
Capítulo 812
Assassino Atemporal
(The Forge do Espaço-Alma, ponto de vista do Mestre Supremo Argo)
*CLANG*
*BOOOM*
O som do segundo golpe ainda reverberava pela vastidão oca do Espaço-Alma enquanto o Metal da Origem tremeu novamente, sua superfície impossível ondulando como água perturbada, mesmo sem contato físico de calor.
Argo percebeu a reação não apenas pelos olhos, mas através de seus ossos, enquanto uma vibração estranha subia pelo cabo de seu martelo e se enraizava direto no peito, puxando algo bem lá no fundo, que nada tinha a ver com carne.
'Que resistência poderosa...'
Pensou, enquanto seus lábios se curvavam numa tênue e sombria smile.
*Levantem*
*BATERIA*
Outro golpe veio, seguido de mais um, cada impacto em ritmo perfeito, enquanto os aprendizes se alternavam, compondo sua parte na forja, virando o bloco de metal e espalhando óleo conforme necessário.
No começo, só o Metal da Origem parecia mudar, suas bordas amolecendo na projeção do Espaço-Alma, enquanto o cubo perfeito lentamente se deformava, assumindo uma forma alongada, e surgiam ao fundo os contornos de lâminas gêmeas, como esboços fantasmagóricos de dentro do bloco.
No entanto, à medida que a forja avançava, ficou claro que os sacrifícios não eram unilaterais.
Um aprendiz, um jovem com pele lisa e olhos brilhantes e famintos, limpou a testa por hábito — e congelou ao notar a própria mão.
A pele ao redor dos nós estava começando a enrugar, e seus dedos pareciam um pouco mais ossudos.
"Mestre..." sussurrou, enquanto o medo se insinuava na voz. "Minha mão..."
"Não desviei o olhar do metal," respondeu Argo, com tom firme, mas surpreendentemente gentil, enquanto trazia o martelo de volta para o ataque.
*CLANG*
"Você sabia o preço ao entrar na Forja do Espírito. Todos nós sabíamos. Então, não envergue agora."
"Quanto mais olhar para si mesmo, mais rápido irá se partir."
Disse, enquanto os aprendizes engoliam o medo e se acalmavam, canalizando foco e emoções na bigorna incandescente no centro daquele mundo vazio.
O tempo tornou-se difícil de medir ali.
Cada impacto parecia uma eternidade, sem nascer do sol ou por do sol para marcar as horas, enquanto a chama de alma pálida se entrelaçava e se contorcia ao redor do Metal da Origem, moldando-o delicadamente em resposta a cada sacrifício que voluntariamente entregavam.
*PUM*
*PUM*
*PUM*
Finalmente, o bloco se partiu ao longo de uma costura invisível, e duas formas espelhadas se desenrolaram de dentro, como presas gêmeas se afastando de uma mandíbula única, enquanto os primeiros passos das lâminas duplas começavam a se formar.
A curvatura ainda era grosseira, suas espinhas grossas e incompletas, mas o comprimento e o contorno seguiam o desenho que Soron tinha pedido, enquanto Argo sentia uma leve pontada de orgulho crescer no peito.
No entanto, junto com esse orgulho veio um peso.
Ele ouviu uma tosse, um som úmido e ofegante que não parecia pertencer a um jovem, e olhou rapidamente para verificar.
*Tosse*
O cabelo do rapaz, que antes era negro como a noite, agora tinha fios de cinza correndo por ele.
Enquanto a mandíbula de outro aprendiz tinha ficado mais afiada, mais oca, com a barba rala que se aprofundava, formando uma barba áspera.
Rugas começavam a desenhar-se ao redor dos olhos de todos eles, e todos respiravam um pouco mais pesado do que antes.
'Estão envelhecendo... como era de se esperar,' pensou Argo, apertando ainda mais o martelo na mão.
Então, percebeu seu próprio reflexo na superfície das lâminas meio prontas e quase vacilou.
