
Capítulo 344
Assassino Atemporal
“Ouça atentamente às regras da segunda rodada, mortal, pois desta vez não vamos nos repetir...” anunciou a cabeça do meio, sua voz se entrelaçando na névoa como um sussurro na beira do pensamento.
“A segunda pergunta é um teste de lógica, não de intuição. Há apenas um enigma, e somente uma resposta correta.”
A névoa se apertou mais ao redor do espectro até que sua forma desapareceu completamente, substituída por nada além de fumaça cinzenta e rodopiante, até seus olhos sumirem.
Leo não conseguiu mais enxergar sequer o traço mais tênue do fantasma, e por isso não podia mais confiar no códice para ajudá-lo a responder a questão.
Parecia que o fantasma tinha percebido sua trapaça e tinha fechado a porta contra a possibilidade de usá-la novamente, cobrindo totalmente seu corpo com uma densa névoa.
"Um mercenário é colocado em uma sala com três cadeiras."
“Na primeira, senta um rei que oferece ouro em troca de proteção contra seus inimigos.”
“Na segunda, um mercador que oferece o dobro disso por silêncio e discrição.”
“E por fim, na terceira, um fazendeiro que não oferece nada, mas chora de medo e reza aos deuses pela sobrevivência.”
“A porta da sala só se abre após o mercenário matar um dos três. No entanto, se decidir não matar ninguém, os quatro irão passar fome e morrer.”
"Ele não pode sair sem fazer uma escolha. Não pode matar mais de um."
"Mas quem ele matar, os outros dois irão caminhar livres e viver por muito tempo."
"Então, quem ele deve matar, se for racional e de bom coração?"
O fantasma perguntou, enquanto um silêncio assustador tomava conta após suas palavras.
Leo estreitou os olhos.
Desta vez, a resposta não viria da observação, e ele tinha que confiar apenas na sua inteligência para chegar à solução, pois não havia mais espaço para enganar.
—------------
As palavras do enigma ecoaram em sua mente, repetidas várias vezes, enquanto ele deixava a imagem se formar por completo na cabeça.
Um rei.
Um mercador.
Um fazendeiro.
Um oferecia ouro por proteção.
Outro oferecia mais por silêncio.
Enquanto o último não oferecia nada, apenas chorava de medo.
Apenas um podia morrer. Os outros dois viveriam. E o mercenário—se fosse racional e de bom coração—teria que decidir quem matar.
"Racional e de bom coração..." Leo repetiu internamente, enquanto considerava cada opção.
O rei era um homem poderoso, que oferecia ouro para ser protegido, provavelmente por medo de que seus inimigos o assassinassem.
Sua sobrevivência mantinha a ordem no mundo e poderia servir ao bem maior, pois quando um rei morre de forma prematura, geralmente há sangue derramado.
O mercador era um homem ganancioso, que oferecia mais ouro do que o rei, não por proteção, mas por silêncio e discrição, uma atitude que mais parecia motivada pela culpa do que pelo medo.
Porém, clientes como o mercador eram o que a profissão de mercenário exige. E não cabia ao mercenário julgar o que o cliente fazia após pagar pelo serviço.
Finalmente, o fazendeiro era um pobre homem, que não oferecia nada, não por arrogância, mas porque não tinha o que dar. Chorava não por estratégia, mas por medo puro ao se voltar aos deuses e implorar por misericórdia.
Leo franziu a testa enquanto as camadas de raciocínio começavam a se desenrolar em sua mente.
"Se o mercenário agir apenas com racionalidade, pode escolher a oferta mais alta. Ou seja, o mercador. O dobro de ouro. Fácil."
"Se ele agir com bondade de coração, poderia recusar-se a matar... mas o enigma proíbe isso. Ele precisa fazer uma escolha. Não fazer nada não é uma opção."
"Então, qual decisão protege os inocentes e pune os corruptos... com o menor custo para o mundo?"
Pensei, enquanto refletia longamente sobre a questão, até decidir a resposta com base no que eu faria pessoalmente, se estivesse nessa situação.
Eu sou um assassino, e embora não me considere 'de coração bom', não sou cruel nem irracional.
