
Capítulo 145
Assassino Atemporal
O Assassino Atemporal, Vol. 2.
(O Próximo Dragão)
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"Se você estudar a psicologia daqueles ligados ao chamado ' Culto do Mal', descobrirá que não se trata de loucura—mas de um narcisismo extremo.
Eles não negam a supremacia dos deuses por descrença.
Rejeitam-nos por competição.
Para eles, divindade não é um destino—é um rival a ser superado, ultrapassado e, eventualmente, destruído."
— Dr. Major Klaasen, Revista de Psicologia do Crime do Governo Universal, Vol. 87
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(Planeta Ixtal – Mundo Capital do Culto da Ascensão)
Se visto sob uma ótica objetiva, Ixtal era apenas mais um planeta movimentado—rico em biodiversidade, com cidades em zonas climáticas variadas, e uma população que ultrapassava doze bilhões de civis. Mercados prosperavam. Pequenas naves policiais patrulhavam sua órbita. Crianças brincavam nas ruas de arcologias envidraçadas que tocavam as nuvens.
A primeira vista, não era diferente de qualquer outro núcleo planetary altamente urbanizado na galáxia.
Mas essa ilusão se desfez no momento em que alguém tentou deixar a órbita.
Os sistemas de defesa de Ixtal eram incomparáveis. Continentes inteiros eram equipados com torres de disparo anti-naves-artefato capazes de perfurar escudos planetários.
A atmosfera tinha redes invisíveis de interferência e complexos arrays de mana projetados para destruir qualquer propulsor warp não autorizado antes que pudesse iniciar uma sequência de salto.
Seu céu era protegido por redes orbitais reforçadas, capazes de rastrear e vaporizar uma frota segundos após a detecção.
E a superfície?
As maiores cidades estavam escondidas atrás de barreiras de espaço dobrado, cujas localizações eram deformadas e redirecionadas por uma rede de nós de distorção da realidade tão intrincada que nem mesmo o Governo Universal tinha mapeado por completo.
Todo esse aparato de proteção, todo esse esforço, não era pelos doze bilhões de civis.
Era pelo homem que governava de dentro de seu coração.
Soron.
O atual Deus do Culto da Ascensão—conhecido para o resto do universo apenas como o Culto do Mal.
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Escondido na densa copa da Floresta Perdida, longe das cidades flutuantes e complexos militares, erguia-se um castelo—se é que podia chamá-lo assim. Não maior do que uma propriedade de nobre, nem mais imponente que a fortaleza de um barão.
Suas paredes de pedra eram cinzentas, não polidas. Nada de torres pontiagudas buscando as estrelas. Nenhum símbolo no seu rosto.
O castelo era silencioso, funcional, discreto, refletindo seu ocupante e sua simplicidade.
No interior, na câmara mais interna, o vapor subia de um banho medicinal fundo, que brilhava com uma luz vermelha sombria.
Ervas cristalinas flutuavam no líquido, chiando enquanto se dissolviam lentamente, liberando vapores pungentes com aroma de cobre e incenso queimado.
Um homem estava à beira do banho, corpo relaxado, vestes soltas sobre os ombros.
*Tossido*
*Tossido*
O som ecoou no silêncio—seco, áspero, mortal.
Um deus não deveria tossir.
Deuses, afinal, eram criaturas de quatro dimensões—seres transcendentais capazes de retroceder o tempo, saltar para momentos antes de serem feridos, apagar feridas do próprio registro da realidade.
E ainda assim…
Quando Soron deixou sua túnica cair ao chão, a verdade veio à tona.
Seu corpo estava devastado.
Cicatrizes negras longas cruzavam seu peito e braços—algumas profundas, outras superficiais, mas todas muito reais. Onde as feridas não tinham cicatrizado, pus escuro vazava de lesões abertas que brilhavam com energia corrompida, pulsando em sintonia com algum parasita de outro mundo que nenhuma manipulação do tempo poderia apagar.
A imortalidade dos deuses tinha falhado com ele.
*TWUP*
Ele entrou lentamente no banho, a água fazendo um leve barulho ao romper a tensão superficial, e imediatamente soltou um suspiro de alívio, enquanto o calor da água tocava sua carne ferida.
O líquido carmesim grudava em sua pele como sangue.
