
Capítulo 438
Assassino Atemporal
(14 dias antes da luta, ponto de vista de Leo)
Restavam duas semanas.
E a cada hora que passava, a paciência de Leo ficava ainda mais fina, como uma corda quase no limite de romper, desfiando nas bordas, não importando o quanto tentasse se manter calmo.
Ele vinha seguindo a rotina de treino de Charles religiosamente, mas não importava quantas vezes revisasse os conceitos básicos, quantas camadas de aura vermelha analisasse ou quantos treinos repetisse sob os olhos atentos de Charles, o avanço que buscava permanecia teimosamente fora do seu alcance.
E assim, hoje, ele tomou uma decisão.
O treinamento de combate não dominaria mais sua rotina.
De agora até o dia da luta, ele reduziria as sparrings para no máximo duas horas por dia, o suficiente para manter seus instintos afiados, enquanto o restante do tempo seria dedicado à coisa que ainda lhe escapava:
Dominar a aura e finalmente desbloquear o próximo estágio para visualizar a intenção.
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Todas as manhãs, seu treino começava sentado de frente para Charles na câmara de combate, onde o comandante emitia diversos padrões de sede de sangue para ele estudar, um após o outro, cada um sutilmente diferente na cor, mas similar na forma.
À primeira vista, parecia que toda sede de sangue era vermelha, uma aura impregnada na cor da violência, mas ao olhar mais de perto, Leo percebeu que o tom não era constante.
Ela pulsava. Oscilava. Evoluía.
Com o tempo, começava a surgir um padrão compreensível, enquanto Charles falava verbalmente sobre a mudança em seus pensamentos internos, ao mesmo tempo em que as cores ao redor de seu corpo mudavam, contribuindo para Leo entender melhor exatamente o que estava acontecendo.
Após observar Charles durante cerca de um mês, Leo chegou a algumas conclusões principais:
Primeiro, quanto mais ampla fosse a aura vermelha ao redor de alguém, mais forte era seu desejo de matar.
Isso era simples.
Um pensamento fraco, como uma inclinação vaga para atacar, quase não se manifestava, apenas um leve nevoeiro ao redor do corpo.
Mas quando a mesma pessoa entrava em uma verdadeira mentalidade de matador, quando a ação não era apenas contemplada, mas efetivamente realizada, a aura se expandia, tornando-se mais ampla e pesada, até que o ar ao redor começava a parecer sufocante para quem não tinha treino para lidar com ela.
Leo começou a reconhecer esses intervalos rapidamente, atribuindo medidas aproximadas na cabeça. Uma aura de um pé de largura? Pensamento de lazer. Cinco pés? Intento genuíno. Dez? Um assassino comprometido.
Mas não era só o tamanho que importava.
A tonalidade também tinha peso.
Vermelho escuro, enegrecido, aparecia quando alguém fantasiava matar algo que não tinha peso emocional para ela—como pisar numa barata ou estrangular uma galinha.
Nesses casos, a energia parecia fria, desconectada.
Por outro lado, quando Charles simulava matar alguém importante, como um colega ou um antigo mestre, o vermelho ao seu redor mudava. Ficava mais claro. Mais vivo, quase como fogo, como se tivesse algo mais profundo, como tristeza, raiva, arrependimento.
Foi então que Leo entendeu que a sede de sangue não era simplesmente moldada pelo desejo de matar, mas por uma combinação de fatores, incluindo a emoção por trás daquele ato.
E assim, ele observava. Catalogava. Memorava.
Vermelho brilhante, vermelho opaco, vermelho rosado, vermelho pálido.
A aura não mudava baseada na força do adversário. Mudava pelo significado do ato para quem o realizava.
Quanto mais emocionalmente pesado o motivo, mais vibrante era o vermelho.
Se o alvo era casual ou insignificante, a cor se tornava opaca.
Não era mais só violência. Era questão de significado.
Esse foi um conceito muito básico de aura que ele só aprendeu depois de passar dias estudando Charles e as mudanças na aura que ele projetava.
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Mais tarde naquele dia, Leo se agachou ao lado de um pedaço de terra seca, próximo à borda do pátio, com os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando fixamente para o chão com uma intensidade estranha.
Dois insetos, um besouro e uma pequena onbek, lutavam abaixo dele, presos numa espécie de duelo em miniatura que parecia carregar o peso do mundo para eles, mesmo que o mundo lá em cima mal lhes dedicasse atenção.
As pernas arranhavam, as mandíbulas se chocavam, os corpos se torciam e se chocavam de novo e de novo, e foi na metade dessa luta que Leo finalmente viu.
Vermelho.
Um contorno suave, quase um mero lampejo no começo, se acumulando ao redor de cada inseto em rajadas irregulares que ficavam mais fortes a cada golpe.
Ele ficou pasmo.
Porque até então, só tinha percebido sede de sangue ao redor de humanos, e esse momento marcou a primeira vez que ele testemunhou sua presença em uma besta.
E, no entanto, mais do que surpresa, aquela visão confirmou algo para ele, validando uma teoria que já suspeitava há algum tempo, mas que nunca tinha abraçado completamente devido à falta de provas concretas:
A teoria de que a sede de sangue não era apenas uma característica humana... mas algo universal.
Não pertencia aos sábios ou aos maus, aos nobres ou aos treinados.
Não era uma marca de inteligência ou cultura.
Era uma verdade fundamental da vida consciente.
O desejo de sobreviver. De matar. De dominar.
Existia em todos os seres vivos, independentemente da forma ou do pensamento.
E naquele instante, enquanto o besouro atravessava o pescoço da mantis e arrastava seu corpo convulsivo de volta para uma fenda na pedra, Leo viu algo mais profundo.
O vermelho do besouro mudou.
De opaco para intenso.
De rotina para significado.
Porque naquele momento, o besouro não estava apenas matando.
Ele estava se alimentando, vivendo, vencendo.
E aí Leo realmente entendeu—
A sede de sangue não era só o desejo de matar, mas um reflexo do que aquele ato significava.
Para o besouro, aquela morte agora significava que ele e sua família não passariam fome nos dias seguintes.
Por outro lado, se um humano matasse a mesma mantis, provavelmente não significaria nada para ele.
'Para entender realmente a intenção por trás de um assassinato, preciso compreender a razão pela qual alguém mata em primeiro lugar…' Leo percebeu naquele instante, ao finalmente desvendar o ingrediente-chave que faltava na sua busca por entender a intenção.
Charles repetia várias vezes que entender a razão por trás de uma ação era fundamental para seu avanço, mas só agora, após observar duas pequenas criaturas lutando por suas vidas, Leo conseguiu realmente compreender o que aquele conselho significava.
Para o besouro, a razão era sobrevivência. Fome. Dever para com sua ancestralidade.
Porém, se ele tentasse a mesma ação, a razão poderia ser algo tão simples quanto matar por irritação casual ou só porque podia fazer sem enfrentar consequências.
E daí ficou claro que desbloquear a intenção não era apenas sobre o ato de matar, mas também sobre a profundidade do significado por trás dele.
"Se o significado molda a aura… então eu preciso entender mais do que só cores," Leo sussurrou para si mesmo, enfiando os dedos na terra. "Preciso entender o que uma morte custa. O que ela dá. O que ela tira. Só assim… a intenção se revelará."