Sua face, que já carregava com dignidade as marcas da idade, agora parecia pertencente a um homem que estava longe demais do fim.
As linhas na testa haviam se aprofundado, as bochechas estavam esvaziando, e havia uma qualidade estranha, translúcida, em seus traços, como se sua própria presença estivesse se tornando fina.
'Bom...'
Pensou, enquanto uma estranha aceitação pacífica o invadia.
'Se alguém precisa trocar anos por esse projeto, que seja o meu primeiro.'
"Mestre, deixe-nos compartilhar mais do fardo," pediu um aprendiz, aproximando-se com olhos ardentes de lealdade desesperada. "Você já deu o suficiente."
Porém, Argo sacudiu a cabeça em recusa.
"Nenhum de vocês é digno! Vocês não têm a experiência, nem a força que eu tenho."
"Essa projeção é a culminação de toda a minha vida como ferreiro."
"Vai ficar registrada como minha maior obra-prima!"
Disse, dando uma longa inalada e exalando diretamente na chama, alimentando-a com sua própria determinação.
*PUM*
O impacto ecoou pelo mundo entre eles, dessa vez, as lâminas dobradas se deformaram mais visivelmente.
Suas espinhas ficaram mais finas, curvando-se suavemente em um arco que combinava elegância e letalidade, enquanto suas bordas afilavam-se ao longo de linhas invisíveis, como se o conceito de um corte perfeito estivesse sendo gravado nelas a golpe de pincel.
A cada fase, Argo ajustava o ângulo de seus golpes, às vezes concentrando peso na região central, como Soron tinha explicado, às vezes comprimindo a malha imaginária do Metal da Origem para que as bordas finais fossem finas o bastante para cortar não só carne, mas dimensões.
Sua mente relembrou cada instrução de Soron.
Trinta e três centímetros de lâmina.
Onze para o cabo.
Equilíbrio preso a um terço do pomo.
Peso concentrado na barriga da lâmina para golpes brutos e decisivos, mas leve o suficiente no cabo para mudanças rápidas de direção.
Transformou esses princípios na própria essência do metal.
Com cada movimento, sussurrava silenciosamente em seu coração:
'É por Ixtal.'
'É pelos meus companheiros caídos.'
'É pelo Culto.'
'É pelo Senhor Soron, que carrega todos os nossos fardos.'
'É pelo Comandante Charles, que morreu valentemente nos protegendo.'
'É pelos sonhos e esperanças do nosso povo...'
Enquanto a Forja do Espírito absorvia esses sentimentos, puxando-os para o Metal da Origem, que deixara de parecer frio e indiferente, passando a vibrar levemente com uma presença própria.
*CLANG*
Fendas começaram a rastejar pelos braços de Argo — não fraturas físicas, mas linhas tortuosas de luz tênue sob a pele, como se sua alma estivesse se partindo na hora, fissurando-se ao vivo.
Sua visão ficava borrada nas bordas, a respiração mais curta, mas sua postura nunca vacilou.
Ao seu redor, seus aprendizes já pareciam veteranos — cabelos com fios de cinza, rostos marcados pela dureza — e nenhum deles reclamava, com os olhos fixos nas lâminas em formação diante de si.
"Mestre… as formas das lâminas estão quase estáveis," disse um deles roucamente, enquanto Argo assentia.
"Bom. Então começamos a sequência final."
Ele guiou, mudando a empunhadura e martelando alternadamente na espinha de ambas as lâminas, afinando exatamente como precisava, enquanto a chama da alma envolvia as bordas, comprimindo-as em uma linha quase impossivelmente fina.
Todo impacto parecia agora uma coisa me puxando o coração para fora.
Seus joelhos tremiam.
Seus ombros vibravam.
O mundo vacilava.
Porém, ele não parou.
Nem quando suas mãos começaram a tremer.
Nem quando sangue traçou uma linha fina do canto da boca.
Nem mesmo quando sentiu seu coração fraquejar, enquanto seu corpo tentava desesperadamente segurar a vida por um pouco mais.
