
Capítulo 224
Assassino Atemporal
(Ponto de vista de Dupravel Nuna, Quartel-General da Guilda Serpente Negra, Planeta Twin Fang)
Enquanto um civil comum estava preso ao toque de recolher militar, trancado dentro de um quarto de hotel sem liberdade para sair, Dupravel Nuna não enfrentava tais restrições.
Um Monarca não pede permissão.
E assim, nenhuma alma ousou detê-lo ao deixar a Arena Deus do Céu, desaparecendo do asteroide sem dizer uma palavra, enquanto voltava para a sede central dos Serpentes Negras, nas planícies sombrias do planeta Twin Fang.
Foi aqui, atrás das paredes de obsidiana à prova de som do seu escritório particular, que a máscara fria que usara durante toda a crise finalmente se quebrou.
Ele fazia questão de não mostrar suas emoções reais diante do público comum, e mesmo quando estava sozinho com seus chamados aliados, mantinha o controle. Mas, uma vez na privacidade do seu escritório, na presença do único homem vivo que o conhecia além de guilda, ele finalmente explodiu.
*ESTALO—*
A mesa valendo um milhão de MP se despedaçou quando seu punho caiu com força sobre a superfície polida, os pedaços de vidro espalhando-se pelos pisos de pedra, enquanto Dupravel tremia de raiva, os ombros arfando sob seu robe sob medida, os dentes cerrados de modo a fazer as veias do pescoço saltarem.
"Eles têm meu filho, Antonio… levaram meu filho, meu sangue, meu coração!"
Sua voz quebrou.
O terror, o assassino frio e sanguinário que comandava uma das guildas de assassinos mais temidas do universo agora se via com lágrimas nos olhos, os lábios tremendo e a face pálida de fúria impotente.
"Ele é só um garoto… Não tem estômago pra isso… é fraco… muito gentil para este mundo do inferno… ele não vai sobreviver a uma trauma desse tipo—"
Sua voz voltou a tremer, enquanto seus dedos se entrelaçavam e se desentrelaçavam, procurando algo para destruir, para punir, para matar, mas não havia nada na sala que pudesse ajudar a trazer Darnell de volta.
Antonio, vice-guilda-mor dos Serpentes Negras, parceiro de longa data e o único homem que ousava falar com Dupravel sem medo, permanecia de braços cruzados no canto da sala, com um suspiro cansado nos lábios.
"Calma, Dupravel. Seu amor cegamente apaixonado por esse menino é exatamente o que o tornou alvo. Se você não ficasse paparicando ele como um tolo em público ao longo dos anos, ninguém atacaria uma criança como ele para atingir você—"
As palavras de Antonio foram diretas, honestas e perigosas, mas necessárias.
"A aliança justa já está nos pressionando," continuou Antonio, olhos agudos e voz baixa. "Estão dizendo que não confiam no seu estado emocional agora… Exigiram que entregássemos o pergaminho de habilidades do Assassino Atemporal para 'guardar com segurança' antes que você troque por sua vida—"
*ESTALO—*
Outra estilhação — desta vez um enfeite de aço foi jogado contra a parede, quebrando-se com um clang agudo no pedra, enquanto Dupravel se virava, olhos ardendo de fúria.
"Tenho toda a intenção de trocá-lo. Daria meu próprio coração se eles pedissem, Antonio. Minha vida. Minha alma. Eu rastejaria por cacos de vidro se isso o trouxesse de volta, me entende?!"
A voz de Dupravel trepidou no cômodo, enquanto Antonio ficava em silêncio, fechando os olhos e respirando fundo por um momento.
Pois, apesar de todo seu gênio tático e sede de sangue incomparável, Dupravel Nuna sempre foi um bobo apaixonado por sua falecida esposa. E, após a morte dela, todo esse amor irracional e obsessivo foi lançado na única coisa que ela deixou para trás.
Darnell Nuna.
Antonio nunca viu o coração do amigo vacilar diante de exércitos inimigos ou tentativas de assassinato, mas mostre-lhe um arranhão no joelho do filho, e ele se desmanchava como um desastre nervoso.
