
Capítulo 509
Assassino Atemporal
(Base Militar Juxta, Salão de Guerra dos Oficiais)
Nos sete dias seguintes, Leo descobriu que, apesar de sua personalidade normalmente leviana, Charles era na verdade um excelente mestre em estratégias militares.
Não de forma poética, nem no estilo de um professor tradicional diante de uma turma, mas de maneira prática e direta, que só quem já havia sangrado em centenas de batalhas poderia transmitir.
Quando falava, pulava por cima de discursos vazios e teatrismos, passando apenas o que realmente acreditava ser útil.
A primeira lição que ele havia martelado na cabeça de Leo era simples: Como Comandante, ele não precisava conhecer 90% do trabalho braçal. Esse não era seu papel.
Não precisava decorar os símbolos do mapa topográfico, nem aprender todos os sinais manuais usados por oficiais de baixa patente, ou as chamadas rápidas no campo.
Qualquer coisa que ele dissesse seria automaticamente traduzida e retransmitida na cadeia de comando por pessoas que treinaram a vida inteira para isso, então ele não precisava microgerenciar essas tarefas.
Em vez disso, seu papel era ser a mente por trás de cada ataque.
"Lembre-se, garoto: os homens sob seu comando marcharão até suas pernas quebrarem e lutarão por você até seus ossos se partirem, mas se você não os alimentar, o moral deles vai afundar mais rápido que areia escorrendo pelos dedos," ensinou Charles, enquanto arrastava Leo pelos corredores de abastecimento do setor de logística do Juxta.
Segundo sua experiência militar, o pessoal não se importava em estar com frio, cansado ou faminto, mas só podiam suportar um desses três ao mesmo tempo.
Se fossem lutar do amanhecer ao anoitecer, esperavam uma refeição decente e uma cama quentinha ao final do dia, e era trabalho de Leo garantir que ao menos isso eles recebessem.
"Comida e água... esse é o alicerce do seu exército. Não discursos grandiosos ou gritos de guerra inventados," explicou Charles ao apresentá-lo aos cozinheiros do exército, depois mostrando como os soldados armazenavam alimentos e água.
Aqui, os estoques de ração eram organizados por valor calórico.
E talismãs de purificação de água eram usados para purificar qualquer água barrenta ou levemente tóxica que encontrassem.
Depois vinha a energia.
As naves menores do Cult, as destruidoras e até seus canhões de artilharia pesada quase todas funcionam com pedras de mana de alta densidade processadas.
E assim, Charles guiou Leo pelos depósitos de reserva de combustível e ensinou como cada pedra tinha que ser cortada, polida e encaixada com precisão em reatores principais para manter as máquinas de guerra funcionando.
"Se algum dia ficar sem energia em solo estrangeiro, você precisará encontrar uma veia natural de mana no planeta.
Cada planeta possui algumas, geralmente um sítio de mineração ativo operado pelos locais.
Para sustentar a logística do seu exército, pode ser preciso entrar lá, procurar pedras de mana de alta qualidade, purificá-las, processá-las e moldá-las no tamanho adequado, ou sua frota ficará inutilizável, como sucata."
"Claro que você não precisa fazer a mineração pessoalmente, os homens sob seu comando cuidarão disso para você. Mas essas são tarefas que você precisa administrar como comandante.
Há um limite de carga que pode transportar ao viajar.
Então, se ficar sem energia no meio de uma operação em um planeta estrangeiro, deve saber como garantir novos núcleos de energia para sua frota," explicou Charles, enquanto Leo assentia em concordância.
Grande parte do que Charles lhe ensinou seguiu esse mesmo padrão—lições de conhecimentos gerais, ao invés de domínio profundo.
O suficiente para ele entender quando algo estava prestes a dar errado e como evitá-lo.
Coisas como quem chamar para resolver determinado problema, e quanto tempo levaria para consertá-lo.
Mas, mesmo assim, algumas partes eram interessantes.
