
Capítulo 640
Assassino Atemporal
A notícia da morte de Su Ren abalou o universo assim que se tornou pública.
Os cinco grandes clãs anunciaram simultaneamente às suas forças que, em sete dias, começaria a mobilização para a conquista, e que todos os soldados deveriam se preparar para as campanhas à frente.
Foi a primeira vez na história registrada que um deus, pertencente à aliança dos justos, foi morto não pela mão de seus inimigos no Culto, mas por decreto e lâmina do próprio Governo Universal.
A revelação se espalhou pelas estrelas como fogo em palha seca, invadindo rotas comerciais, tavernas, academias e mercados, gerando debates que podiam ficar acalorados, em tom baixo ou até violentos, dependendo do grupo.
Para muitos, foi motivo de celebração.
"Finalmente", comemoraram alguns comerciantes ao contar suas moedas, "o Clã Su foi atingido. Por tempo demais eles acumularam recursos, taxaram rotas comerciais e olhavam de cima para baixo todas as outras casas. A morte do seu deus é uma justiça há muito tempo esperada."
Em cantinas afastadas, mineiros levantaram canecas de cerveja barata, batendo-as umas nas outras em sinal de concordância embriagada. "Já tava na hora! Que os cinco clãs repartam suas terras e façam as guerras. A arrogância do Su não vai nos inibir mais."
Porém, outros reagiram apenas com medo.
O Clã Su tinha sido um aliado confiável, e a sua queda marcava o início de tempos turbulentos para o futuro.
"Por quê?", exclamou um fazendeiro que virou pregador, numa praça de Veyar, suas palavras ecoando contra paredes de pedra rachadas.
"Por quê o Governo Universal iria atirar sua espada contra um de seus próprios? Se um deus tão poderoso e antigo como Lorde Su Ren pode ser traído, que segurança sobra para quem está debaixo de sua bandeira?"
Cidadãos se agrupavam em multidões, sussurrando com desconfiança, enquanto oficiais lutavam para manter a ordem.
As máquinas de propaganda dos cinco grandes clãs correram para configurar o evento como uma "limpeza necessária de dissidentes", alegando que Su Ren tinha se tornado decadente, inapto para liderar, e sua morte uma execução justa pelo bem maior.
Contudo, essa narrativa não convenceu a todos.
Corria boatos mais rápido que decretos oficiais.
Algumas pessoas diziam que Su Ren negociava tratados secretos com o Culto, outros murmuravam que ele tinha descoberto algo perigoso — algo que o Governo Universal queria enterrar para sempre.
Há ainda quem acreditasse que sua queda foi orquestrada para mandar um recado às cinco grandes casas: nenhuma delas era intocável.
Para os soldados, a reação era mais prática do que filosófica.
Em quartéis espalhados pelo universo, capitães davam ordens, treinamentos se intensificavam, armas eram afiadass, e naves recebiam combustível.
Os soldados aceitavam o anúncio com obediência sombria, embora, em conversas reservadas, admitissem seu desconforto.
"Não parece certo", murmurou um soldado de pé ao seu companheiro enquanto limpava sua espada. "Fomos treinados para acreditar que os Deuses da aliança eram eternos. Se um deles pode cair, o que é que somos nós?"
"Para mim?", respondeu seu colega, dando de ombros. "Isso só torna o pagamento mais perigoso, mas também aumenta o que se pode ganhar com os espólios. Não pense demais. Ordem é ordem."
Enquanto isso, os cinco grandes clãs não perderam tempo.
Começaram a dividir os territórios do Su nos mapas estelares, cercando planetas como predadores que dividem uma carcaça.
Desmobilizações de frota foram finalizadas, e a promessa de lucros na guerra atraiu comerciantes e mercenários para perto do conflito à vista.
Contudo, uma corrente de dúvida não pôde ser silenciada.
Pela primeira vez em séculos, o povo da aliança dos justos foi obrigado a encarar uma verdade desconfortável — talvez o Governo Universal não fosse o pilar inabalável de ordem que dizia ser, mas uma fera faminta disposta a devorar até mesmo seus próprios quando convém.
E, nesse reconhecimento, começaram a germinar sementes de rebelião e desconfiança, sutis mas inexoráveis, mesmo enquanto o universo voltava seu olhar para a contagem regressiva de sete dias até o início da invasão.
Enquanto isso, pelo universo afora, embaixadas e negócios familiares do Su começaram a ser saqueados, e propriedades do Clã Su, confiscadas.
Porque o povo comum percebeu a fragilidade.
E porque o nome Su deixou de ser temido.
A repressão extravasou sua raiva acumulada como nunca antes.
Lojas com o brasão do Su foram destruídas, suas bandeiras rasgadas e pisoteadas na lama.
Manções antes protegidas por honra e riqueza agora queimavam, suas chamas iluminando as noites de inúmeras cidades da facção justa, enquanto multidões soltavam maldições contra o deus caído — cujo nome eles temiam até pronunciar com desrespeito poucos dias atrás.
Homens que antes se curvavam respeitosamente diante de autoridades do Su agora arrastavam-nas pelas ruas, cuspindo neles, jogando pedras, obrigando-os a se ajoelhar como se séculos de humilhação pudessem ser desfeitos em um único dia.
A violência não poupou ninguém.
Em Shayar, um jovem membro de uma filial, com apenas dezesseis anos, foi arrancado de sua carruagem enquanto ia para a área do Hangar para fugir do planeta, seus protestos de medo sendo abafados pelo rugido de uma multidão que o acusava de crimes que jamais cometeu.
Seu pai foi apedrejado até a morte ao seu lado, seu corpo mutilado antes de ser pendurado nas portas que antes guardavam sua propriedade.
Em colônias comerciais pela aliança, armazéns do Su foram destruídos e seus bens saqueados como troféus de guerra, enquanto fiéis que tentaram defendê-los foram espancados até a poeira, seus pedidos silenciados por botas e punhos.
Até os inocentes sofreram. Comestiveis cuja única culpa era alugar suas bancas sob a proteção do Su, estudiosos que se casaram com membros do clã há gerações, servos que nunca levantaram a mão contra alguém, todos rotulados pelos seus laços como vilões.
Mulheres gritavam ao terem seus cabelos arrancados, seus rostos marcados com navalhas para mostrar que eram "cães do Su", enquanto crianças choravam ao lado de pais arrancados às correntes, seu sangue espalhado pelas ruas que um dia caminharam com orgulho.
Não importava que muitos desses membros de filiais nunca exerceram poder, nunca cobraram impostos injustos, nunca empunharam uma espada em nome do clã.
Simplesmente por terem saído das terras sob controle do Su e agora viverem em outros planetas da aliança justa — que até poucos dias atrás eram seus aliados — eles agora eram alvo de perseguição e ostracismo.
Para a turba, a culpa era coletiva.
Para a turba, sangue era a única reparação por anos de arrogância percebida.
E assim, enquanto o corpo de Su Ren permanecia frio e o grande clã vacilava, seu legado não apenas foi manchado por traição política, mas também afogado no grito vingativo daqueles que há muito aguardavam a chance de reduzir o nome Su a pó.