Portanto, só pensei no que eu faria se estivesse no lugar dele, e finalmente cheguei a uma resposta após apenas vinte minutos de reflexão.
"Eu já fiz minha escolha," declarou.
"Então fale," respondeu o espectro, com a voz carregada de fumaça e sombra.
Leo não hesitou.
"O mercenário mata o fazendeiro," disse com firmeza.
"Porque o fazendeiro não tem nada a oferecer—nenhum poder, nenhuma influência, nem um acordo."
Eu sei como um mercenário pensa. Ouro fala. Medo não. O rei paga pela proteção, o mercador paga mais por silêncio, mas o fazendeiro... ele só chora. E chorar não alimenta a lâmina.
A resposta do enigma está no próprio nome da profissão... 'VENDER ESPADA'.
Fazemos o que fazemos por dinheiro, e sermos bondosos ou cruéis não altera isso." declarou confiante, enquanto um silêncio se instaurava.
“…Certo,” finalmente disse a cabeça do meio, em tom indecifrável, enquanto a névoa ao redor de seu rosto recuava, e as três cabeças reapareciam.
"Você viverá para enfrentar a terceira questão." disse a cabeça da esquerda, e sem perder tempo, já passaram rapidamente para a última pergunta, enquanto a forma do espectro desaparecia completamente diante de Leo, cuja voz começou a ecoar em vários pontos ao seu redor, como se centenas de vozes o cercassem vindo além da névoa.
"Preste bem atenção, mortal. Pois isto não é um enigma de truques, mas de dor."
"Houve uma vez três irmãos," começou a voz, não em uníssono, mas em sobreposição—três vozes compartilhando o mesmo sopro, sobrepondo-se como acordes de um hino melancólico. "Três almas unidas em um só corpo... ligados pelo pescoço para baixo, presos em carne que não escolheram."
"Tinham três mentes. Três cabeças. Três sonhos. Mas apenas uma vida. Um par de pulmões. Um destino."
"Aprenderam a viver juntos, a comer juntos, a lutar juntos, mas nunca a amar juntos."
"Pois havia uma mulher."
"Uma mulher gentil. Doce, forte, radiante de uma forma que fez os três acreditarem que ela realmente via… eles."
"E ela amava um de nós."
"Mas qual?"
A voz se quebrou, dividindo-se totalmente em três tons distintos agora, ecoando de direções diferentes na névoa, como se os irmãos estivessem perambulando ao redor de Leo, invisíveis, mas presentes.
---
"Fui o primeiro a notar seu sorriso," afirmou a voz da esquerda, calma e nostálgica. "Ela ria das minhas piadas, ficava na minha conversa, e sua mão passava perto da minha quando achava que os outros não estavam olhando. Ela pedia minhas histórias, ouvia meus sonhos. Ela me via. E, quando a mãe dela adoeceu, foi comigo que ela veio buscar conforto, não com os outros."
---
"Fui aquele a quem ela procurava quando seu coração estava pesado," disse a voz do centro, mais profunda e firme. "Ela colocava a cabeça perto do meu ombro, falava baixinho quando os outros já dormiam. Uma vez, ela me entregou um recado, mas fui eu quem leu primeiro—ele tinha meu nome assinado. Não foi erro. Foi uma confissão."
---
"Fui quem tocou sua alma," sussurrou a terceira voz, tremula. "Ao pintar para ela. Ela chorou ao receber um retrato do mar—pois eu me lembrei de que ela nunca tinha visto. Ela beijou nossa bochecha uma vez, sob a árvore de lilás, e senti seu calor na minha pele. Depois daquela vez, nunca mais olhou os outros do mesmo jeito."
---
"E ainda assim," as três vozes voltaram, baixas e pesadas agora, "quando seu fim chegou… quando a febre a tomou e ela agonizava… ela nos puxou para perto. Sussurrou a verdade do seu coração."
"Mas não nos lembramos."
"A dor tomou o momento. E desde então lutamos, acreditando que éramos cada um de nós."
"Mas era apenas um."
"E agora, vocês precisam nos dizer—"
De repente, um silêncio cortante tomou o ar, afiado e completo.
Então, suavemente, veio a pergunta:
"Para qual irmão… ela confessou seu amor no leito de morte?"