
Capítulo 491
Assassino Atemporal
(Planeta Vorthas, manhã seguinte)
A raiva fervia sob o céu morninho da manhã enquanto o povo do Cult se reunia novamente no Mercado Sunsteps, suas vozes crescendo em ondas de inquietação.
O choque da noite anterior ainda permanecia nos olhos deles, expressões tensas de medo e frustração, buscando algum lugar para se acomodar.
As acusações eram feitas livremente enquanto a multidão começava a culpar os defensores do Cult pela falha em impedir o ataque.
O orgulho deles tinha sido ferido, a confiança abalada, e o nome de Dupravel Nuna virou símbolo tanto de raiva quanto de demanda por justiça.
O povo queria justiça, força, e, acima de tudo, respostas.
"Ele incendiou nove prédios e matou vinte e seis guardas na fuga… Ele veio, matou, escapou enquanto nossas forças de segurança tentavam procurar estrelas sob a luz do dia… *Cuspo*," um homem cuspiu, as veias do pescoço pululando enquanto gritava de cima de uma barraca de comerciante, inflamando a multidão.
"Esse é o nível de competência das nossas forças de segurança? São esses os responsáveis por proteger nosso Ancião e Nosso Dragão? Esses idiotas não conseguem nem enfrentar um inimigo só no território deles!"
Gritos de "Encontrem-no!" e "Tirem a cabeça dele!" ecoaram pela praça, enquanto cada cidadão, guerreiro ou comum, tinha agora um único nome gravado na cabeça como uma maldição sussurrada na escuridão: Mestre do Guilda Serpentes Negros, Dupravel Nuna.
Saliva voava, não apenas em palavras, mas literalmente, enquanto os nomes dos capitães do distrito responsáveis pela segurança do evento eram lidos em uma declaração oficial transmitida das torres de notícia, provocando muitos a despejar insultos, frutas e até pedras na projeção.
"Ele fez de tolos nossos melhores."
"Nosso sistema de defesa é uma piada!"
"Onde estavam os guardas de Elite? As melhores unidades táticas que temos à disposição?"
Cada acusação ficava mais alta que a anterior, todas direcionadas às forças de segurança internas do Cult, cujos membros agora andavam com a cabeça baixa, não mais protetores, mas símbolos de vergonha, forçados a suportar a humilhação do fracasso bem na frente de todos.
E, no entanto, em meio a essa fúria ardente, dois nomes ainda surgiam com fragmentos de esperança e orgulho ligados a eles.
"O Dragão não fugiu."
"O Dragão lutou. E sobreviveu."
Era um sentimento sussurrado com admiração, que ganhava força à medida que mais pessoas começaram a reconhecer a façanha quase impossível de um jovem Dragão resistindo a um Monarca e sobrevivendo ao confronto.
"E o Décimo Segundo Ancião… ele arriscou a vida para ajudar, não foi? Era ele… disparando [Disparos de Vento] de lado, não era?"
"Sim. Ele é o único motivo de Veyr ter conseguido segurar aquele maldito Serpente… Um verdadeiro líder."
Aplausos, fracos mas crescendo, começaram a se espalhar pela multidão, enquanto um estranho misto de ressentimento e reverência começava a se formar.
Os camponeses estavam furiosos com a incompetência do Cult, que era igualada apenas por uma gratidão fervorosa àqueles poucos que não se destruíram diante de um pesadelo.
Dupravel os deixou com sangue, medo e orgulho quebrado.
Mas Veyr e o Décimo Segundo Ancião pelo menos conseguiram salvar algo do desastre.
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(Enquanto isso, dentro do Hospital de Vorthas)
A enfermaria vibrava com elogios sussurrados e comentários reverentes, enquanto atendentes se moviam cautelosamente ao redor de Valterri, cuidando da profunda ferida de.questão em sua palma.
Utilizavam magia de cura para lentamente eliminar o veneno residual que começava a apodrecer as veias ao redor da ferida, fazendo o possível para concluir o processo sem causar dor desnecessária.
Para todos ao seu redor, ele era um herói… considerado o homem que ficou entre o Dragão e a morte, aquele cuja ação oportuna deu a Veyr um pouco mais de fôlego para sobreviver à emboscada.
Mas Valterri não se sentia um herói.
Nem perto disso.
Deitado na maca, com bandagens na mão e a respiração superficial, tudo que conseguia pensar era em quão rápido havia caído, quão inútil tinha sido após receber um único golpe.
Não importava que a ferida estivesse cheia de veneno, ou que ele tivesse agido por instinto para proteger Veyr.
Na sua cabeça, falhara em proteger o Dragão além do momento inicial, e essa única verdade o machucava mais do que a dor.
'Preciso ficar mais forte... muito mais forte,' pensou, olhando para o teto enquanto o mundo lá fora continuava a chamá-lo de salvador, embora tudo que sentisse por dentro fosse insuficiência.
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(Em outro lugar, Veyr)
Veyr estava sozinho na mansão do Décimo Segundo Ancião, encostado na cadeira de couro de pele de dragão reservada ao Dragão reinante. Pela primeira vez desde sua nomeação, o peso de ocupar aquele posto começava a realmente fazer sentido.
O ataque tinha passado, seus ferimentos eram superficiais, e a multidão lá fora agora cantava seu nome com uma reverência renovada, chamando-o de corajoso, resistente, até digno, mas nada disso lhe trazia paz.
Ele desejou por esse destaque uma vez, ansiava pela aprovação das massas e pelo respeito dos Anciãos, mas agora que tinha, agora que tinha experimentado o que significava ser o Dragão, tudo que sentia era uma estranha sensação de vazio, como uma garra ameaçando rasgar seus pensamentos.
Entre reuniões intermináveis, treinamentos exaustivos, aparições públicas encenadas e agora essa tentativa de assassinato às claras, ficou finalmente claro que o cargo que ele uma vez considerou o ápice do orgulho era mais uma gaiola dourada embrulhada em trajes cerimoniais.
O único lado positivo era o carinho do povo, os gritos que abafavam suas dúvidas e faziam seu sofrimento parecer um pouco menos inútil, mas mesmo assim, ele sabia, tudo isso se perderia assim que ele deixasse de atender às expectativas deles.
Ser um Dragão era uma tarefa ingrata.
E quanto mais ele afundava nessa toca do coelho, mais percebeu que talvez, a melhor escolha naquele dia teria sido se render e perder deliberadamente o combate, deixando Leo carregar o peso, os holofotes, a política e todas as facas escondidas que vinham junto.