pelo chão.
"Você precisa aprender a acertar a parede no seu ponto mais fraco, aquele defeito que permite que tudo ao redor ceda, porque se conseguir fazer isso repetidamente, parede após parede, eventualmente você atravessará aquele corredor quase sem resistência."
Moltherak acrescentou, enquanto Leo assentia lentamente em compreensão.
"Certo, então parede após parede, atacar os pontos fracos, avançar sem esforço… é esse o conceito?"
Leo perguntou, e Moltherak inclinou a cabeça em confirmação.
"Sim, porque quando falo de paredes aqui, estou usando uma metáfora," esclareceu Moltherak, com seus olhos brilhando levemente.
"O corredor é o caminho através da quarta dimensão, as paredes são as membranas temporais que você deve perfurar, e os pontos fracos são as áreas finas no espaço-tempo onde a estrutura é mais frágil, onde um empurrão preciso te permite passar ao invés de se chocar inútilmente contra elas."
Ele disse, enquanto as sobrancelhas de Leo se franziram levemente, a ideia aos poucos começando a tomar forma na cabeça dele.
"Então, viajar pelo espaço basicamente é… atravessar a quarta dimensão deslizando por esses pontos fracos, enquanto para alguém preso a um raciocínio tridimensional pareceria que percorri uma distância impossível em poucos passos?"
Leo perguntou, tentando colocar o conceito nas próprias palavras.
"Exatamente," respondeu Moltherak, com um leve aceno de aprovação.
"Para qualquer um restrito à terceira dimensão, dois pontos no espaço podem parecer impossivelmente distantes, a milhões de quilômetros de distância, mas quando você aprende a se atravessar na quarta dimensão entre esses dois pontos, percebe que, dessa perspectiva superior, eles estão quase lado a lado, separados por apenas algumas paredes finas, ao invés de um abismo gigantesco."
Moltherak falou, deixando a analogia se firmar, e olhou para Leo por alguns segundos, certificando-se de que ele havia entendido.
"Isso é o que realmente significa viajar pelo espaço: não atravessar a superfície do universo, mas sua profundidade no espaço-tempo, deslizando por segmentos fracos da estrutura temporal até emergir em um local que deveria ser inatingível em tão pouco tempo."
Ele concluiu, enquanto Leo soltava uma respiração lenta.
"Parece simples assim", murmurou Leo com um sorriso de canto de boca, e Moltherak permitiu-se uma pequena expressão de satisfação.
"Se fosse realmente simples, o universo estaria cheio de viajantes que distorcem a realidade a seu favor, mas você sabe que não é o caso."
Moltherak disse, sua expressão ficando mais séria ao mudar de assunto.
"Agora chegamos ao problema real. Normalmente, seres que dominam essa técnica de forma adequada são guerreiros de nível Rei ou superiores, pois nessa fase eles já conseguem perceber a quarta dimensão diretamente, ao menos até certo ponto, o que lhes permite ver as falhas pelo que realmente são."
Moltherak explicou, enquanto sua cauda batia uma vez contra a pedra.
"Porém, você, mesmo assim do jeito que está agora, não consegue enxergar a quarta dimensão, nem mesmo como um lampejo no limite dos seus sentidos, o que torna muito mais difícil para você fazer o mesmo."
Moltherak falou, e Leo assentiu silencioso, aceitando essa limitação.
"Então, se eu não posso ver os pontos fracos, como é que vou acertá-los?" perguntou Leo, franzindo levemente o rosto.
"Usando a única parte de você que já se estende na quarta dimensão."
respondeu Moltherak, seu olhar se afilando.
"A sua aura."
Leo piscou ao processar essas palavras.
"Minha aura…?"
Replicou, enquanto Moltherak fazia um gesto suave com uma garra.
"Sim, enquanto tudo ao seu redor que você consegue ver, ouvir, tocar e interagir existe dentro das três dimensões, sua aura não é limitada da mesma forma, já que não para na fronteira visível da sala quando a expande, mas se estende além da superfície do que você consegue perceber, infiltrando-se na quarta dimensão, mesmo que seus olhos não possam acompanhá-la até lá."
Moltherak explicou, com um brilho de orgulho que vinha de séculos de entendimento.
"Quando você espalha sua intenção de matar por essa câmara, você só vê a parte que preenche o ar visível, mas há uma seção inteira dessa aura que se estende além do véu, passando por fracturas e correntes no espaço-tempo, tocando lugares que você ainda não tem a linguagem para descrever."
Ele continuou, enquanto os olhos de Leo se estreitavam pensativos.