Sim, Dupravel é um Monarca.
Uma arma viva capaz de massacrar exércitos.
Mas, no fundo, ele ainda era apenas um homem que se agarrava desesperadamente à única pessoa que lhe restava amar.
"Se essa é mesmo sua atitude," murmurou Antonio, com o olhar endurecendo, "concordo com a aliança. Talvez devêssemos entregar o pergaminho. Porque, se você não consegue pensar claramente agora, então não tem gana para protegê-lo." A resposta de Antonio foi recebida com um olhar quase mortal por parte de Dupravel.
"Se você forçá-lo a entregar de novo, eu te arranho vivo onde estiver agora mesmo!" ameaçou Dupravel, dando um passo à frente, olhos frios de raiva.
"Você e eu sabemos o que esse pergaminho significa. Não é só um tesouro, é uma alavanca, é poder.
A única razão de sermos intocados no universo é por causa dele. A única razão de o governo global não se meter em nossos assuntos é porque têm medo de que possamos entregá-lo ao culto."
Sua voz diminuiu, calma mortal.
"Se entregarmos agora, mesmo sob o rótulo de 'guarda segura', ele nunca mais voltará. E sem ele… seremos apenas mais uma facção. Mais uma guilda. Nosso respeito, nossa imunidade, nossa igualdade com os grandes clãs… tudo desaparecerá da noite para o dia."
As sobrancelhas de Antonio se franziram — mas, desta vez, ele permitiu-se um sorriso.
"Bom," disse ele. "Então você ainda não enlouqueceu."
Dupravel bufou e virou as costas, dispensando-o com um gesto.
"Claro que não. Não sou burro. De jeito nenhum entregaria esse pergaminho sob qualquer circunstância.
Mas a questão é, o Culto Maligno já exigiu o pergaminho? Eles falaram de algum resgate? Alguma demanda?" indagou Dupravel, enquanto—
"Ainda não," admitiu Antonio, balançando a cabeça.
"Sem mensagem… sem condições. Só silêncio."
Dupravel apertou ainda mais os punhos.
"E a gente? Encontramos alguma coisa?"
"Enviei todas as sombras que temos. Nossos melhores exploradores, agentes infiltrados, até mesmo mobilizamos nossos grupos parceiros.
Encontrar Darnell é a prioridade máxima da guilda agora." respondeu Antonio, enquanto Dupravel assentia compreendendo.
"Ótimo. Porque se não encontrarmos ele logo, acho que não vou mais conseguir controlar minha sede de sangue… E aí, planetas inteiros sentirão minha fúria—" advertiu Dupravel, enquanto Antonio estremecia.
De tempos em tempos, Dupravel sucumbia a episódios violentos de sede de sangue descontrolada — períodos em que sua raiva fervia tanto que ele participava de massacres indiscriminados de civilizações inteiras, não por necessidade ou estratégia, mas simplesmente porque sua sede de carnificina não podia ser saciada.
Esse era um dos efeitos colaterais de sua ligação com a 'Urna da Morte', o artefato que era a fonte de sua força e também a razão por trás de sua insaciável sede de sangue.
Até Antonio tinha medo de ficar na mesma sala quando ele tinha um daqueles dias, pois, ao perder o controle, Dupravel esquecia a distinção entre amigo e inimigo, inclusive.
Essa era uma das razões pelas quais foi forçado a caçar o antigo dragão Noah.
Após uma de suas explosões de violência indiscriminada, na qual destruiu um planeta inteiro sob a proteção do clã Du, foi obrigado a pagar reparações ajudando a aliança a caçar alvos do Culto Maligno, até conseguir o pergaminho de habilidades do Assassino Atemporal, que mudou tudo.
Com o pergaminho, todas as suas transgressões anteriores foram perdoadas e ele recebeu um status semelhante ao de um patriarca de grande clã, elevando a posição de toda a guilda Serpente Negra.
No entanto, agora, com seu filho sequestrado, todo esse progresso precário estava à beira de desmoronar, enquanto a pressão para entregar o pergaminho aumentava por todos os lados.