
Capítulo 849
Assassino Atemporal
(Enquanto isso, no Jardim Eterno, ponto de vista de Raymond)
Raymond caminhava casualmente pelo Jardim Eterno, sua mente flutuando em pensamentos silenciosos enquanto seguia pelos caminhos sinuosos, quando um som agudo de assobio cortou a tranquilidade do reino.
*Sopro forte*
*Sopro forte*
*Sopro forte*
O som era demasiado nítido e mortal para pertencer a um espaço reservado à quietude eterna, pois cada rajada repetida de ar lembrava golpes de lâmina cortando o espaço em alta velocidade.
'Golpes de lâmina, e aqui?'
Ele perguntou, franzindo as sobrancelhas em confusão ao virar-se na direção da origem do barulho, seus passos ficando mais rápidos à medida que o assobio aumentava, até chegar no canto mais distante do sagrado domínio, onde os pisos de cristal do Jardim tremiam levemente sob uma pressão que ele não conseguia compreender de imediato.
Lá, iluminado sob a suave luminosidade das luminárias flutuantes, estava Kaelith, seu corpo transpirando bastante, a água escorrendo pelo rosto, sua aparência normalmente impecável completamente desarrumada enquanto seus lábios se contraíam com esforço, e seu braço repetia, num movimento de perfuração constante, uma daga simples segurada com firmeza.
'Será que estou enxergando coisa ou meu pai realmente está treinando?'
Ele pensou, com a testa franzida em surpresa, enquanto sentia uma onda de incredulidade atravessá-lo.
Antes de hoje, nunca na vida tinha visto Kaelith praticar combate, nem o tinha visto suar.
Porém, a verdadeira surpresa não vinha do fato de Kaelith mover uma daga.
Mas sim do que Raymond percebia naturalmente por baixo disso, pois, como um Semi-Deus cujos sentidos já tinham transcendendido a quarta dimensão, ele não podia deixar de enxergar a técnica real escondida por trás daqueles movimentos aparentemente simples.
Para um mortal, Kaelith parecia um homem cansado empurrando uma lâmina.
Seus golpes eram apenas uma estocada simples.
Porém, para Raymond, cada golpe explodia em uma assustadora flor de distorção temporal, pois o trajeto da daga se fracionava em inúmeras imagens espectrais que se estendiam pelo passado, presente e futuro próximo, criando silhuetas sobrepostas do braço de Kaelith em dezenas de micro linhas do tempo que se sobrepunham ao real com precisão absoluta.
'Que porra é aquele movimento?'
Ele se perguntou, vendo cada estocada atravessar a membrana temporal como se estivesse perfurando um vidro vibrante, causandofinas fissuras prateadas ao redor da lâmina que se fechavam instantaneamente, enquanto ecos suaves da luz de ontem e da sombra de amanhã se espalhavam pelo chão do jardim em uma cascata desorientadora de ruído temporal.
*Suspiro*
A respiração de Raymond se apertou, pois os golpes diante dele não apenas se moviam rápido…
Mas também se deslocavam em múltiplos estados do tempo ao mesmo tempo, como se o corpo de Kaelith existisse em mais de uma dimensão durante cada ataque, a daga se partindo em uma constelação de trajetórias sobrepostas que convergiam exatamente no mesmo ponto espacial com uma precisão impecável.
'Estes são cortes que atravessam o tempo… violações diretas da continuidade…'
Ele pensou, sentindo um calafrio involuntário percorrer sua espinha, pois aquilo não era um treinamento voltado apenas para fortalecer força ou velocidade, mas uma preparação para reativar um instinto divino que havia ficado adormecido por milhares de anos.
Os movimentos de Kaelith não eram grandiosos.
Não tinham dramaticidade.
Eram hipnoticamente alinhados com o ritmo da existência, cada golpe atingindo o ponto mais fino do fluxo temporal, deslizandose por fraquezas que só Deuses ou semi-Deuses poderiam perceber, como se Kaelith tivesse memorizado os pulsos microscópicos do tempo e estivesse cavando através dele com uma brutalidade clínica.
'Se pai realmente está treinando para uma luta depois de todos esses anos, então só pode significar uma coisa… ele está realmente assustado para enfrentar o tio.'
Não há outra explicação, pois pai jamais sujaría as mãos com treinos a não ser que o adversário exigisse nada menos que perfeição.