Seus olhos permaneciam semiabertos, desfocados, como se enxergassem além da câmara, além de Ixtal, além do universo.
E ainda assim… preso aqui.
Ainda ferido.
Ainda morrendo.
As feridas abertas pela lâmina do Assassino Atemporal não cicatrizavam.
Era a única espada no universo capaz de infligir feridas que não podiam ser curadas, um dos principais motivos pelos quais o Assassino Atemporal conseguiu matar tantos deuses.
Porém, infelizmente, após a Grande Traição, há 2000 anos, essa lâmina caiu nas mãos de Kaelith, o Eterno Soberano… ou melhor, Kaelith, o Cão.
Que, infelizmente, era seu irmão mais velho—
Embora a Grande Traição tivesse ocorrido há duas mil anos, Soron ainda carregava as feridas daquele dia.
As feridas daquele combate, mesmo após 2000 anos, recusavam-se a cicatrizar, pois, embora sobrevivesse àquele dia, a energia corrompida persistente na lâmina desenvolveu uma infecção em seu corpo ao longo do tempo.
A infecção espalhava-se lentamente—parecia apenas uma deterioração de mana residual da lâmina que tinha acabado de matar deuses.
Mas agora, até a fisiologia divina de um deus já não era capaz de acompanhar. O pus que escorria de suas cicatrizes não era uma simples podridão comum. Era veneno legado, restos de uma verdade irreversível—que Soron estava morrendo.
*TWABLE*
Soron se moveu no banho, a água carmesim lambendo suas bordas enquanto mais ar escapava de seus lábios. Não por dor.
Mas por aceitação.
'Estou ficando sem tempo.'
Ele sabia disso há algum tempo—mas escondia o conhecimento sob séculos de força e cerimônia.
Porém, os sinais estavam se tornando mais difíceis de disfarçar recentemente.
Recuperações mais longas. Ciclagem de mana mais lenta. E agora… até seu controle sobre o tempo começava a escorregar.
Um deus que não consegue ultrapassar a quarta dimensão é um pretendente—nada mais do que um semi-deus ferido brincando de se passar por imortalidade.
E Soron já aceitara que não era mais o guerreiro de outrora.
E isso significava uma coisa.
Se ninguém se levantasse para substituí-lo logo, o Culto da Ascensão, ou seja, o Culto do Mal, como o universo o chamava—desmoronaria.
O Governo Universal tolerava a independência de Ixtal não por misericórdia, mas por medo. A existência de Soron era o escudo, o grande desconhecido que até mesmo o panteão de deuses evitava enfrentar de frente.
Enquanto outros mundos sob domínio do culto, dispersos e poucos, agarravam-se àquela ilusão de proteção, como náufragos a pedaços de madeira flutuante.
Mas, uma vez que ele se fosse…
Sem ele, não haveria dissuasão. Nenhum equilíbrio. Nenhum blefe.
'Cento e cinquenta anos', pensou. 'É tudo que posso dar a eles. Depois disso…'
A imagem surgiu sem pedir em sua mente—chamas negras espalhando-se pelas cidades de Ixtal, canhões orbitais silenciados, naves de guerra atravessando as barreiras de espaço dobrado com desprezo.
E então, silêncio.
Esse seria o fim.
Salvo alguém se levantar.
Salvo a profecia se concretizar.
Soron estreitou os olhos ao mergulhar mais fundo no banho, a água vermelha alcançando seus lábios.
Ele acreditava na profecia.
Acreditava que alguém de sua linhagem um dia surgiria para ser o próximo Assassino Atemporal.
Mas, ele só não sabia quando.
Passou o último centenário criando a tempestade perfeita—curando linhagens, manipulando juramentos sanguíneos, torcendo o destino até que se alinharem o suficiente para abrir uma única chance.
Um candidato. Um recipiente. Um dragão.
Porém, infelizmente, ainda não apareceu um candidato promissor.
Ninguém que realmente pudesse tomar seu lugar.
Essa pressão de não ter um sucessor adequado fazia Soron sentir que envelhecia um ano a cada mês que passava.
'Dois mil anos… Ainda sinto sua falta… Pai—
Dois mil anos, e ainda não consegui deixar um legado à altura do seu.'