
Capítulo 739
Assassino Atemporal
(Planeta Varam, Território da Facção Justa, Ponto de Vista de Veyr)
Logo que despertou, o primeiro toque que sentiu não foi som nem luz, mas uma pontada, aguda, fria e úmida. Algo atingiu seu ombro, depois seu peito, seguido por um baque surdo perto das costelas, enquanto outro objeto pulverizava sua pele.
"Aff~"
Ele gemeu suavemente, com a mente ainda pesada pelos sedativos, enquanto a dor atraía sua consciência de volta do estado de névoa.
Devagar, suas pálpebras tremiam e se abriram, e o mundo invadiu seus olhos — rápido demais, alto demais, cruel demais.
*Tlim**
*Golpe*
*Explosionar*
Pedras, frutas apodrecidas e até fezes humanas choviam de todos os lados, ricocheteando nas paredes levemente cintilantes da barreira translúcida que o cercava. Era uma jaula, não de ferro, mas de vidro de mana condensada, transparente, reforçada, feita para deixar passar apenas projéteis pequenos pelas fendas estreitas — o suficiente para machucar a carne e destruir a dignidade, mas não ossos.
Ele piscou, a visão ainda se ajustando, enquanto a cena ao seu redor tomava forma. Já não estava mais subterrâneo. Estava ao ar livre, cercado por milhares. Uma rua imensa se estendia à sua frente, repleta de pessoas espremidas de ombro a ombro, com rostos distorcidos de furor e nojo.
O próprio ar exalava cheiro de fruta podre, fumaça e desprezo.
"Onde… onde eu estou?" Veyr sussurrou fraquejando, sua voz quase forçada pelo rubor que se acumulava na garganta, enquanto a realidade pesava sobre ele como uma sombra implacável que não poderia fugir.
Estavam o conduzindo em desfile.
Nu, algemado no pescoço e nos pulsos, sua figura antes orgulhosa reduzia-se a algo entre um espetáculo e um cadáver.
A gaiola pairava a dois pés do chão, deslizando lentamente pela rua de pedra enquanto soldados usavam armaduras e marchavam ao redor, com bandeiras do governo universal tremulando acima.
"Morra, Dragão Maligno! Morra!"
"Seu filho da mãe! Meu tio estava na Arena do Deus do Céu quando seu Cult a atacou! Perdi minha família por sua causa!"
"Monstro! Queime no inferno, seu escória!"
"Seu pinto é menor que meu dedo mindinho, não é de se surpreender que esteja escrito 'covarde' no seu peito. Você é um FDP de pinto pequeno… Hahaha"
Uma fruta quase podre estourou contra sua bochecha, escorrendo pelo rosto enquanto risadas ecoavam ao seu redor.
Veyr piscou lentamente, a polpa da fruta misturada com suor e sujeira enquanto sua respiração ficava superficial. Seu corpo doía, a cabeça latejava, mas nada se comparava ao peso que pressionava seu peito, à consciência insuportável de que milhares de olhos o observavam, julgando, zombando, deliciando-se com sua humilhação.
Em todos os lados, rostos olhavam para ele com ódio, suas bocas torcidas em alegria diante do seu sofrimento. Não havia piedade, nem hesitação, nem sequer curiosidade. Apenas desgosto e superioridade, a satisfação de ver o grande Dragão de joelhos.
Mas o que mais machucava não era sua crueldade. Era o que isso representava.
Não eram soldados. Nem nobres. Nem políticos.
Eram cidadãos comuns: fazendeiros, comerciantes, até crianças, jogando pedras com a mesma paixão de seus generais, gritando as mesmas maldições pregadas pelo exército.
E, em seus olhos, ele via claramente: não era apenas ódio por ele.
Era ódio a tudo que ele representava.
Ao Culto. À sua fé. Aos sonhos pelos quais seu povo havia sangrado.
'Eu… deixei meu povo na mão', pensou vagamente, como se palavras cortassem sua mente como cacos de vidro. 'Eles acreditaram em mim. Olharam para mim como força, e agora… isso.'
Sua cabeça caiu, o olhar fixo no chão enquanto a carruagem avançava lentamente pela multidão infinita. Outra chuva de objetos atingiu seu peito, costas e ombros, cada um mais forte que o anterior. A voz de uma criança gritou algo grosseiro, um velho cuspindo pelas barras da gaiola.
