(Planeta Granada, ponto de vista de Mauriss)*Relâmpagos**Chuva forte*"A… HAHAHAHAHA!"A risada de Mauriss ecoava na tempestade como a própria voz do oceano, somada, reverberando e viva.Ele estava sentado, de torsos nu, sobre a única rocha que se erguia nas águas cinzentas e infinitas de Granada, com a chuva traçando linhas pelo seu corpo. Seu cabelo subia lentamente em direção às nuvens, desafiando a gravidade, como se até o vento relutasse em tocá-lo sem permissão."O Dragão…" ele sussurrou, com um sorriso que se alargava, num tom que oscilava entre alegria e zombaria, "o jumento que achou que poderia se esconder de mim para sempre…"*Explosão*Relâmpagos dançavam nas nuvens acima dele, veias brancas rastejando pelo céu escuro, iluminando seus traços por um instante, enquanto ele parecia afiado, belo e insano.Ele inclinou a cabeça para trás, com os olhos meio fechados, deixando a chuva atingir seu rosto enquanto ria novamente, agora de forma mais suave, sua voz quase melodiosa."Por dois meses você se escondeu," ele murmurou, passando a língua pelos dentes como se estivesse saboreando a lembrança, "por dois meses você correu como uma ratazana, fingindo que podia me ultrapassar… Mas não pôde."
"No final, você caiu na minha mão, como eu sempre soube que aconteceria."
Disse isso enquanto estendia as mãos, colocando-as sob a chuva para captar a água, e depois a bebeu, de uma só vez.
"Sabe o que é bonito nisso, minha querida oceano?" ele perguntou suavemente, embora não houvesse mais ninguém além das funcionárias que o atendiam para ouvir.
"Não é a captura. Não, não. Capturar uma presa é algo comum. O que é belo… é a orquestração do desespero que vem logo depois."
As funcionárias atrás dele, duas mulheres silenciosas cobertas por véus brancos, não responderam, pois sabiammuito bem que não deviam contestar Mauriss quando ele estaba em uma fase de poder.
Hoje em dia, elas já sabiam que o Enganador gostava de falar sozinho de vez em quando, com suas conversas soando muitas vezes como murmúrios sem sentido, o que as levava a evitarem qualquer coisa que ele dissesse.
"Com o Dragão na minha palma, posso finalmente destruir o Culto.
Não por sangue, não por aniquilação, mas através de uma degradação tão profunda que fará a morte parecer misericórdia."
ele disse enquanto começava a caminhar de um lado para o outro na rocha, cada passo firme apesar da superfície escorregadia sob seus pés, sua voz subindo e descendo em ritmo, como o próprio respirar do mar.
"Primeiro, vou montar um espetáculo humilhante," ele disse, levantando uma mão como se conduzir uma orquestra invisível. "O Dragão será despido. Nu como no dia em que nasceu, antes de ser acorrentado em uma jaula feita de liga divina que suprime aura, voz e dignidade."
"Depois, ele será exibido pelas terras justas, pelas ruas repletas de cidadãos gritando e soldados vingativos, cada um com uma pedra, uma fruta deteriorada ou fezes, jogando tudo ao maior vilão do universo."
Ele parou, sua voz suavizando até se tornar quase afetuosa.
"E então vamos filmar e transmitir tudo."
"Cada golpe, cada gota de sangue, cada costela quebrada, cada lágrima."
Seu sorriso se contorceu, uma faísca de loucura verdadeira cruzando seu rosto.
"O povo comum do Culto o vê como um messias, um símbolo de esperança, sua chama brilhante na escuridão.
Mas o que acontece quando essa chama é arrastada pela lama, quando sua luz se reduz às brasas vacilantes sob a risada das massas?
Será que sua fé morrerá ali? Ou eles se sufocarão na fúria da impotência?
Mauriss refletiu enquanto voltava o olhar para o horizonte, observando a chuva que borrava a linha entre o mar e o céu.
"Primeiro, vamos filmar sua humilhação.
Depois, enviaremos os vídeos para todos os planetas neutros, para o mercado negro, para redes anônimas.
Vamos espalhá-los nas próprias casas daqueles que ainda sussurram o nome do Culto em oração. E, quando isso estiver feito, mergulharemos ainda mais fundo… no mundo parado no tempo que eles escondem."
Ele sorriu, exibindo os dentes enquanto o trovão serpenteava pelo céu.
"Sim… aquele refúgio amaldiçoado onde eles se escondem, achando-se seguros contra a passagem do tempo. Enviarei naves de carga e caças—para romper sua fronteira e espalhar chips de memória pelo seu coração. Cada um contendo a mesma cena. A mesma humilhação. A mesma verdade. Repetidas milhões de vezes, até que entrem nos seus sonhos."
Ele se ajoelhou, traçando um círculo na rocha com um dedo molhado, seu reflexo tremendo na água abaixo.
