Assassino Atemporal

Capítulo 598

Assassino Atemporal

(Planeta Ixtal, Castelo de Soron, ponto de vista de Charles)

Charles e Soron estavam sentados frente a frente na câmara sombria, o silêncio que se estendia entre eles era mais pesado que palavras.

O deus radiante que costumava encantar as massas com luz dourada e uma postura imperturbável havia desaparecido, pois diante de Charles agora permanecia a fragilidade da verdade sob a ilusão.

A cortina exageradamente grande que antes abraçava o ombro largo de Soron agora pendeu de seus ombros como uma mortalha, o tecido formando poças ao seu lado como se até ele tivesse desistido de tentar mantê-lo ereto.

Sua pele, antes bronzeada e vibrante, agora apresentava um tom pálido e chalky de doença, seus traços mais afiadas do que Charles lembrava na última visita, como se o próprio tempo tivesse escavado a carne para revelar o homem moribundo sob a máscara.

Até mesmo o tremor sutil em suas mãos enquanto despejava o chá denunciava o quão longe ele tinha caído, e ainda assim seus olhos, embora cercados por fadiga, carregavam uma paciência insuportável, como se não se incomodasse com seu atual estado.

"O garoto está sofrendo de 'Sobrecarga Existencial', velho, ele precisa da sua ajuda." Charles implorou, enquanto Soron cuidadosamente levava a xícara de chá preparado até os lábios.

Ele olhou nos olhos de Charles, como se tentasse enxergar toda a sua desesperação, antes de finalmente colocar a xícara de lado, fazendo um som de lábios ao bater.

"Quanto você realmente sabe sobre o menino, Charles? Posso ver que você se importa profundamente com ele… mas consegue garantir a verdadeira natureza dele?" Soron questionou, enquanto Charles franzia a testa na resposta.

A forma como Soron formulou a pergunta indicava claramente que ele sabia de algo que Charles não sabia, e estava, portanto, armando uma cilada para que ele falhasse.

"O que ele fez?" Charles perguntou, enquanto Soron encolhia os ombros, desdenhoso.

"Então você não sabe… Que mentor você é, hein? Seu aluno está fazendo jogadas bem grandes sem que você saiba." Soron provocou, e Charles franziu ainda mais a testa.

"Seu rapaz matou o Décimo Segundo. Aquele que se passava pelo Décimo Segundo Ancião, ou melhor, agora que se chamam Sétimo Ancião, é na verdade um farsante." Soron revelou, enquanto Charles ficava pálido como uma folha.

"Leo matou um Ancião?" ele perguntou, com a voz carregada de choque, e Soron confirmou com um aceno de cabeça.

"Com as próprias mãos, ainda. Parece que ficou bastante bravo quando fez isso." Soron comentou, e Charles ficou em silêncio.

Ele não esperava que Leo matasse um Ancião, nem que guardasse algo tão importante dele.

*Sorri um pouco*

*Sorri mais*

Alguns minutos se passaram até que ele finalmente recompôs o semblante e falou.

"Se você sabia, por que não fez nada?" Charles perguntou, enquanto Soron encolhia os ombros de forma despreocupada.

"Para ser honesto, não tô nem aí… Não aprovo o Conselho dos Anciãos atual, e acho que você também não. Empresou que o que o garoto fez foi errado, mas ele foi inteligente o suficiente para não deixar ninguém descobrir." Soron explicou, e Charles franziu ainda mais a testa.

"Então você não sabia… Que mentor você é, hein? Seu aluno anda trilhando um caminho bem grande sem que você perceba." Soron zombou, e Charles ficou mais sério.

"Seu garoto matou o Décimo Segundo. Aquele que se fazia passar por ele, na verdade, é um impostor. Você sabia disso?" Soron perguntou, e Charles ficou pálido como o mestre de cera.

"Leo matou um Ancião?" ele repetiu, com a voz trêmula de surpresa, e Soron confirmou com um aceno de cabeça.

"Com as próprias mãos. Parece que ele tava bem furioso na hora." Soron disse, e Charles ficou em silêncio.

Ele não esperava que Leo tivesse matado um Ancião, muito menos que escondesse algo tão grave dele.

*Sips*

*Sips*

Alguns minutos se passaram até que, finalmente, ele recolocou a postura e falou.

"Se você sabia, por que não fez nada?" Charles perguntou, enquanto Soron encolhia os ombros de forma despreocupada.

