Assassino Atemporal

Capítulo 439

Assassino Atemporal

(10 dias antes da luta, ponto de vista do Primeiro Ancião)

Levaram quarenta e seis dias de debates intensos no Conselho dos Anciãos após o anúncio da batalha entre Leo e Aegon Veyr para definirem o local, as regras, o árbitro oficial, o preço dos ingressos e toda a logística envolvida em um evento dessa magnitude.

Esse atraso foi maiormente causado pela relutância de ambos os lados em ceder ou até mesmo estabelecer uma comunicação adequada, pois nenhuma das partes queria parecer fraca ou admitir derrota após a grande confusão interna que tiveram logo após a última reunião do Conselho.

Com cada ancião priorizando o orgulho pessoal ao invés da execução prática, até as decisões mais simples se transformavam em discussões acaloradas, exigindo dezenas de esclarecimentos e revisões antes de serem aprovadas.

O local veio logo em primeiro lugar.

Após muitas idas e vindas, finalmente foi aprovado que a luta aconteceria no Planeta Tithia, já que lá está situada a maior arena de espectadores de toda a nação do Cult — a “Arena Dragão Lewis Hamilton”, nomeada em homenagem ao segundo Dragão do Cult, Sir Lewis Hamilton.

Naturalmente, nem todos ficaram felizes com isso.

Maioria dos anciãos queria que a batalha fosse realizada em um planeta sob sua própria jurisdição, e muitos protestaram publicamente contra a decisão, através de cartas formais recheadas de insultos passivo-agressivos e ameaças veladas. Mas, no fim, o tamanho da arena e a neutralidade do local venceram, e Tithia foi escolhido como o palco oficial.

As regras da luta geraram ainda mais conflitos.

Alguns anciãos desejavam um ringue personalizado, com terreno imprevisível para tornar o combate mais dramático. Outros defendiam o uso de venenos paralisantes, sugerindo que Leo recebesse todas as possibilidades de recurso caso não tivesse força suficiente para vencer limpo.

Porém, tais permissões acabaram sendo negadas.

Foi decidido que a luta aconteceria em uma área plana, circular de areia, sob as regras padrão do Circuito Universal. Sem veneno. Sem manipulação de terreno. Um duelo puro, sem alterações, decidido apenas pela habilidade, força e domínio das armas pelos dois combatentes.

Escolher o árbitro oficial, entretanto, foi surpreendentemente fácil.

O Capitão Max Verstappen, um soldado sênior da força militar do Cult, foi nomeado por votação unânime.

Sua reputação por imparcialidade e excelência no campo de batalha fez dele o candidato raro, respeitado e temido por ambos os lados na mesma medida. Nenhum ancião levantou objeção à sua nomeação, o que, por si só, parecia um milagre.

O último ponto de discussão, e o mais divisivo, foi o preço dos ingressos.

Todos entendiam as implicações financeiras. A receita de um evento dessa escala certamente seria astronômica, e, como o Planeta Tithia estava sob o domínio do Primeiro Ancião, a suposição padrão era que toda a arrecadação ficaria com ele.

Naturalmente, os outros anciãos não aceitavam isso.

Vários exigiam que a luta fosse gratuita ao público, mascarando o pedido com a ideia nobre de inclusão. Mas o Primeiro Ancião sabia que aquilo era uma estratégia para evitar o compartilhamento da renda.

Além do mais, tornar o evento gratuito não só era inviável como perigoso. Com o entusiasmo causado pela luta, deixar as portas abertas praticamente garantiria o caos — corridas descontroladas, setores lotados e possíveis revoltas na arena.

E assim, chegou-se a um acordo.

Os ingressos seriam vendidos por ordem de chegada, pelo preço simbólico de uma moeda de prata por pessoa, com fiscalização rigorosa para manter a organização da multidão.

A distribuição seria proporcional à população do Cult de cada planeta, com postos de venda espalhados por todos os setores do território Cult.

