
Capítulo 781
Assassino Atemporal
Veyr esperou pacientemente que Raymond explicasse as três leis fundamentais que governam o universo, mantendo a postura ereta e o olhar firme, embora sua mente estivesse silenciosamente cheia de expectativa sob essa aparência composta.
Raymond, no entanto, demorou-se. Ficou em silêncio por um longo momento, seus olhos vagando em direção ao horizonte distante do Jardim Eterno, onde os ramos cristalinos encontravam a luz infinita acima.
Parecia que ele buscava as palavras certas para capturar algo demasiado vasto para ser confinado pela fala.
Até que, finalmente, soltou uma respiração discreta e começou a falar.
"Existem três leis fundamentais que regem tudo que existe," disse lentamente, seu tom tranquilo, porém carregado de significado. "A Lei da Criação, a Lei da Destruição e a Lei do Espaço e do Tempo. Cada vida, cada mundo, cada pensamento que já existiu opera sob sua influência, e até os deuses não estão imunes a ela."
Ele fez uma pausa breve, deixando suas palavras dissolverem-se no ar quieto, enquanto o leve zumbido de energia ao redor deles parecia intensificar-se, como se o próprio jardim se inclinasse para ouvir.
"Essas leis não são forças que você pode ver ou tocar," continuou Raymond. "Elas existem na quarta dimensão… uma camada invisível da realidade que governa tudo no mundo tridimensional que habitamos.
Você pode pensar no nosso universo como o reflexo dessas verdades superiores, uma sombra projetada numa parede por algo muito maior e mais complexo além do nosso alcance."
Veyr assentiu em silêncio, com uma expressão de fascínio, enquanto Raymond entrelaçava as mãos atrás das costas e começava a caminhar lentamente pelo clareira.
"Há bilhões de anos, quando o universo ainda estava em sua infância, essas três leis não eram separadas," explicou Raymond, sua voz suave e deliberada. "Elas estavam unidas em um equilíbrio perfeito. A Criação alimentava a Destruição, a Destruição dava origem ao Tempo, e o Tempo, por sua vez, sustentava a Criação.
Não havia divisão, nem contradição, apenas um ciclo eterno, um equilíbrio tão perfeito que nada dentro dele poderia jamais mudar."
Ele parou de andar, seu olhar agora distante, o tom ficando mais sussurrante. "Mas então, de alguma forma — e ainda não sabemos como — esse equilíbrio começou a se romper.
As três leis começaram a se afastar umas das outras, sua unidade desmoronando em discórdia.
A Criação buscava expandir-se sem fim, enquanto a Destruição exigia consumir tudo, e o Tempo tentava desesperadamente medir esse afastamento, para manter a ordem em meio ao caos."
Ele levantou levemente a mão, traçando três linhas de mana brilhantes no ar que se entrelaçaram e pulsaram com uma luz tênue. "E dessa tensão… surgiu a primeira explosão. O nascimento do universo."
As três linhas torceram violentamente e explodiram para fora, dispersando-se em milhares de fragmentos que se dissiparam no ar.
"A cisão das leis causou uma ruptura como nunca antes," continuou Raymond, baixando a mão. "A Criação avançou em uma onda infinita, dando origem à matéria, à energia e à luz. A Destruição veio logo atrás, marcando limites e fronteiras naquilo que foi criado, garantindo que nada pudesse durar para sempre. E, dessa eterna luta entre expansão e consumo — entre criar e destruir — nasceu o Tempo, como o observador silencioso, a medida, o ritmo que permite que ambos coexistam sem se consumir completamente."
Ele virou um pouco o rosto, seus olhos refletindo a luz enquanto falava. "Esse foi o primeiro batimento do universo, o ritmo pelo qual todas as coisas se movem. Do menor átomo à maior estrela, do nascimento das galáxias à morte dos deuses, tudo dança ao mesmo ritmo. Criação, Destruição e Tempo… infinitos, entrelaçados, inseparáveis."
Veyr ouviu em silêncio, com expressão pensativa, enquanto o vento suave agitava a grama ao seu redor.