Mas ele mesmo já não se mexia mais.
Dentro de si, alguma coisa começou a se partir, não seus ossos, mas o orgulho que antes o mantinha de pé.
Até que, de repente, no meio do caos, um novo som cortou o barulho.
Uma única voz, alta, desesperada, trêmula de convicção.
"LORD DRAGÃO! MANTENHA A CABEÇA ERGUIDA!"
O grito silenciou a seção mais próxima da multidão, suas palavras ecoando pela rua como uma chama frágil lutando contra o vento.
"SEJA O QUE FOR QUE FAÇAM COM VOCÊ, MANTENHA A CABEÇA ERGUIDA! ESTAMOS AO SEU LADO, MEU LORD! ATÉ AGORA, SEU POVO ESTÁ COM VOCÊ—"
A voz foi cortada pelo som metálico de uma lâmina sendo puxada da bainha, seguido por um som úmido de impacto.
O homem que havia gritado, um cidadão comum de roupas simples e mãos calejadas, caiu no chão, a cabeça rolando para um lado, seu corpo sem vida desabara sob o peso de sua devoção.
Por um momento, silêncio.
Depois, a multidão explodiu em aplausos, mais alto, mais cruel, enquanto soldados sorriram com sangue ensanguentando os paralelepípedos.
Os olhos de Veyr se arregalaram. Sua respiração ficou presa na garganta.
Ele assistiu ao sangue do homem escorrer em direção às rodas da sua gaiola, misturando-se com a chuva e a terra, formando uma faixa escura que se espalhava pela rua. As vozes de comemoração se tornaram estática, sumindo em um eco vazio que enchia seus ouvidos.
Aquele ato, tão inútil, tão sem sentido no grande esquema das coisas, atingiu-lhe mais fundo que todas as ofensas juntas.
O homem não tinha motivo para falar. Não tinha poder. Não tinha escapatória.
E, mesmo assim, fez por merecer.
Ele deu sua vida para lhe lembrar de algo que Veyr tinha esquecido.
Que a resistência ainda vivia.
Que seu povo ainda o apoiava.
Que, mesmo quando tudo mais é tomado, a chama do Culto não pode ser apagada tão facilmente.
'É isso aí…'
Veyr pensou, enquanto sua respiração se acalmava.
'Preciso manter a cabeça erguida.'
Ele percebeu, ao recuperar o brilho habitual nos olhos.
'Meu povo ainda acredita em mim. Não posso desabar aqui. Não agora. Não assim.'
Os insultos não pararam. Se é que alguma vez pararam; pelo contrário, ficaram ainda mais altos.
Mas agora, cada grito, cada maldição, cada pedra jogada só o fazia entender melhor.
Queriam destruí-lo. Queriam que se ajoelhasse.
Mas ele não lhes daria esse prazer.
Não os deixaria vencer.
'Ainda não acabou', disse a si mesmo, com o olhar varrendo os rostos daqueles que gritavam contra ele. 'Ainda estou vivo. E enquanto viver, vou permanecer como o Dragão.'
A gaiola continuou rolando, a fúria da multidão implacável, mas a expressão de Veyr permanecia inalterada.
Por mais que algo o atingisse, por mais que vozes maldissessem seu nome, ele mantinha os olhos abertos e atentos, encarando cada pessoa que ousasse puxar seu olhar.
Não havia loucura em seu olhar, nem arrogância, apenas uma resistência silenciosa, uma promessa silenciosa escrita por trás de cada olhar fixo.
Para quem observava, era desconcertante, quase incomum, como mesmo na humilhação ele encarava tudo com a mesma compostura de alguém que encara seus carrascos.
Como se sua humilhação não fosse um fim, mas o começo de algo mais sombrio que ainda estava por vir.
E, apesar de ninguém compreender, lá no fundo daquela gaiola, entre insultos, sangue e a polpa de frutas, a vontade do Dragão começou a se reacender.
Seu corpo estava amarrado. Mas seu espírito não.
Nesse momento, ele decidiu de uma vez por todas: se sobrevivesse a esse calvário…
Que todos eles pagassem caro pelos atos de hoje.