
Capítulo 768
Assassino Atemporal
(Ponto de vista de Leo, Ilha Flutuante)
Com Leonard ausente, Leo voltou sua atenção para localizar a origem da aura de Moltherak, que parecia ficar mais forte a cada segundo que passava.
Ele conseguia captar a direção vaga de onde a aura emanava, e por isso caminhou em sua direção, cada passo mais pesado à medida que a presença opressora do Deus Selvagem Ancião pressionava cada vez mais sobre ele.
O suor começou a escorrer pela testa, sua respiração firme, porém ofegante, enquanto uma inquietação tênue começava a se enroscar em seu estômago quanto mais perto chegava da fonte.
Até que, por fim, chegou diante de uma câmara colossal, cuja entrada era guardada por uma porta imensa gravada com runas brilhantes, e além dela o poder do deus adormecido parecia pulsar como um coração vivo.
'Vou entrar... tomara que o dragão sedento por sangue não me mate,' pensou Leo com expressão séria, sua mão pressionando a superfície fria do metal enquanto abria a porta e entrava.
*Empurre*
Assim que cruzou o limiar, a atmosfera ao seu redor mudou.
O ar ficou impossivelmente denso, dobrando-se sobre si mesmo como se a própria existência hesitasse em respirar na presença do que havia do outro lado.
Todos os sons se abrandaram, cada movimento desacelerou, e por um instante fugaz, Leo teve a sensação de ter entrado em uma câmara de tortura, onde milhões de almas gritavam e uivavam de dor.
"Que intenção assassina insana..."
Ele pensou silenciosamente, enquanto seus olhos percorriam a câmara que parecia se estender infinitamente diante dele.
Feita do mesmo metal rochoso que o resto da ilha, compartilhava o mesmo design grandioso e artesanato intrincado, mas havia algo diferente nesse lugar que fazia parecer que ele estivesse consciente, quase vivo, como se respirasse junto com ele.
Era clara e quente, o que exigia alguns segundos para seus olhos se ajustarem à luminosidade interna, e então, o que primeiro viu foi a alma de Moltherak, suspensa no ar como um sol ardente, irradiando um poder que parecia sustentar toda a câmara.
No começo, a alma de Moltherak parecia uma silhueta gigante, em constante mudança, uma forma vaga de fogo e sombra, mas à medida que Leo se aproximava, a névoa começou a se solidificar.
A luz ao redor da silhueta se condensou, até que, por fim, formou-se na magnífica figura de um dragão vermelho.
Suas escamas queimavam em carmesim, como metal derretido, cada uma gravada com símbolos rúnicos que pulsavam delicadamente em sintonia com sua aura.
Heriões longos, curvos, recuavam de sua cabeça como lâminas moldadas de aço negro, e um leve brilho de calor distorcia o ar ao seu redor.
Seus olhos, quando se abriram, eram dois orbes ardentes de um dourado profundo, repletos da sabedoria que só deuses que viveram vários milênios poderiam possuir, pois, mesmo sem um corpo de carne, sua presença era esmagadora, divina, antiga e absoluta.
A pressão emanada dele fazia o mundo ao seu redor ondular, como se a terra inteira reverenciasse sua presença.
Ao apenas olhá-lo, a respiração de Leo se tornava mais pesada quanto mais perto chegava.
A diferença entre eles era cósmica; Moltherak não era apenas uma criatura de força, mas um vestígio de uma era esquecida, um ser que outrora se erguera acima de todos os reis bestiais, deuses e da própria criação.
E ainda assim, apesar de tudo isso, Leo sorriu de leve.
Parando a alguns passos do pedestal do dragão, colocou um joelho no chão e se curvou profundamente, sua voz calma e sincera.
"Rei Moltherak," disse, com as palavras ecoando suavemente pela câmara. "É uma honra reencontrá-lo."
Os grandes olhos do dragão se estreitaram levemente, como se olhasse através do próprio tempo, antes de um som baixo, que era uma mistura de diversão e nostalgia, escapar de sua garganta.
"Leo Skyshard," a voz do Deus Selvagem reverberou na câmara, suave mas retumbante, carregando o peso de eras. Então, seus lábios se curvaram formando o que só poderia ser descrito como um sorriso.
"Ou devo dizer, O Chefe?"
Leo soltou uma risada silenciosa, inclinando a cabeça um pouco para cima.
"Não esperava que você ainda se lembrasse desse nome,"
disse Leo, enquanto Moltherak soltava uma risada profunda e retumbante em resposta.
"Quanto tempo faz desde a última vez que te vi, menino peculiar com coração de dragão? Como durmo demais, o tempo virou um conceito confuso para mim,"
refletiu o dragão, sua voz ecoando suavemente pela câmara, enquanto Leo pausava por um momento, pensando cuidadosamente antes de responder.
"Mais ou menos duas décadas e meia, talvez um pouco mais, então não faz tanto tempo assim,"
finalmente afirmou, enquanto Moltherak levantava as sobrancelhas, surpreso de leve.
"Apenas duas décadas e meia, e mesmo assim você cresceu a ponto de ficar de pé por conta própria diante do meu verdadeiro fragmento de alma? Isso é uma conquista notável."
Ele elogiou, enquanto Leo se curvava levemente, aceitando o elogio com modéstia silenciosa.
Porém, justo no momento em que Leo pensou que a conversa iria por um caminho positivo, ela de repente virou para o pior, quando Moltherak fez sua próxima pergunta.
"Você por acaso é responsável por toda confusão que tem acontecido no meu reino ultimamente? Tenho sentido atividade humana demais nesta região que não aprovo,"
perguntou Moltherak, com um tom curioso, porém levemente repreensivo, enquanto Leo ria nervosamente e assentia, admitindo a culpa.
"Sim... Migrei meu povo para cá. É o único lugar onde consegui mantê-los seguros. Desculpe incomodar sua paz, mas não tinha outra escolha. Ou os trouxe aqui, ou todos morreriam de forma miserável, pior que cães caçados."
esclareceu Leo, enquanto a expressão de Moltherak se endurecia, o brilho de seus olhos se intensificando.
"Minha prisão não é refúgio para sua tribo. Se quer mantê-los aqui, terá que pagar um preço justo."
Ele exigiu, enquanto o rosto de Leo ficava imóvel diante da solicitação repentina, sua mente momentaneamente em branco.
Não era assim que ele havia imaginado a sua reunião com Moltherak, mas agora que a situação tomou esse rumo, não tinha mais escolha a não ser escutar.
"Certo," afirmou após um momento, com tom firme. "Então, qual seria o preço aceitável para você?"
Ele perguntou, enquanto os lábios de Moltherak se curvavam em um sorriso lento e cheio de segredo.