Assassino Atemporal

Capítulo 690

Assassino Atemporal

(Visão de Raymond, O Jardim Eterno)

Faltavam apenas alguns dias para o prazo de 90 dias de Mauriss, quando finalmente Kaelith finalizou o treinamento de Raymond e declarou que ele era um caso perdido.

"Você foi o filho de quem mais me orgulho, você me lembrava a mim mesmo. Entretanto, ao passar esses últimos dias treinando você, percebi que você é completamente diferente de mim."

"Você tem talento, sim, porém, não tem a determinação."

"Você não tem coragem de pegar uma lâmina e enfiá-la no coração do seu próprio pai, que também foi o guerreiro mais forte que o universo já viu."

"Isso é algo que alguém como você nunca conseguiria, porque, mesmo hoje…"

"Mesmo hoje, enquanto as circunstâncias te forçam a uma batalha que você não quer."

"Uma batalha que poderia ser evitada, se ao menos eu intervisse para te salvar."

"Você ainda nem demonstra um pingo de intenção assassina comigo."

Kaelith zombou, enquanto Raymond abaixava a cabeça em sinal de submissão.

"Não vou dizer que virar um Semi-deus foi um erro, pois um homem sem ambição de crescer é nada mais do que um homem comum."

"Porém, o erro foi você presumir que é o mais inteligente do universo, quando não é."

"Você deveria ter tomado mais cuidado em esconder quem realmente era."

Kaelith acrescentou, enquanto Raymond permanecia calado, sem oferecer nenhuma palavra de protesto.

"Dificilmente você sobreviverá a um confronto com seu tio hoje."

"Concedo, você treinou bastante nos últimos dias e evoluiu bastante como guerreiro."

"Porém, isso não basta para derrotar Soron."

"Meu irmão é como eu."

"A vontade dele é forjada pelo fogo."

"E, no fim, é essa vontade inquebrável que lhe dá a vantagem que esses seus amigos fracos nunca terão."

Kaelith terminou, lançando uma lâmina fina, do tamanho de uma navalha de barbear e que pesava menos de 0,1 grama, exatamente como uma navalha de barbear comum, para Raymond, que a pegou em choque.

"Aqui… minha última missão como pai. O resto é com você."

Kaelith falou sem emoções, enquanto Raymond estudava a navalha, assustado.

Era de Metal Origem. Uma arma capaz de perfurar a pele de Soron, caso alguma oportunidade surgisse para atacá-lo.

Embora não fosse muito, era melhor do que nada. Com essa lâmina em mãos, finalmente teria algum meio de ferir Soron de verdade.

"Obrigado, Pai… por tudo. Sei que sou uma decepção aos seus olhos, mas não se preocupe, não morrerei para envergonhar seu nome."

Raymond disse, antes de silenciosamente deixar o Jardim Eterno, despedindo-se de Kaelith — talvez pela última vez.


Raymond tinha reunido um exército gigantesco, com mais de 20 bilhões de soldados, para atacar o planeta Juxta, que, em teoria, era um exagero para um planeta com apenas dois bilhões de habitantes no total, sendo a maioria deles não combatentes.

Porém, não importava quantas pessoas levasse consigo, pois se Soron aparecesse, todos eles seriam meros insetos inofensivos perante um exterminador.

'É exatamente como meu pai disse... Talvez eu não tenha a determinação para tomar medidas extremas como ele.' pensou Raymond, enquanto apertava a lâmina de Metal Origem firmemente na palma da mão.

'Talvez, eu poderia ter planejado para tirar Mauriss, o Enganador, do caminho nesses últimos dias.'

'Talvez, eu devesse ter tentado convencer meu pai a me ajudar a derrotá-lo.'

Ao invés disso, aceitei o destino que me foi dado e agora estou marchando rumo à morte certa…' pensou Raymond, sorrindo ironicamente com a própria situação.

Para o universo, ele era o filho do Soberano Eterno, o deus frio e sem coração que, há muitas eras, foi o principal responsável pela Grande Traição. Contudo, diferente dele, Raymond não acreditava ser capaz de matar seus próprios parentes.

Mesmo com seu pai o abandonando no instante em que seu segredo foi descoberto.

Mesmo com ele ameaçando matá-lo com as próprias mãos se discordasse.

De alguma forma, Raymond ainda o amava e queria poupá-lo da dor de ter que exterminar seu próprio filho. Apesar de saber que o coração daquele homem era de pedra, capaz de suportar tamanha dor, ele não desejava colocá-lo além do limite.

"Acho que daqui pra frente vão me chamar de tolo na história,"

Murmurou Raymond, olhando pela janela do observatório enquanto as frotas se alinhavam na imensidão do vazio, enquanto os homens atrás dele trabalhavam silenciosamente em suas estações.

"Acho que vão dizer que não merecia todo o talento que tenho, e vão menosprezar o esforço que me levou a me tornar um Semi-deus em primeiro lugar…"

"É neste capítulo da minha vida que os leitores irão se perguntar: 'Se eu tivesse o talento dele... Talvez eu tivesse arriscado desafiar o status quo e me rebelar, chegando a me tornar um Deus—'

Mas esse não sou eu…"

disse Raymond, com a voz baixa e firme, enquanto o vazio além do vidro respirava sua luz indiferente sobre a ponte.

"Deixe que me chamem de covarde, que me chamem de tolo, que os cronistas escrevam uma nota de rodapé de advertência,"

continuou, apertando os dedos na navalha de Metal Origem até que suas linhas de metal cortassem sua palma, "pois eu prefiro morrer carregando o peso da fraqueza do que ser lembrado como um monstro matador de pai."

Deixou as palavras pairarem no ar enquanto a nave vibrou, e ele começou a refletir, de forma longa e cíclica, se a coragem sempre exigiu a mesma moeda que a crueldade, e se o custo da verdadeira força sempre foi pago na economia suave do perdão, ao invés das notas altas do terror.

Com esse pensamento, virou-se de costas para o vidro, com seu exército preparado, e deu as ordens para que marchassem rumo a Juxta.

Sua batalha final, agora a apenas 32 horas de distância.

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