
Capítulo 625
Assassino Atemporal
Leo refletia profundamente sobre a proposta de Su Yang, pois, diferente de Veyr, ele não estava fixado apenas nos fatos superficiais apresentados, mas nas implicações mais profundas por trás dessas palavras e em como assumir uma guerra dessas poderia alterar o futuro do Cult de maneiras que não poderiam ser desfeitas.
Se o Clã Su já se preparava para abandonar setenta e quatro dos setenta e oito planetas sob seu domínio, então abrir mão de dois deles não era uma concessão significativa — afinal, o Cult poderia simplesmente tomá-los de volta assim que a retirada do clã fosse concluída, seja entregando-os voluntariamente ou não.
O verdadeiro valor dessa proposta não residia no território em si, mas na possibilidade — por mais frágil que fosse — de criar uma aliança entre o Clã Su e o Cult, pois juntos poderiam montar uma resistência contra o Governo Universal muito maior do que qualquer um dos lados poderia alcançar isoladamente.
Contudo, Leo não alimentava a ilusão ingênua de que tal aliança pudesse ser forjada com um aperto de mãos e algumas palavras bem escolhidas, pois séculos de sangue e amargura não poderiam ser apagados em poucas semanas, e, por mais que Su Yang acreditasse, a confiança genuína entre os dois lados seria um processo que não se mediria em meses, mas em gerações.
Ele bem sabia que o povo comum do Cult desprezava o Clã Su tanto quanto os soldados do Clã Su detestavam o Cult, cada um torcendo para que o outro fosse destruído, e convencer ambos a se considerarem aliados não seria tarefa simples nem rápida.
Mesmo que, por decreto, as bandeiras do Clã Su e do Cult fossem hasteadas lado a lado, Leo tinha plena consciência de que, no campo de batalha, seus soldados provavelmente virariam suas lâminas contra os próprios irmãos antes de atacarem o inimigo, e, por isso, a viabilidade de tal aliança era algo que ele só poderia ponderar com cautela — e aceitar com uma pitada de ceticismo.
"Só para deixar claro... Essa aliança entre o Clã Su e o Cult é desejada por todos?"
Perguntou Leo, e sua questão instantaneamente fez Su Yang estremecer.
Essa era exatamente a informação que ele pretendia esconder até o final nesta negociação, mas, agora que Leo questionava, não tinha como mais evitar a verdade.
Os lábios de Su Yang se apertaram numa linha fina enquanto seus olhos dourados desviavam, e por um breve momento pareceu quase relutante em falar, mas, quando o fez, a verdade escorreu de seus lábios de qualquer maneira.
"Até o momento... o arranjo é conhecido apenas pelo Patriarca Su Tang e por mim," admitiu, com a voz baixa, porém firme. "O resto do clã ainda não sabe."
Ele fez uma pausa breve para inspirar, então ergueu o queixo com determinação obstinada. "Mas eles vão entender. Quando perceberem o valor desse plano, quando entenderem que a sobrevivência do Clã Su depende de seguir um caminho junto com vocês, aceitarão... Quero dizer, não terão escolha a não ser aceitar."
Leo balançou a cabeça lentamente, a decepção evidente em seus olhos, enquanto sua expressão se endurecia e seus braços cruzaram o peito.
"Isso," ele disse, com uma voz firme e afiada, "é exatamente o que eu temia."
Para ele, o segredo de tal escala não era sinal de planejamento cuidadoso, mas de divisão perigosa, e uma aliança nascente do silêncio e promessas escondidas não era confiável para resistir quando o universo decidisse pressionar para baixo.
"Leo, escute-me," disse Su Yang rapidamente, sua voz ficando tensa como se o peso das correntes que lhe prendiam os pulsos fosse menor do que o peso que pressionava seu peito.
"Sei como soa... Sei que parece irresponsável, mas não é. Meu pai entende, eu entendo, e isso é suficiente por enquanto. Os demais... eles vão entender assim que perceberem o que está em jogo. Quando os outros clãs nos atacarem, quando virem o fogo se aproximando, eles seguirão o único caminho que lhes resta."
Suas palavras saíram mais rápidas, tingidas de urgência, enquanto seus olhos dourados fixavam-se firmemente nos olhos cinzentos de Leo, sem vacilar. "Você acha que eu não sei o quão teimosos eles são? Que eu não sei quanto de ódio ainda alimentam em seus corações? Claro que sei. Mas o ódio não alimentará seus exércitos, nem o orgulho defenderá seus mundos. Quando a sobrevivência estiver em jogo, até o comandante mais arrogante cede, e o Clã Su também cederá."
Ele se inclinou o máximo que as correntes permitiam, sua voz baixando ainda mais, quase implorando agora. "Vai dar certo, Leo. Tem que dar. Não há outra maneira de resistirmos ao que vem aí. Essa aliança não é um jogo de azar, é uma necessidade, e, cedo ou tarde, o resto do clã perceberá isso."
O silêncio persistiu por um instante, pesado pelo choque entre convicção e dúvida, antes que Su Yang soltasse uma risada amarga, sua voz se desfazendo nas bordas. "A verdade... é que não tenho para onde mais ir. Se o Cult nos rejeitar, então o Clã Su cairá. Acho que não conseguimos segurar sozinhos o poder combinado de cinco clãs... o Clã Su e eu seremos varridos."
Leo permaneceu calado, os olhos fixos em Su Yang, embora sua mente estivesse inquieta como a tempestade sob a superfície.
Ele já tinha ouvido muitos apelos por ajuda antes, mas esse tinha um impacto diferente, não pelo promessa de planetas ou pelo isca de uma aliança, mas pela honestidade crua enterrada nas últimas palavras de Su Yang.
'Não tenho para onde mais ir.'
Isso não era a voz de um político negociando vantagem, mas de um homem encurralado, sem opções, agarrado à última esperança que conseguia encontrar.
E, embora Leo ainda não confiasse plenamente no plano, nem no valor de uma aliança que não levava a bênção do próprio Clã Su, não pôde deixar de sentir o peso do desespero do amigo se consolidar sobre seu coração, pressionando-o para decisões que ele nunca quis tomar.