*PUM*
*PUM*
*PUM*
"Mestre, já chega! Você vai morrer..." gritou um aprendiz, instintivamente, indo ao seu encontro.
No entanto, Argo não respondeu.
Ele apenas sorriu de leve, com o olhar fixo nas lâminas.
As armas gêmeas agora flutuavam acima da Forja do Espírito, completamente formadas, suas curvas elegantes, sua presença aterrorizante, como se fossem duas bestas adormecidas esperando para mostrar os dentes.
Faltava um último passo.
A última têmpera.
Para isso, Argo avançou ele mesmo, levantando o martelo alto, uma última vez.
"Em nome de cada espírito que caiu neste planeta... e na esperança de todos que ainda vivem," ele sussurrou, as palavras pesando como um voto, "eu os tempero... como as presas da nossa vingança... Levantem-se, Guardião da Rancor."
*PUM*
O martelo caiu.
Quando a luz explodiu das lâminas num surto ofuscante, avançando em uma onda silenciosa que rasgou o Espaço-Alma,
os aprendizes recuaram, protegendo os olhos enquanto o mundo ao redor se fragmentava, a névoa se partia em estilhaços de luz, que então caíam de volta, como gotas de uma chuva luminosa em seus corpos.
*TUMP*
Finalmente, os joelhos de Argo cederam.
Seu martelo de confiança, agora rachado e quebrado, escorregava de sua mão, enquanto a chama branca recuava, retornando para a bigorna escura, e a Forja do Espírito lentamente se acalmava, tendo cobrado seu preço.
"Mestre!"
Os aprendizes disseram, enquanto corriam ao seu encontro.
Como no mundo físico, de volta ao quintal de Soron, seus corpos colapsaram quase sincronizados.
Os aprendizes caíram no chão, ofegantes, envelhecidos, mas vivos, enquanto Argo se ajoelhava ao lado da bigorna, seu peito subindo e descendo superficialmente.
Seus cabelos estavam totalmente brancos.
A pele parecia de pergaminho antigo, fina e translúcida.
No entanto, seus olhos permaneciam claros ao olhar para as duas lâminas agora repousando no ofício, brilhando com uma radiância estranha, opaca, mais pesada do que qualquer aura que já tiveram.
Não eram ornamentos com joias.
Não traziam gravações inúteis.
Apenas duas lâminas ligeiramente curvas, de duas bordas, com superfície opaca, cinza, mas que de algum modo pareciam mais ameaçadoras que a arma divina mais brilhante.
Soron permanecia na borda do círculo, silencioso, seu olhar fixo nas armas.
"Mestre Argo..." sussurrou um aprendiz, engasgando com as palavras. "Conseguimos..."
Argo exalou uma respiração trêmula, um sorriso leve tocando seus lábios enquanto forçava-se a olhar entre Soron e as lâminas concluídas.
"Meu Senhor…" disse fracamente, com a voz quase inaudível. "Essas lâminas... elas representam tudo o que pude oferecer—"
Levou uma mão tremendo, apontando para elas.
"Eu as nomeei... Guardião da Rancor. Que elas possam recuperar o que nosso povo perdeu... e abrir um caminho de vingança para o Culto."
Disse, enquanto o braço caía ao lado do corpo.
Os aprendizes choraram baixinho, percebendo que seu corpo finalmente parara de se mover.
Argo morreu de pé, à beira de sua forja, os olhos semiabertos, o rosto tranquilo, como se tivesse simplesmente dado mais um passo para dentro do Espaço-Alma e esquecido de voltar.
Até Soron abaixou a cabeça profundamente — mais do que um Deus alguma vez deve fazer diante de um mortal.
"Descanse em paz, Mestre Supremo Argo," disse, em voz baixa e reverente. "Juro que seu sacrifício não será em vão."
Resoluções tomaram forma em seu coração, enquanto prometia eliminar pelo menos alguns deuses inimigos com essa lâmina.