Assassino Atemporal

Capítulo 448

Assassino Atemporal

Era a primeira vez que Leo ficava diante de um Deus, um Deus de verdade, e o que ele sentiu quase destruiu sua compreensão da realidade.

Quando seus olhos se encontraram com os de Soron, ele não teve a sensação de estar olhando para outro homem.

Não, não havia batimentos de afinidade, nem sentimento de pertencimento à mesma espécie.

Soron estava envolto numa casca humana, sim, vestido com véus negros e sentado numa postura mortal, mas tudo nele gritava algo diferente. Algo que a mente de Leo não estava preparada para compreender.

Houve uma ruptura na lógica quanto mais ele observava. A cadeira estava ali. Soron estava sentado nela. Isso Leo podia ver claramente. Mas, por alguma razão, seus instintos se recusavam a aceitar aquilo como verdade.

Era como se a figura que via fosse apenas uma projeção filtrada pelos limites de seus sentidos… uma ilusão elaborada não para enganar, mas para proteger.

Pois a presença real por trás daqueles olhos, por trás daquela forma, era algo vasto demais… algo alienígena demais… algo imenso demais para que a compreensão humana pudesse suportar sem se partir.

Leo nem conseguia ter certeza da distância entre eles.

Soron parecia estar perto o suficiente para alcançar, mas também impossivelmente distante, como se seu corpo existisse no espaço entre os átomos.

Até a forma como a luz refletia sobre ele, aqueles tons sutis de preto e prata, pareciam carregar cores que Leo não tinha palavras para definir, tonalidades que não pertenciam exatamente a este plano.

E aquele olhar…

Ele não encarava Leo. Era como se olhasse através dele. Não como quem lê pensamentos, mas como se folheasse todas as páginas que ele já viveu, percorrendo a narrativa de sua alma como se fosse uma nota de rodapé de um conto antigo já escrito há muito tempo.

Os instintos de Leo gritavam que ele não estava vendo o verdadeiro eu de Soron.

Ele só tinha permissão para ver uma faísca—uma fração segura—da verdadeira presença do Deus, cuidadosamente filtrada para que pudesse sobreviver.

Uma forma que sua mente pudesse entender sem se desintegrar.

E mesmo assim, mesmo nessa versão reduzida, a existência de Soron pressionava Leo como a gravidade do sol.

Imensurável.

Inescapável.

Indissolúvel.

Não era medo que o mantinha Leo ali. Era admiração. Uma admiração pura, primal, diante de algo tão fundamentalmente além dele que até ficar ereto parecia um ato de rebeldia contra a ordem natural.

No entanto, ele permaneceu de pé.

Ele manteve o olhar de Soron.

E, em algum lugar, sob o peso de tudo isso, Soron o deixou.


"A seguir, apresentamos", anunciou Joe, com a voz potente pelos alto-falantes do arena, "o prodígio dos prodígios… o mais jovem guerreiro da história do Cult a alcançar o Grau Transcendente aos vinte e três anos, quebrando todos os recordes anteriores…"

Um dramático pausa seguiu enquanto a câmera lentamente percorreu a multidão, tensionando ainda mais o ambiente.

Dana completou a frase, a voz carregada de reverência: "O candidato escolhido do Quarto Ancião… Aegon Veyr!"

O túnel oposto ao de Leo se iluminou com um súbito clarão de luz branca pálida enquanto Aegon Veyr avançava, confiante e silencioso, sua presença imediatamente cativando olhares e respirações de todos que assistiam.

Enquanto Leo surgiu como uma tempestade fechada atrás de vidro, calmo e enrolado, Veyr chegou como uma tocha acesa, feita para ser vista.

Seus braços, ombros e clavículas estavam cobertos de tinta— dezenas de tatuagens sobrepostas, serpenteando sua pele em padrões belos e sombrios que brilhavam sob os holofotes da Arena Lewis Hamilton.

Os desenhos eram antigos e complexos, sigilos de seitas entrelaçados numa única tela coesa, como se o próprio corpo dele contasse uma história que deveria ser estudada pelas massas.

Como uma obra de arte ambulante.

Uma obra-prima viva esculpida para a batalha.

A multidão rugiu enquanto Veyr levantava um braço, sorrindo amplamente, alimentando-se da energia do público com facilidade. Fez um gesto de charme treinado, absorvendo a admiração, antes de virar o olhar para as caixas VIP do Ancião.

Não demorou para avistar o Quarto Ancião, sentado com os braços cruzados, o olhar firme, embora levemente aprovador.

Com um sorriso astuto, Veyr lhe deu um gesto de cortesia zombeteiro, mais arrogante do que respeitoso, mas com peso, antes de voltar ao campo enquanto o Capitão Max se aproximava.

"Fique quieto", disse Max com um aceno, examinando sua forma com o mesmo aparelho de checagem de mana que havia usado com Leo, verificando cada equipamento e arma registrado contra os cadastros. Sua expressão permaneceu neutra, profissional.

Mas Veyr não compartilhava a mesma concentração.

Porque, no momento em que Max chegou mais perto, os instintos de Veyr se ativaram… algo estava errado. Algo enorme se aproximava.

Ele virou levemente a cabeça, olhos estreitando-se em direção à borda da arena.

E então o viu.

O homem sentado no trono de pedra.

Coberto de preto. Cabelo caindo longamente. Postura imóvel.

Soron.

A mudança na expressão de Veyr foi instantânea.

Seu sorriso vacilou.

Seus ombros sefirmaram.

Talvez o público não percebesse, mas Max viu. E as câmeras também.

Uma tênue onda de medo passou pelos olhos de Veyr enquanto seu corpo reagia antes que sua mente tivesse tempo de assimilar, resistindo ao desejo profundo e visceral de se ajoelhar—não, de se prostrar completamente.

Seus lábios se separaram. "Quem é aquele…?" ele sussurrou, mantendo a voz baixa para que não fosse ouvida além de Max.

Max não desviou o olhar de seu scanner, mas sorriu enquanto dizia: "Esse é o nosso protetor divino,"

"Esse é o Lorde Soron."

Veyr não falou mais nada.

Porém, aquele momento ficou marcado em sua memória.

Ele continuou observando Soron por alguns segundos mais, o maxilar tenso e a respiração firme, embora superficial, até finalmente virar-se para Leo, que lhe lançou um sorriso arrogante… algo que Veyr não esperava.

Não era o sorriso de alguém ignorante ou cego aos riscos. Tampouco era a bravata falsa de um lutador mais fraco tentando parecer forte na presença de todos.

Não, havia algo perturbadoramente sincero no rosto de Leo, como se ele realmente acreditasse que tinha chance, mesmo diante de um Transcendente.

Veyr estreitou os olhos.

Leo não demonstrava medo. Nem uma gota.

Apenas concentração… e uma calma estranhamente contagiante, quase artificial, neste arena sagrada.

Seus olhares se cruzaram.

E, num instante, o barulho da multidão, o brilho das luzes overhead e até a presença de Soron se apagaram como uma cortina de fundo.

Agora eram apenas eles dois.

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