"Eles vão acordar e vê-lo. Vão dormir e vê-lo. Vão comer e ainda verem ele. Suas manhãs começarão com sua vergonha, suas noites terminarão com seu soluçar. Não haverá silêncio, nem alívio. Eles respirarão desespero até que sua fé se asfixie.
Ele se levantou, com a chuva agora caindo mais forte, as ondas batendo violentamente contra a rocha, como se o próprio oceano quisesse puxá-lo para baixo.
"E quando a fúria deles atingir o auge, quando não puderem mais tolerar a humilhação do seu messias," ele sussurrou, com os olhos levemente azulados, "quando até os mais devotos gritarem por vingança, eu lhes concederei."
Começou a rir novamente—baixo, quase jubiloso, o som de alguém que genuinamente adorava sua própria crueldade.
"Anunciarei sua execução," ele disse, a voz tremendo de excitação. "Uma data, um horário, um lugar tão público que até as estrelas testemunharão.
Darei uma contagem regressiva para sua própria destruição.
Virão—Soron virá—pois ele não pode se dar ao luxo de não vir.
Ele virá, na esperança de salvar seu garoto, seu legado, seu Cult…"
Mauriss parou, inclinando a cabeça levemente, como se saboreasse o pensamento. Então, sorriu novamente, devagar e de modo ameaçador.
"Mas desta vez, ele não sairá vivo."
"Sem chance…"
Pois Kaelith estará lá. Helmuth estará lá. Os cinco deuses dos Grandes Clãs estarão lá.
Ele chegará ao meu palco esperando recuperar seu Dragão, mas se verá atuando na minha peça, onde colocarei um fim na vida dele e no seu Cult de uma vez por todas."
Começou a caminhar de novo, circulando a pequena rocha como um predador preso em pensamentos.
"Já consigo ver isso."
Soron descendo em fúria….
Com guerreiros do Cult ao seu redor, suas bandeiras erguidas, corações queimando, os fiéis achando que seu deus veio para garantir a vitória.
Até que eles possam entrar na 'Chakravyuh', a rede traçada, o céu enredado com campos de âncora que impedem a entrada na Quarta Dimensão, restando-lhes sem para onde ir, sem espaço para recuar."
Seu riso novamente ecoou, agudo e ensurdecedor.
"Eles irão queimar. Eles irão morrer acreditando que podem salvar seu Dragão, mas na verdade, cada passo que derem em direção a ele apertará mais a corda ao redor do próprio pescoço."
Soron lutará, sim, e talvez até consiga alguns segundos de glória—mas então Kaelith se moverá, Helmuth se moverá, e os cinco deuses fecharão as mãos."
Ele parou, abrindo os braços amplo, a chuva escorrendo pelo rosto como lágrimas.
"E quando a tempestade passar, ficará o silêncio. Sem Culto. Sem rebelião. Sem canções. Apenas cinzas flutuando sobre o solo sagrado, e um Dragão quebrado, ainda respirando na sua jaula."
Sua voz caiu a um sussurro, quase reverente.
"Ele não morrerá. Ainda não. Nunca, se eu puder impedir. Sua existência se tornará meu hino, meu lembrete ao cosmos do que acontece quando ratos acham que podem desafiar o divino. Alimentarei ele, curarei, farei questão de exibi-lo a cada década, só para mostrar ao universo que a era do Culto acabou de vez."
Os olhos de Mauriss brilharam com algo quase de êxtase, enquanto jogava a cabeça para trás, soltando uma risada aguda, cada vez mais elevada, até quase se perder no trovão.
"HA HA HA HA HA! Você consegue perceber, Soron? Já sente? Não estou apenas terminando sua fé, estou destruindo sua memória!"
Ele inclinou a cabeça abruptamente, a risada se transformando numa expressão de sorriso letal.
"Transmita minhas ordens," ele disse calmamente. "Faça de maneira que seja algo bonito. Que a humilhação do Dragão comece já a partir de amanhã. Que o povo do Culto veja seu messias caído virando piada."
As funcionárias assentiram silenciosamente, com os olhos baixos e as mãos tremendo ao começarem a transmitir suas ordens.
Mauriss permaneceu observando a chuva por um longo tempo, os cantos da boca quase se erguiam a cada poucos segundos, como se uma nova ideia o divertisse.
Então, após uma longa pausa, ele finalmente sussurrou—tão suavemente que só a tempestade pôde ouvir:
"Chamam-no de Dragão. Mas logo, ele será algo completamente diferente….
Pelo seu uso, farei dele um símbolo vivo do que acontece quando se mexe com Mauriss, o Enganador."
Ele murmurou, permanecendo imóvel na chuva, sussurrando para si mesmo repetidamente enquanto o trovão rolava ao seu redor, suas palavras quase se perdendo no mar.
"Deixe o Culto vir. Deixe-os queimar suas asas perseguindo esperança. Deixe-os se afogar nas cinzas de seu próprio messias."
Ele fechou os olhos e sorriu ainda mais.)