
Capítulo 319
Assassino Atemporal
Após ler a última linha do livro, Leo virou-se para inspecionar novamente o mural, desta vez com muito mais paciência e intenção do que quando havia tropeçado naquela sala esquecida pela primeira vez.
Porém, por mais que olhasse, a pintura não deixava de parecer apenas mais uma obra restaurada, pois havia algo mais profundo nela, algo intangível entrelaçado em seus traços e sombras que, embora não fosse evidente à primeira vista, continuava a atiçar a curiosidade.
Felizmente, agora que conseguia decifrar parcialmente a língua ancestral, podia compreender o significado dos símbolos espalhados pela pintura, como aqueles gravados na armadura de pedra de Zharnok, que significavam "Sabedoria" e "Honra", e o símbolo no pedestal de onde se curva a cobra, que representava "mentiroso" ou "trapaceiro".
Leo dedicou tempo a cada um dos onze deuses, analisando os símbolos menores, notando os padrões e as frases próximas aos seus pés e garras. Mas, por mais que tentasse estudá-los de forma igual, seu olhar sempre retornava ao décimo segundo—de volta ao dragão.
Seus olhos ficaram ali, por mais tempo do que com quaisquer outros, enquanto seus dedos inconscientemente traçavam o contorno das asas do dragão, a curva dos chifres e a quietude assombrosa de seus olhos fechados.
Algo no Dragão o desconcertava de uma forma difícil de explicar. Ao olhar para a pintura, não conseguia evitar sentir uma conexão pessoal com a criatura, o que era estranho, já que ele era, acima de tudo, um humano.
Sentia tensão na forma como suas garras se curvavam para dentro, na maneira como sua cauda se enrolava na base, e especialmente no fato de sua cabeça não olhar para a frente como os outros animais, mas estar levemente inclinada para cima, em direção ao sol pintado acima, como se o artista tivesse tentado transmitir algo sutil—algo que apenas quem realmente compartilhasse uma ligação com ele entenderia.
No entanto, embora percebesse que havia mais na pintura do que aquilo que os olhos nus podiam captar, não conseguia entender exatamente o que era.
"O quê? O que afinal você está tentando me dizer? O que eu realmente preciso descobrir?" — pensou Leo, estreitando ainda mais os olhos, agachando-se para examinar os detalhes das escamas, passando os dedos pelas arestas elevadas da tinta, questionando por que aquela criatura em particular parecia tão diferente das demais.
Então, sem dizer uma palavra, deixou sua mana crescer um pouco e ativou a [Visão Absoluta], tentando observar a pintura com seus olhos de mana, em vez de olhos físicos. Imediatamente, o vermelho apagado da pintura desabrochou em um carmesim fluido, o contorno preto se espessou como obsidiana endurecida, e finos filamentos de energia começaram a se tornar visíveis, revelando uma camada do mural que nenhum olho comum teria captado.
Por trás de cada criatura, Leo viu delicadas linhas de energia dormente, mini veias de mana correndo para o interior, cada uma com seu padrão e cor únicos—embora enfraquecidos pelo tempo, ainda claramente presentes.
Porém, enquanto a maioria das criaturas apresentava uma veia de mana constante, com energia fluindo a uma velocidade uniforme, o Dragão era diferente.
A energia que se escondia atrás dele não fluía de forma contínua. Pulsava—suave e firme, como o ritmo de um coração adormecido—mais espessa, mais densa e mais vibrante que as demais, como se, mesmo em silêncio, resistisse ao esquecimento.
Leo o observava, sua respiração desacelerando, enquanto um ritmo estranho começava a palpitar dentro do seu peito, sincronizado com o pulso que via na energia do dragão. Antes que pudesse impedir ou questionar impulsivamente, sua mão levantou-se e pressionou contra o mural, firmando-se exatamente no peito da criatura pintada.
Ao tocá-lo, a superfície parecia mais fria do que deveria, e, naquele momento, uma forte vontade de canalizar sua mana para a pintura tomou conta dele. Libertou uma pequena corrente de mana pela palma da mão, alimentando o mural de forma cautelosa.
Primeiro, nada aconteceu.
Depois, o mural começou a brilhar suavemente.
As linhas tremeram.
E o olho do dragão, que sempre permanecia fechado, lentamente se abriu, revelando um olho vermelho brilhante, que não deveria existir em uma pintura.
Leo mal teve tempo de processo o que via antes que o olho vermelho piscasse uma vez e começasse a puxar sua consciência para fora do corpo. Sentiu como se estivesse sendo levado a um sono de espírito, mas, desta vez, estava completamente acordado e consciente.
Em segundos, o mundo ao seu redor começou a se fundir em trevas tingidas de vermelho e dourado, enquanto ele se via impotente diante do fenômeno.
O processo só cessou quando, finalmente, se achou de joelhos, cercado por calor, fumaça e um ar tão carregado de energia que fazer até mesmo a respiração parecer difícil.
"Que porra é essa?" — pensou, lentamente levantando a cabeça, apenas para se deparar com os pés de uma criatura ancestral gigantesca, que parecia estar se movendo e viva.
"Que diabos??"
Ele pensou novamente, olhando para cima, e dessa vez viu que seus olhos encontraram os olhos do dragão ancestral.
Seu olhar não era hostil, mas também não era passivo.
Era agudo, direto e pesado, como se a criatura estivesse consciente de sua presença e aguardasse seu retorno.
Leo permaneceu imóvel. Não falou. Não respirou por um segundo além do necessário, pois o peso no ar parecia capaz de esmagá-lo se ele ousasse desviar o olhar.
No entanto, de forma estranha, ele não sentia medo.
Também não estava calmo.
Era algo diferente.
Uma força que crescia lentamente dentro do seu peito, como se algo antigo enterrado no seu sangue tivesse finalmente sido despertado, enquanto sentia seu coração de mana pulsando descontroladamente.
O dragão o encarava calmamente.
E Leo devolvia o olhar.
Silenciosos. Parados.
Como duas entidades—divididas por espécie, tempo e destino—que trocavam olhares pela primeira vez.