"Na real, não tô nem aí... Não apoio o Conselho dos Anciãos atual, acho que você também não. O que o garoto fez foi errado, mas ele foi inteligente e conseguiu esconder. Então, deixei passar. Enquanto a massa não descobrir, não vejo motivo para agir." Soron explicou, enquanto Charles soltava um suspiro longo de decepção.

Por mais que também não aprovasse o Conselho dos Anciãos, ele entendia que assassiná-los sorrateiramente não era a solução.

"Bom, tenho certeza que o Décimo Segundo deve ter feito alguma coisa para merecer a morte dele, mas preciso conversar com o garoto sobre o comportamento dele. Se ele quer derrubar o Conselho, tem que ter coragem de começar uma revolução." Charles disse, enquanto se mexia na altura do nariz.

"E vou apoiá-lo totalmente nessa jornada…" ele continuou, enquanto friccionava o topo do nariz.

"Eu—não sei o que dizer. Ainda quero que você ajude o menino." Charles afirmou, com uma expressão de esperança. "Mas se você acha que ele não dá para confiar, terei que pensar em outra coisa. O tempo está acabando." Ele pediu, e Soron fitou-o profundamente mais uma vez.

Para ser honesto, ele não queria mostrar seu lado fraco a ninguém além de Charles, pois, se fosse divulgado que Lord Soron, protetor do Culto do Mal, agora era apenas uma sombra do guerreiro que fora, o Culto deixaria de ser seguro.

Por outro lado, ao olhar na rua desesperada de Charles, não pôde recusar o pedido dele.

"Por que ele? O que há nesse garoto de tão especial que você, de todos, está implorando para que eu o ajude?" Soron perguntou, com uma expressão curiosa. "Porque na última vez que nos encontramos você não queria saber dele."

Eu quase te forcei a treiná-lo." Soron completou, com um sorriso de lado. "Então, o que mudou de lá para cá, que te faz agir assim agora?"

Charles olhou fixamente, e a convicção em seus olhos clareou.

"O garoto é especial... não sei explicar melhor, mas ele é mesmo. Ele tem uma mente estável, não se deixa levar por elogios ou fama. Não se importa com bobagens sobre como os outros o veem, ou se alguma coisa é inferior a ele. E tem uma determinação inabalável de melhorar, que é quase fascinante de ver…" Charles começou, sua voz ganhando entusiasmo ao falar de Leo.

"Ele tem um talento nato insano, o mais forte que já vi, mas também uma ética de trabalho que faz valer a pena."

"E nunca vi uma criança ter as duas coisas ao mesmo tempo.

Você viu com seus próprios olhos… Ele derrotou um guerreiro uma categoria acima dele e, desde então, ficou pelo menos duas vezes mais forte."

É quase inacreditável.

Até assustador.

Mas ele me faz acreditar que a antiga profecia pode ser verdade mesmo.

Se há uma criança que pode se tornar o próximo Assassino Atemporal, é ele.

Mas não vai chegar lá se eu não ajudar a superar essa 'Sobrecarga Existencial'…"

"Você pergunta por que estou agindo assim…

Minha resposta é— estou agindo assim porque preciso fazer minha parte para ajudá-lo a se tornar essa versão máxima de si mesmo, que sei que ele pode ser."

Você, velho, está morrendo.

E eu nunca vou me tornar um Deus.

Sei que você não costuma apostar em uma criança só.

E sei que acredita na profecia como um fato inevitável.

Mas, para mim, ele é a única alternativa viável.

Se você conseguir aguentar mais 200 anos.

Sei que posso transformá-lo em um Deus nesse mesmo período." Charles respondeu, e Soron deu uma risada com a resposta.

"Você ficou mole, seu tolo… Nunca imaginei ver o dia em que você se importasse com alguém além de si mesmo até esse ponto…" Soron observou, enquanto Charles corava levemente com o comentário.

Sabia que parecia um mestre obsessivo, que se importava demais com seu aluno naquele momento, mas era exatamente essa a sensação de desespero que tinha.

Ele queria ajudar Leo a qualquer custo e até estava disposto a implorar a Soron por isso.

"Muito bem, velho amigo. Se pensa tão bem dele, não vou negar seu pedido. Porém, exijo que o eduque antes de trazê-lo aqui para mim. E que também o confronte pelos seus crimes.

Posso ter deixado passar um assassinato, mas certifique-se de lhe deixar bem claro que não vou permitir que outro passe despercebido." Soron ordenou, enquanto Charles sorria orgulhoso.

"Obrigado, velho… Não vou permitir que se arrependa disso."

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