Uma dessas ocasiões aconteceu durante um almoço relaxado no refeitório dos oficiais, quando Charles destrinchou a estrutura real do exército do Cult.
"Setenta por cento de todos os recrutas ativos estão no nível Mestre," explicou Charles, cortando uma peça de carne com casualidade. "São seus soldados de infantaria. Os que seguram as linhas de frente. Médicos. Engenheiros comuns. Eles lutam. Morrem. Seguem ordens. É simples assim."
Leo concordou com a cabeça.
"Mais vinte e cinco por cento? Grandmasters (Gran-Mestres). São seus Capitães, Sargentos, Tenentes. Às vezes um General. São seus líderes de batalha. Mantêm as formações unidas quando o caos explode."
"E o resto?" perguntou Leo.
Charles deu uma mordida antes de responder. "Quatro por cento? Não combatentes. Cozinheiros. Generais de quarteirão. Ratões de logística. Administradores. São eles que garantem que a máquina de guerra continue girando enquanto os guerreiros derramam sangue."
"E os topo de linha?"
Charles tocou duas vezes o dedo na mesa de metal.
"Zero vírgula zero um cinco por cento. São seus guerreiros transcendentais. Os verdadeiros monstros. Ou eles são Generais ou Comandantes de Legião. São a elite com quem você lida diretamente, responsáveis por concretizar sua visão."
"Por fim, o resto são pilotos de aeronaves e técnicos de nave altamente especializados, cuja única função é guerra aérea."
Leo se recostou, com olhar reduzido, absorvendo tudo.
O exército do Cult tinha cerca de doze mil guerreiros do nível Transcendente em serviço militar ativo, e mais doze mil servindo ao setor privado.
Em termos de proporção, o exército do Cult tinha mais guerreiros do nível Transcendente por soldado em comparação ao exército do Governo Universal.
Mas a diferença de tamanho entre os dois lados era incomparável.
"A verdade é, garoto, que nosso pessoal não está equipado para conquistar mais planetas com o exército atual do Cult.
Diria, no máximo, mais alguns antes que o aumento excessivo de nossas forças se torne um problema."
"Mas esses idiotas no Conselho dos Anciãos não vão entender isso."
"Nem as massas comuns."
O ideal que nosso Cult busca é a retomada da dominação universal e nossos dias de glória."
"Mas naquela época, tínhamos um Monarca atuando como General Galáctico em cada setor, com umas 12 planetas sob sua proteção. E cerca de umas duas centenas de guerreiros nível Monarca atuando dentro do Cult."
"Naquela época, tanto Kaelith quanto Soron eram semi-deuses capazes de comandar conflitos de grande escala com facilidade. E o nome do Assassino Atemporal já era suficiente para fazer a maioria dos deuses inimigos entrarem em pânico."
"Mas não somos mais a mesma organização."
"Levou mil anos para o Assassino Atemporal expandir o Cult de Ixtal até cobrir o universo inteiro, e vai levar pelo menos mais 500 anos para repetirmos esse feito."
"Mudanças assim não acontecem da noite para o dia, e precisamos ter paciência até estarmos prontos para a expansão—" disse Charles, soltando um suspiro de decepção.
"Não se embriague com o sucesso, garoto," continuou, sua voz ficando mais baixa, quase pensativa. "Mesmo conquistando dois, cinco ou dez planetas… não comece a pensar que já venceu."
Leo o olhou de relance, percebendo a mudança no tom.
"Não faça como Noah. Ele achava que as primeiras vitórias significavam que o Cult estava pronto para uma expansão rápida. Achava que a facção justa era fraca e que só precisávamos ter coragem para recuperar o que era nosso de direito."
Charles bateu uma vez na mesa de metal, firme, mas sem asperidade.
"Impérios não se constroem em um dia. São forjados ao longo de décadas, com disciplina, paciência e decisões que ninguém aplaude. Lembre-se disso."