"Então, mesmo que minha consciência não consiga ver a quarta dimensão, minha aura já está nadando nela?"
perguntou Leo, e Moltherak sorriu levemente.
"Exatamente, por isso não vamos tentar ensinar seus olhos a enxergar o que ainda não estão prontos, mas sim ensinar sua aura a sentir o que você não consegue olhar diretamente, e depois ensinar a interpretar essas sensações com sua mente atual."
Moltherak disse, num tom pedagógico.
"Imagine sua aura como sua mão estendendo por trás de uma cortina, entrando em outro cômodo, enquanto seus olhos ficam do lado de cá, incapazes de ver o que há além, mas seus dedos ainda podem sentir as paredes, os móveis, os objetos, mesmo com sua visão cega para eles."
Ele orientou, enquanto Leo lentamente assentia, seguindo a comparação.
"Então, o que você precisa fazer é expandir sua aura não apenas para suprimir ou intimidar, mas para explorar, traçar o formato do tecido invisível ao seu redor, encontrar onde a estrutura de quarta dimensão é fina, gasta, mais fraca que o restante."
Moltherak falou, sua voz ficando mais baixa.
"Essas são suas rachaduras na parede, os pontos onde o espaço-tempo é frágil o suficiente para ser perfurado, esses são os pontos fracos que você deve perfurar para fazer a passagem."
Ele concluiu, enquanto Leo respirava fundo.
"Mas como vou sentir isso?" perguntou Leo, com sinceridade, sem teimosia.
"Para mim, a aura sempre foi como pressão, peso e letalidade, não como um órgão sensorial."
Ele admitiu, e Moltherak soltou uma risada baixa.
"Isso porque, até agora, você só usou ela como uma arma, nunca como um olho."
Respondeu Moltherak.
"Você se concentrou em quanto peso ela pode impor, quanto medo ela pode gerar, quanto ela pode suprimir, mas nunca treinou para sentir o que sua aura percebe em troca, quando ela toca o mundo ao redor."
Ele afirmou, enquanto Leo piscava, percebendo que nunca tinha pensado nisso por esse ângulo.
"Quando você expande sua aura, sempre pensa em como os outros a sentem," continuou Moltherak.
"Você pensa em como ela as sufoca, como derruba seus joelhos, como sufoca a vontade delas, mas, a partir de agora, você deve inverter a equação e fazer uma pergunta diferente toda vez que a expandir."
"Como diferentes partes da sala se sentem na sua intenção de matar?"
Ele perguntou baixinho.
"Onde sua aura flui suavemente, onde ela fica mais espessa, onde ela treme como se estivesse pressionando contra algo teimoso, onde ela de repente escapa como se nada estivesse ali, cada pequena mudança vira um ponto de dados, porque sua aura já está tocando correntes temporais que seus olhos não conseguem ver."
Moltherak esclareceu, enquanto as sobrancelhas de Leo se franziram em concentração.
"Então, eu espalho, presto atenção não no que ela faz aos outros, mas no que ela sente por si mesma, e procuro lugares onde ela encontra resistência mais tênue, como depressões na estrutura?"
Leo resumiu, e Moltherak assentiu.
"Sim, essas depressões são os indícios iniciais de fragilidade temporal, buracos na parede que, embora suas sensações atuais não sejam boas o suficiente para mapeá-los claramente, com repetição e foco você começará a distinguir a diferença entre empurrar sua aura contra um segmento reforçado de espaço-tempo e deslizar por uma rachadura onde a estrutura está fraca."
Moltherak explicou, e Leo respirou fundo lentamente.
"Então é isso que você quis dizer quando falou que o controle da aura é tudo," murmurou Leo, enquanto Moltherak deu um sorriso sutil.
"Controle, sensibilidade, paciência," corrigiu Moltherak.
"Sem esses aspectos, você nunca conseguirá identificar pontos fracos suficientes em sequência para formar uma passagem adequada. Em vez disso, acabará apenas jogando sua aura aleatoriamente contra o espaço-tempo e se rasgando no processo."
Ele avisou, sua fala ficando muito séria de repente.
"Porém, se você ensinar sua aura a mapear essa câmara em quatro dimensões, então, quando chegar a hora, será capaz de ficar no vazio entre mundos, expandir sua intenção de matar e sentir exatamente onde empurrar para passar de um ponto impossível a outro."
Moltherak falou, e os olhos de Leo se tornaram firmes com determinação.
"Certo," respondeu Leo, mexendo lentamente os ombros enquanto se preparava para a próxima fase.