
Capítulo 677
Assassino Atemporal
(Planeta Juxta, ponto de vista de Leo)
Após deixar Amanda aos cuidados de Argo na forja em Tithia, Leo seguiu em direção a Juxta, respondendo ao pedido do comandante Charles para uma visita assim que tivesse um tempo disponível.
— Caramba… Não consigo acreditar o quanto Juxta ficou marcada após a última incursão — murmurou Leo, estreitando os olhos ao vislumbrar o mundo lá embaixo.
De cima, a base militar parecia pouco mais do que uma carcaça dilacerada, suas paredes outrora imponentes agora fragmentadas e carbonizadas, os vastos complexos marcados por crateras, como se a própria terra tivesse sido mastigada e cuspida pela guerra.
*Passo*
*Passo*
À medida que Leo descia sobre a plataforma de pouso rachada, o cheiro ácido de cinzas e aço lhe atingiu primeiro, fazendo-o sentir momentaneamente como se estivesse de volta a Nemo, pois esse era exatamente o ambiente que ele deixara para trás.
— Empurre—
— Puxe isso com calma, bem devagar—
Ao seu redor, soldados se movimentavam com uma disciplina cansada, ajudando os engenheiros a reconstruir o que podiam, suas faces marcadas pelo cansaço, porém endurecidas pela determinação.
E lá estava, sentado calmamente em um banco lascado, pouco fora do posto de comando destruído, Charles.
Uma tênue fumaça saía da ponta do cigarro preso entre seus dedos, enquanto ele olhava indiferente para a destruição ao seu redor.
— Garoto… É bom te ver aqui — disse assim que seus olhos se encontraram, um leve sorriso surgindo nos lábios dele.
— Você está bem… Sua região se estabilizou desde a última vez que te vi? — perguntou, estendendo a mão para um aperto, que Leo prontamente aceitou.
*APERTA*\p>
Os dois se apertaram com força, a força de Leo ainda longe da de Charles, que foi quem recuou primeiro ao sentir o aperto apertado.
— É, minha região está estabilizada agora. Tô preparado pra te derrotar em um treino — respondeu Leo, com uma pontada de desafio na voz, enquanto Charles explodia numa risada forte, espirrando fumaça de seus lábios.
— Você está se metendo em uma fria se acha que consegue me vencer, garoto. Como eu já falei, vai levar mais alguns séculos até você conseguir ficar de igual para igual comigo — zombou Charles, enquanto Leo apenas o encarava com firmeza, como se desafiasse Charles a lembrar de tudo que já tinha feito para desafiar as expectativas, sua resposta audaciosa fazendo Charles sorrir satisfeito.
— Dá uma volta comigo, garoto. Acho que você finalmente está maduro o suficiente para que eu compartilhe algumas realidades da guerra — disse, enfim, levantando-se do banco e tirando cinzas da manga antes de apontar para o canto tranquilo da base militar.
— Certo —
Leo respondeu, lhe entregando um leve aceno, e ambos passaram a caminhar juntos, afastando-se do ruído das equipes de reparo.
— A situação em Juxta não é tão boa quanto eu esperava, mesmo tendo vencido essa guerra — começou Charles, com um tom de voz mais sério, enquanto Leo levantava uma sobrancelha surpreso, esperando o que viria a seguir.
— A barreira do planeta em Juxta permaneceu intacta por mais de quatro séculos — explicou Charles, com as mãos cruzadas nas costas enquanto observava os complexos destruídos.
— A última vez que ela foi rompida, eu ainda era comandante de uma Legião, sob comando do comandante Jerome, que perdeu a vida naquela batalha enquanto defendia este mundo.
— Desde então, nunca enfrentamos uma investida tão coordenada, e por isso, nossos homens estão abalados.
— Se antes pensavam que esse posto era apenas perigoso, acho que agora acreditam que é uma missão suicida, pois a ideia de que a barreira resistiria a qualquer custo foi destruída.
— Acho que eles finalmente entenderam o que significa ser soldado quando as defesas tecnológicas colapsam e o inimigo invade pelo brecha — disse, com a voz mais grave. — E isso se reflete no comportamento deles. Mesmo que ainda tenham coragem, ela agora está mesclada com medo, que não desaparece. Coragem com medo é frágil.
— Antes, dormiam em paz, agora mal conseguem dormir… — acrescentou.
— Pensam nas esposas e filhos, se preocupam com as vidas que juraram proteger, e esse peso os machuca, mesmo que tentem disfarçar.
Leo assentiu silenciosamente, entendendo que scars assim eram naturais, pois ninguém enfrentava horrores de guerra sem sair marcado.
— Os Monarchs inimigos pessoalmente massacraram os homens de duas bases avançadas — continuou Charles, sua mandíbula se fechando enquanto seus olhos se tornavam sombrios. — Os corpos lá estavam abandonados em condições tão horríveis que só de ver já era insuportável, mesmo pra alguém como eu, que conhece o campo de batalha há mais de meio milênio.
— Claro que eu os vinguei...
— Caçei esses Monarchs e tirei a vida deles em troca — ele fez uma pausa, inalando lentamente a fumaça do cigarro que subia em espirais rumo ao céu violetado, antes de completar com um peso que parecia puxar as palavras até a própria terra: — Embora, infelizmente, fosse tudo que eu pudesse fazer.
Leo ficou em silêncio no começo, franzindo a testa ao ouvir a confissão de Charles. Parecia algo final, quase uma questão de justiça, mas quanto mais ele refletia, menos sentia que aquilo fosse uma conclusão de verdade. Vingar os mortos era um dever de soldado, sim, mas uma vida é realmente igual a outra?
'Se amanhã alguém sem nome matasse Amanda, a morte daquele assassino pareceria suficiente pra mim?’
A ideia o deixou gelado, e ao pensar nisso, ele percebeu que a resposta só podia ser não. A vingança nunca seria equilibrada; ela nunca preencheria a cadeira vazia nem aqueceria a cama fria.
No máximo, ela era o mínimo necessário — a dor instintiva devolvendo o golpe na dor.
A verdadeira cura, pensou Leo, não está no sangue, mas na longa e impiedosa estrada que vem depois, na qual scars devem ser suportados, memórias carregadas, e os vivos precisam aprender a seguir em frente sem esquecer.
E talvez essa fosse a verdade mais difícil de todas — que a lâmina pode acabar com uma vida, mas nunca restaura o que foi tomado.