Era um delicado equilíbrio entre justiça, segurança e lucro.

Pois, com a fé que os plebeus tinham no Dragão, não seria surpresa se os ingressos chegassem a alcançar preços de mais de 50 mil moedas de ouro cada, se vendidos em um leilão público.

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A reação dos plebeus ao anúncio da luta foi quase imediata e avassaladora.

Mal foram divulgadas as regras e os preços dos ingressos, e o caos tomou conta das ruas de todos os planetas controlados pelo Cult.

Embora o horário de abertura dos postos fosse só após quarenta e oito horas, milhares de cidadãos correram para garantir seu lugar na fila, determinados a não perder a única oportunidade de assistir ao momento mais importante desde a última profecia do próximo Dragão.

Ricos comerciantes abandonaram seus estabelecimentos. Trabalhadores pobres largaram suas ferramentas.

Até mesmo os incapacitados chegaram em cadeiras de rodas, empurrando-se com toda força possível sobre os paralelepípedos lamacentos, determinados a não perder esse momento histórico por causa de suas limitações físicas.

Mendigos usaram sua última moeda de prata como sinal de reserva, jurando passar um mês sem comer ou até morrerem felizes, se pudessem presenciar essa luta, pois, embora uma moeda de prata fosse muito dinheiro para eles, estavam dispostos a pagar esse preço por uma ocasião dessas.

Pela primeira vez, o status social deixou de importar dentro do Cult.

Não havia mais nobres ou camponeses, apenas crentes na lenda do próximo Dragão, todos movidos por uma obsessão comum de ver a antiga profecia se cumprir diante de seus olhos.

Empregos eram esquecidos, refeições puladas e centenas de famílias ficavam na espera.

Pois, diferentemente de tudo, nada era mais importante do que isso.

Em apenas duas horas após o anúncio, as filas de ingresso cresceram tanto que as praças públicas fora das áreas de venda se transformaram em muralhas humanas, lotadas de corpos desesperados e energia caótica.

As ruas foram bloqueadas, lojas fecharam e terminais de transporte pararam de funcionar.

O cotidiano entrou em colapso, substituído por uma urgência silenciosa que pulsava nas cidades como um batimento cardíaco.

As autoridades locais tentaram conter a situação quando tudo saiu do controle.

SIRENS da polícia soaram, e os policiais armados com cassetetes marcharam para dispersar as multidões, citando leis contra obstrução pública e perturbações civis.

Mas o povo permaneceu firme.

Velhos seguravam seus cajados como se fossem lanças, recusando-se a recuar. Alguns choraram abertamente, gritando que aguardaram a vida toda por um momento assim. Que, mesmo se a polícia os espancasse ou os levasse para a prisão, eles voltariam a rastejar só para ver a coroação do próximo Dragão ao vivo.

Mães com bebês presos às costas, adolescentes descalços após correrem por quilômetros e veteranos em formação, respeitando o combate não por um general, mas na esperança de ver o próximo Dragão em ação.

E assim, no final, quem não recuou foi o povo. Foram as forças policiais que desistiram.

Diante de uma multidão grande demais para ser contida e unida demais para ser intimidada, eles recuaram lentamente, enquanto os governantes da cidade buscavam estratégias alternativas.

Barreiras improvisadas foram erguidas para organizar as filas, ao invés de dispersá-las, e estações de água de emergência foram abertas para evitar que as pessoas desmaiassem pelo calor.

O mesmo cenário se repetiu em todos os planetas sob domínio do Cult.

Das colônias de mineração geladas do Planeta Gantor às férteis áreas comerciais do Planeta Zian Prime, cada posto de venda era cercado por uma onda gigante de pessoas, todas desesperadas para não perder a chance de estar presente na história que seria escrita na Arena Sir Lewis Hamilton.

Pois esse não era um combate comum.

Era o momento que marcaria o início de uma nova era.

Daqui para frente, a espera de trinta e dois anos do Cult pelo seu novo Dragão finalmente chegaria ao fim.

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