Raymond sorriu levemente, embora não houvesse calor naquela expressão. "Os mortais vivem na reflexão dessas leis, sem jamais percebê-las diretamente. Vemos seus efeitos, seus ecos. O nascimento de uma criança é Criação. Uma estrela morrendo e entrando em colapso na escuridão é Destruição. E o intervalo entre ambos, que é cada momento passageiro que os conecta, é o Tempo."
Ele deu alguns passos mais próximos de Veyr, sua voz baixando um pouco. "Mas essas são apenas suas manifestações externas, não as leis em si. As verdadeiras formas dessas leis existem na quarta dimensão, além de toda matéria, além da percepção, além até da consciência divina. Elas não são divindades. Não são entidades. São padrões de verdade… E, para percebê-las diretamente, é preciso ultrapassar os limites da própria existência."
Veyr inclinou a cabeça levemente. "E como fazer isso?" perguntou em voz baixa.
Os lábios de Raymond se curvaram discretamente, embora seus olhos permanecessem inexplicáveis. "Subindo de nível. Ao alcançar o nível Semi-Deus, você ganha o direito de observá-las, não de controlá-las, não de manejá-las, mas de vislumbrá-las, como se olhasse por uma fechadura para a fundação do cosmos.
Só quando se torna um Deus você pode tocá-las. E mesmo assim, não pode dominar as três ao mesmo tempo."
Ele olhou para o céu, seu olhar distante novamente. "Nenhum ser conseguiu fazer isso. Em toda a história registrada, os deuses mais poderosos conseguem alinhar-se com uma das três leis, enquanto rumores dizem que o Assassino Sem Tempo conseguiu dominar duas."
"Mas até essa aliança tinha seu preço — uma atração constante à instabilidade."
"Então, controlar as três seria conter a própria explosão original, a centelha que deu origem ao existir."
"Seria se tornar o próprio universo. Mas esse tipo de perfeição não pode existir duas vezes."
Raymond ficou em silêncio por um momento, sem falar.
O silêncio que se seguiu não era vazio, era denso, carregado, como se o próprio ar ponderasse sobre o que tinha sido dito.
Os dedos de Veyr apertaram-se levemente, sua mente acelerada tentando processar a imensidão da ideia.
"Se essas leis existem além do nosso alcance… então até os deuses estão ligados a algo maior que eles mesmos," pensou, sentindo uma leve pressão no peito.
"Então, isso quer dizer que destino e livre-arbítrio são apenas uma ilusão? O que realmente é uma profecia? Quando vivemos em um mundo onde nenhuma verdade é absoluta?"
Ele refletiu, enquanto Raymond, percebendo seu desconforto, oferecia-lhe um sorriso suave, de compreensão.
"Sei o que você está pensando, jovem Dragão, mas está errado."
"Quando ouvi isso pela primeira vez do meu pai, também questionei qual era o sentido da vida."
"Mas essa é a beleza da questão."
"Pois, embora as leis governem toda existência, elas não ditam a consciência. A consciência é a única coisa que resiste a elas. A capacidade de questionar, de duvidar, de desobedecer — esse é o verdadeiro presente de estar vivo."
"E acreditamos que isso esteja ligado à nossa alma."
Ele olhou para Veyr, sua voz quase suave agora. "Entender as leis não é tornar-se escravo delas. É enxergar os fios que entrelaçam o universo e ainda assim escolher como se mover dentro deles. Isso é o que diferencia os deuses das bestas."
A habilidade de buscar o conhecimento sem se render."
A luz tênue das ramificações de cristal refletia suavemente contra seu rosto enquanto ele se virava para partir.
"Estas não são lições que a maioria deve conhecer," disse Raymond em voz baixa. "Mas você conquistou o direito de ouvi-las. Lembre-se do que te contei hoje, e começará a entender por que até os deuses temem a verdade que servem."
Veyr assentiu silenciosamente, com os olhos refletindo o brilho dourado do Jardim Eterno, seus pensamentos perdidos no labirinto sem fim do que acabara de ouvir.
Pela primeira vez desde sua prisão, ele não pensou em escapar, ou sobreviver, ou mesmo vingar-se. Sua mente vagou, ao contrário, para a própria essência da realidade, ao pulso invisível que unia todas as coisas, que era a criação que dá, a destruição que toma e o tempo que mede tudo isso.