Assassino Atemporal

Capítulo 487

Assassino Atemporal

Assim que as duas peças terminaram, a carruagem do Dragão voltou a avançar, suas rodas douradas rangendo suavemente sobre o calçamento de pedra, enquanto Veyr sorria e aplaudia com entusiasmo pelos artistas, seu aval evidente na maneira como acenava para a multidão, reconhecendo seus esforços com a autoridade de quem ocupa o cargo de Messias do Culto.

Valterri, contudo, não compartilhava do entusiasmo.

Seus olhos percorriam a praça do mercado, além dos artistas que diminuíam a sua apresentação e da multidão que lentamente se dispersava, escaneando cada telhado e viela sombreada como se escondessem fantasmas.

A tensão que antes se formara em seu peito só tinha ficado mais apertada agora que os espetáculos terminaram, e embora o caminho à frente parecesse calmo, algo na quietude lhe parecia perigoso, como o silêncio antes de uma tempestade que ninguém fora avisado para esperar.

*EXPLOSÃO*

*ESTALO*

*ZUMBIDO*

Tudo aconteceu de repente.

A primeira explosão veio à esquerda, de uma viela estreita nos fundos, escondida atrás de uma fileira de barracas de especiarias, e antes que Valterri pudesse virar a cabeça, uma segunda detonação rasgou o ar do lado oposto da rua.

Fogos de artifício pareciam explodir em todas as direções, não em arcos coordenados de beleza, mas em rajadas irregulares que acertavam as vitrines, ricocheteavam nos telhados e giravam descontroladamente pelo céu, onde estouravam com gritos estridentes que quase faziam os ouvidos latejar.

Toda a rua recuou. Civis arfaram. Crianças gritavam.

"Que diabos—?" murmurou um dos guardas perto de Valterri, já correndo na direção da viela.

"Essas explosões deveriam acontecer agora?" perguntou outro, sacando uma bastão enquanto um grupo de policiais locais passava correndo pelos veículos para conter o caos.

"Esses pyromantes," cuspiu um velho na multidão, puxando seu neto atrás de si, "eles têm uma missão! Uma missão!"

"Tomara que não incomode o Dragão," sussurrou outro, esticando o pescoço para acompanhar a reação de Veyr, que parecia calmo e indiferente ao tumulto.

*EXPLOSÃO*

*ZUMBIDO*

Por causa das explosões, a multidão começou a se mover nervosa, seus instintos os levando a se aglomerar em linhas compactas, procurando manter-se o mais longe possível do perigo.

O barulho por si só era suficiente para desconcentrar os guardas, mas o que realmente surpreendeu a todos foi a velocidade com que tudo aconteceu.

Tudo demasiado errático. Muito próximo.

*Corpo a embalar*

*Tropeço*

*Queda*

Em algum lugar próximo à frente, logo à frente do caminho da carruagem, um grupo de civis caiu de repente—vencendo as cordas frágeis que separavam a multidão do caminho principal, com os membros agitando-se enquanto dois homens e uma idosa desabaram na pista da procissão.

*Rasgamento*

A carruagem parou bruscamente, as rodas fazendo Veyr recuar levemente em seu assento.

"Eu—Sinto muito, Meu Senhor!" gritou um homem, segurando o braço quebrado enquanto se levantava cambaleando. "Alguém me empurrou… Não foi minha intenção cair, juro…"

Guarda(s) correram para puxar os civis de volta, auxiliando-os a sair da estrada, mas todos estavam focados no lugar errado.

Cada cabeça virou na direção do homem ferido. Cada mão tentou ajudar a erguer os caídos. Cada voz mandou comandos para restaurar a ordem.

Exceto Valterri.

Ele permaneceu congelado, seus instintos gritando mais alto que os fogos de artifício, mais alto que a multidão, mais alto que os guardas gritando uns sobre os outros.

'Algo está errado. Algo muito errado.'

Ele voltou a escanear os edifícios, os olhos se movendo rapidamente, procurando algo… qualquer brilho, qualquer relâmpago, qualquer movimento que pudesse explicar essa sensação pesada de pavor pulsando em seu peito.

E então, viu.

Por uma fração de segundo, no reflexo de uma janela acima da loja de alquimia, ele captou aquilo.

Um brilho de movimento. Uma lâmina reluzindo de forma anormal enquanto rasgava o ar, não em direção ao céu, nem em direção aos civis, mas diretamente ao pescoço do Dragão.

E então, tudo desacelerou.

Seu corpo reagiu antes que sua mente pudesse compreender completamente.

"SE CALE, MEU SENHOR!" gritou, lançando-se de lado.

Quando seu braço cortou a garganta de Veyr no instante em que a lâmina chegou ao alvo.

* RASGADO*

Uma dor ardente, quase derretente, percorreu seu antebraço ao ser atingido pela adaga envenenada, que perfurou a palma da mão com facilidade, rasgando carne e osso.

*Raquete*

*Gotejamento*

O sangue jorrou instantaneamente, quente e espesso, escorrendo pelas vestes de Veyr.

Porém, a lâmina não alcançou seu objetivo.

Veyr ofegou, com os olhos arregalados, mas ileso, enquanto sacava sua própria lâmina escondida sob as vestes cerimoniais.

*Fivela*

Valterri caiu de joelhos, com a mão ainda agarrada à adaga grudada na carne, a dor queimando como fogo por dentro, mas tudo que conseguiu pensar foi—

'A ameaça ainda não acabou.'

Sua visão ficou turva enquanto o veneno começava a fazer efeito, mas mesmo na agonia, manteve o braço levantado, protegendo o Dragão com a força que lhe restava, enquanto as guardas do décimo segundo ancião gritavam e se espalhavam ao redor dele, finalmente percebendo o que acabara de acontecer.

Um assassino altamente habilidoso cercava-os, e seu alvo era a vida do Dragão.

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