Ele está se afinando novamente por causa do tio…'
Raymond concluiu, mordendo o lábio inferior enquanto sua mente girava em uma névoa incontrolável, dividido entre admiração e impotência, incapaz de parar de admirar a assustadora maestria de seu pai, ao mesmo tempo em que se perguntava, com uma dor silenciosa no peito, se algum dia alcançaria tais alturas ou se a distância entre eles permaneceria uma fenda para sempre vista de longe.
"É rude ficar olhando enquanto outro homem treina.
Seu pai nunca te ensinou uma etiqueta tão básica?"
Kaelith perguntou no meio do treino, sua voz profunda e poderosa, fazendo Raymond baixar a cabeça instantaneamente, envergonhado.
"Ele ensinou... me desculpe, pai."
respondeu Raymond, enquanto Kaelith concluía a última fase do treino e se virava para encará-lo.
"Sim, ensinou... Por isso nunca mais repita essa falta.
Da próxima vez que ouvir sons de treino vindo desta parte do Jardim, vá para o outro lado."
avisou Kaelith, enquanto Raymond assente timidamente, compreendendo.
"Posso perguntar algo, pai…"
Raymond pediu, com a voz baixa e a cabeça baixa, sem certeza se tinha permissão para falar naquele momento.
Enquanto Kaelith inclinava um pouco a cabeça, a daga ainda segurada de forma frouxa, de onde surgiam finas correntes de intenção de morte.
"Fale,"
ele disse, com um tom nem quente nem frio, apenas absoluto, enquanto Raymond engolia em seco, reunindo coragem, pois a pergunta na ponta da língua parecia perigosa, mas necessária.
"Você… está treinando por causa do nervosismo de enfrentar o tio Soron?"
ele perguntou, e assim que o nome saiu de seus lábios, o jardim inteiro parecia ficar imóvel, como se o próprio tempo tivesse parado para ouvir, enquanto Kaelith lentamente abaixava a daga ao lado.
"Nervoso?"
repetiu calmamente, quase experimentando a palavra antes de descartá-la completamente.
"Não."
O olhar de Kaelith se aguçou com uma clareza cortante, como uma lâmina no ar, seus cabelos encharcados de suor grudando na testa enquanto ele permanecia ereto, endireitando a coluna com uma resolução silenciosa.
"Treino porque preciso estar no meu melhor quando enfrentar meu irmão,"
disse, sua voz firme, sem traços de orgulho ou falsa humildade.
"De menos… e eu estarei morto."
afirmou, enquanto os olhos de Raymond se arregalavam de surpresa, a respiração presa na garganta ao levantar a cabeça involuntariamente, pois nunca na vida tinha ouvido seu pai falar com tanta franqueza, tanta certeza, tanta honestidade brutal.
Não havia sarcasmo na voz de Kaelith.
Nem brincadeira.
Nem exagero.
Apenas uma declaração direta da realidade, entregue com a naturalidade de quem comenta o clima.
Ele falava de Soron não como um inimigo,
não como um rival,
mas como uma força da natureza.
Uma calamidade,
uma verdade do universo.
Porque ele sabia muito bem que Soron não era alguém que podia ser desafiado de leve sem pagar o preço em sangue.
'Quão forte será o tio?'
Raymond se perguntava, pois, se Kaelith, o Soberano Eterno, uma das entidades mais temidas de toda criação, precisava se aperfeiçoar até a perfeição só para sobreviver a um confronto com Soron…
Então, o que exatamente seria Soron?
E o que aconteceria quando esses dois irmãos finalmente se encontrassem após dois mil anos?
Raymond sentiu o peso desse futuro pressionar seu peito enquanto Kaelith se virava, levantando novamente a daga, pronto para continuar os treinos terríveis de perfuração temporal como se a conversa nunca tivesse acontecido.
"Não confunda minha honestidade com medo,"
Kaelith acrescentou em silêncio, avançando a lâmina enquanto uma nova fratura temporal se abria ao redor da lâmina.
"Não tenho medo do meu irmão.
Simplesmente respeito o fato de que ele pode me matar."
Ele disse, enquanto as palavras ecoavam pelo Jardim Eterno como uma profecia, e Raymond ficou congelado, sendo surpreendido pela primeira vez na vida ao perceber que até mesmo os Deuses tinham alguém a quem temiam perder.