Assassino Atemporal

Capítulo 721

Assassino Atemporal

(Planeta Vorthas, 48 Horas Após Sua Queda)

O ar acima de Vorthas permanecia pesado de fumaça e silêncio, enquanto os incêndios provocados por horas de bombardeio incessante finalmente começavam a diminuir, deixando apenas brasas arrastadas e o cheiro amargo de metal queimado que grudava em tudo como culpa.

As faixas verdes da Facção Justa tremulavam por toda rua e edifício público, seus emblemas — um sol prateado devorando uma serpente negra — brilhando orgulhosamente onde antes flamulavam os símbolos do Culto.

*Passo*

*Passo*

*Passo*

Na frente da praça mais ampla da cidade, estendia-se uma fila de Camundongos do Culto que parecia não ter fim.

Milhares de civis ficavam descalços sobre o chão frio de paralelepípedos, com o rosto pálido, as mãos trêmulas enquanto se seguravam uns aos outros em busca de conforto.

A praça, que outrora vibrava com movimento, tinha sido transformada em um campo de processamento de escravos, onde a dignidade humana era retirada de forma metódica e substituída pela obediência.

A cada poucos segundos, o som de correntes tilintando ecoava de dentro da tenda improvisada de processamento, seguido pelo sussurro de coleiras sendo seladas ao redor dos pescoços e tornozelos, marcando mais uma alma destruída, mais um homem livre capturado.

*ESTALO*

*Chicote*

Um chicote estalou perto da frente, enquanto um soldado Justo berrava: "AVANÇEM!", e atingia as costas de um homem de meia-idade.

O homem cambaleou para frente, segurando a ferida, enquanto sua esposa cobria a boca para não gritar.

"Mantenham os olhos baixos, ratos do Culto! Vocês têm sorte de estar vivos!" gritou outro soldado, chutando uma criança chorando, cujos soluços interrompiam o murmúrio tenso da fila.

No meio da multidão, um jovem na casa dos vinte anos ergueu a cabeça, com a mandíbula cerrada, os olhos escuros queimando de fúria silenciosa, sem se mover, sem se curvar, nem desviar o olhar.

Porém, o soldado próximo logo notou seu olhar e fez uma careta.

"O que foi? O que, hein? Cão do Culto, quer dizer alguma coisa?"

O soldado avançou, ficando maior que ele, com as placas de metal de sua armadura tilintando a cada passo. "Quer falar? Quer se rebelar?"

Ele perguntou enquanto o jovem permanecia em silêncio, respondendo apenas com um sorriso fraco, uma faísca de desafio passando por seu rosto, o que irritou o Soldado Justo e quebrou sua frágil autoestima.

*ESTALO*

A chicotada atingiu o ombro do jovem uma vez... Depois duas, três, porém o garoto nem gritou nem se assustou, apenas riu entre dentes cerrados, enquanto sangue escorria pelo braço.

"Você acha isso engraçado, é?" perguntou o guarda, sacando a lâmina, enquanto o jovem cuspia sangue na cara dele em afronta.

*PUI*

Esse ato — pequeno, sem importância, mas mais barulhento que qualquer palavra — foi suficiente para que o soldado perdesse a calma, e, num movimento fluido, decapitou o garoto.

*GUILHOTE*

*BAQUE*

O corpo do jovem caiu no chão, olhos ainda abertos, enquanto a fila reagia com suspiros de horror.

Uma mãe gritou, uma criança chorou, mas ninguém se mexeu para ajudar.

"TEM MAIS PUXA-SACO QUE QUER MORRER!?!" berrou o soldado, com o rosto coberto de sangue, sua voz ecoando pela praça.

Porém, ninguém respondeu.

Apenas o som do vento passava entre eles, carregando o cheiro de ferro e cinzas, enquanto cada homem e mulher abaixava ainda mais a cabeça, com a rebelião enterrada profundamente sob o peso do medo.

*Passo*

*Passo*

*Passo*

A fila avançava mais uma vez, passo a passo, como uma serpente ferida arrastando-se pelo pó.

Até chegarem à tenda de processamento, onde o cheiro de mana queimada enchia o ar.

Fileiras de camundongos do povoado se ajoelhavam em silêncio enquanto braços mecânicos desciam de cima, fixando coleiras e correntes em seus pescoços e membros.

*SUSSURRO*

*Sussurro do equipamento*

As coleiras brilhavam numa tonalidade azul pálido por um momento antes de escurecerem para cinza opaco, selando completamente a capacidade de circulação de mana de seus ocupantes e transformando-os em escravos sem poder de rebelião.

*Tremor*

*Guelido*

Uma mulher na faixa dos quarenta anos tremeu enquanto a coleira se fixava ao redor do pescoço, sua respiração ficando superficial, como se até o ar tivesse traído ela.

Um garoto ao seu lado choramingou ao serem colocadas as tornozeleiras, tendo a sensação de metal clicando ao fechar, como se fosse o fim de tudo que eles conheciam.

"Próximo", ordenou um soldado, puxando o próximo grupo para frente.

Não houve pausa, nem misericórdia, apenas o ritmo incessante de correntes, o sussurrar de energia e o zumbido da submissão.

Quando cada grupo saía do outro lado da tenda, encontrava um palco — uma plataforma elevada construída às pressas com os escombros da antiga biblioteca do Culto.

Ali estava um orador Justo vestido com armadura prateada e branca, seu manto dourado tremulando enquanto discursava para a multidão reunida abaixo.

"Escutem bem, ex-cidadãos do Culto do Mal", sua voz reverberou, amplificada por alto-falantes de mana. "A partir de hoje, vocês não são mais homens e mulheres livres. São trabalhadores da penitência."

Ele caminhou lentamente, suas palavras carregadas de falsa santidade.

"Vocês irão onde dissermos.

Vocês trabalharão onde decidirmos.

E comerão somente o que lhes dermos.

Suas vidas agora pertencem à Facção Justa."

A multidão permaneceu em silêncio, com as cabeças baixas, embora lágrimas correm livremente por muitos rostos.

"Cães do Culto não podem entrar em restaurantes, não podem fazer comércio, não podem usar mana e não podem portar armas", continuou, levantando a mão dramaticamente. "Desde este instante até o dia em que morrerem, vocês vão se arrepender pelos seus pecados contra os Verdadeiros Deuses."

Ele sorriu de forma cruel, seus olhos varrendo a multidão como um predador estudando sua presa.

"Mas se algum de vocês", falou lentamente, com tom cortante como uma lâmina, "pensar em se rebelar… a punição não será a morte."

Ele fez uma pausa para criar efeito, enquanto uma fila de soldados capturados era puxada para frente, com as línguas cortadas e os olhos cavados.

"Será isto."

"Alegra-se, pois suas vidas estão poupadas. Arrependam-se, e talvez os verdadeiros deuses purifiquem suas almas."

Logo atrás dele, os cadáveres daqueles que resistiram antes foram empilhados como lixo descartável, exibidos como lembretes silenciosos de como é a misericórdia quando exercida sob o domínio do justo.

A multidão não dizia nada, apenas abaixava ainda mais a cabeça, enquanto lágrimas silenciosas escorriam por rostos que já não sonhavam mais.

E, enquanto o sermão do orador se dissipava no ar carregado de fumaça, uma mácula se estabeleceu sobre todos eles, como uma maldição.

O seu deus não os tinha salvado.

Seus Dragões falharam em evacuá-los a tempo.

E, por isso, o que lhes restava agora não era vida… mas uma existência pior que a morte.

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