
Capítulo 99
Assassino Atemporal
(Academia Militar Rodova – Pós Despertar Genético, Sala de Recuperação)
Os médicos mantiveram Leo e Su Yang sob observação rigorosa por cerca de uma hora, monitorando seus sinais vitais e garantindo que seus corpos estivessem estabilizados antes de liberá-los para alta.
Hoje não havia nenhuma palestra agendada para eles.
Por ajustes do professor Hen, eles receberam um dia inteiro de descanso — uma pausa necessária após uma das experiências mais exaustivas física e mentalmente de suas vidas.
Para Su Yang, esse período de recuperação foi uma bênção.
Mesmo agora, ao se sentar, sua cabeça ainda doía e seus membros pareciam mais pesados do que antes.
Cada fibra do seu corpo estava se ajustando às mudanças genéticas, e a sensação não era nada agradável.
"Aff… Você está bem, Skyshard?" Su Yang gemia enquanto saíam da ala médica. "Sinto como se alguém tivesse martelado um milhão de pregos no meu crânio."
Leo caminhava ao lado dele — completamente normal, seus passos suaves e sem pressa. Não havia lentidão, nenhum sinal de desconforto nele.
Era quase como se ele não tivesse passado pela transformação mais dolorosa da vida, o que fez Su Yang franzir o cenho, com certa irritação moderada.
"E eu sinto… esse ódio profundo pela Culto Maligno," murmurou Su Yang, massageando as têmporas.
"Aquilo deve ter massacrados muitos dos meus ancestrais ou algo assim, porque assim que concluí meu Despertar, já pude sentir. Uma rancor profundo e ardente dentro de mim." Ele falou, enquanto Leo voltava a olhar para ele, levemente inclinado, mas sem mostrar grande reação.
"Não vejo sentido em cultivar uma emoção tão inútil," disse Leo, com a voz notavelmente mais profunda do que antes, carregada de uma calma inquietante.
"O ódio turva o julgamento. cega a clareza na batalha. Se for pra falar a verdade, é uma carta na manga ruim." Leo aconselhou, enquanto Su Yang piscava confuso.
"O quê?" Ele bufou, lançando um olhar desconfiado para Leo.
"De repente você virou um monge? Que história de filosofia é essa?" Su Yang perguntou com sarcasmo, enquanto Leo não respondia de imediato.
Ele apenas encolheu os ombros.
Indiferente. Desapegado. Como se não se importasse com o que Su Yang pensava sobre suas palavras.
E imediatamente, Su Yang sentiu que algo na atitude dele hoje estava… estranho.
Por um momento, fez cara feia, pensando se deveria mencionar isso.
No entanto, com a cabeça ainda latejando e de tão mal, deixou passar por enquanto, pois não tinha condição de discutir.
"Enfim, acho que nos vemos por aí. Tomara que nenhum de nós apanhe com o Sono Fantasma hoje à noite." disse, dando um leve tapinha no ombro de Leo antes de seguir em frente, ao chegarem na bifurcação onde seus caminhos se separaram.
Eles chegaram ao dormitório de Leo, enquanto o próprio ainda tinha alguns metros de distância, por isso, enquanto Leo ficava parado do lado de fora da porta, Su Yang cambaleou, segurando a cabeça.
'Burro–' pensou Leo, observando-o partir — até que finalmente entrou.
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No instante em que Leo entrou no quarto, ele soube que tinha alguém ali.
"Sei que tem alguém no meu quarto…" murmurou, a voz baixa e incerta enquanto fechava a porta atrás de si.
Seus olhos cinza escuro piscaram levemente enquanto escaneava o espaço, notando detalhes que passariam despercebidos por outros.
Depois, como se estivesse falando com o ar vazio, continuou: "É você, Muiyan Faye?"
Então—
"Interessante…"
Uma leve ondulação quebrou a quietude do quarto, enquanto Muiyan Faye, que estava sentada na cama com sua presença completamente apagada, finalmente se revelou.
Ela recostou-se levemente, cruzando uma perna sobre a outra, e olhou para ele com um olhar de leve curiosidade.
"Como você soube que eu estava aqui?" ela perguntou, inclinando a cabeça.
"No seu nível atual, não deveria ser possível você me detectar." ela disse, encarando diretamente os olhos de Leo, esperando uma resposta.
Por um longo momento, Leo apenas a estudou, sem dar resposta imediata — como se estivesse pensando se ela realmente valia a pena ser respondida.
Então, finalmente, ele deu uma respiração leve, os lábios formando um sorriso quase imperceptível ao dizer: "Foi a maçaneta da porta—"
"Huh?" Muiyan Faye piscou confusa, enquanto Leo levantava a mão, apontando para a entrada.
"Vi as impressões de calor da sua mão no metal. A diferença de temperatura se destacou assim que entrei." ele explicou com uma voz firme, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
"Meus olhos ficaram… hiper-sensíveis,"
"Posso perceber até as menores mudanças de temperatura em todas as superfícies. Até no metal." ele falou, novamente fixando o olhar nela... com uma expressão incompreensível.
"Foi assim que soube que alguém entrou no meu quarto há poucos minutos," concluiu, enquanto Muiyan Faye o encarava, paralisada.
Isso era além de ridículo.
A maioria das pessoas nem detectava sua presença enquanto ela se movia — e aqui estava ele, percebendo seus rastros através de uma sutileza como diferenças térmicas?
Seus olhos se estreitaram levemente.
Que visão absurda ele teria despertado?
"Ainda não entendo como você conseguiu isso…" admitiu Muiyan Faye, sua voz misturando ceticismo e fascínio.
"Mas se você consegue notar algo tão sutil… parabéns. Presumo que seu despertar genético tenha vindo bem, né?" ela perguntou, enquanto Leo permanecia em silêncio por um longo momento desconfortável.
Então—
"Foi bem," ele respondeu, tom monótono, sem emoção. "Ganhei o conhecimento de duas habilidades passivas e completei a compreensão de uma habilidade ativa que já tinha."
Não havia entusiasmo em sua voz. Nenhuma satisfação ou curiosidade. Apenas uma resposta fria e objetiva.
E foi nesse momento que Muiyan Faye finalmente percebeu algo estranho.
Algo nele... estava errado.
Sua presença—seu jeito—tudo nele parecia diferente.
"O que aconteceu com você?" ela perguntou, franzindo o cenho. "Por que está tão… distante?"
Ela perguntou preocupada, enquanto Leo apenas encolhia os ombros.
"É um das habilidades passivas que ganhei," ele disse.
"Chama-se [Indiferença do Monarca]."
"Nem tenho certeza se quero essa habilidade, mas por enquanto ela fica grudada em mim como um parasita indesejado." Leo explicou, inclinando um pouco a cabeça, como se estivesse se avaliando de fora.
"Se meu espectro emocional antes variava de -100 a +100, essa habilidade limitou tudo a algo entre -20 e +20." ele explicou, enquanto os olhos de Muiyan Faye se estreitavam.
"Não consigo mais sentir tristeza extrema, ou felicidade extrema, ou mesmo raiva. É como se uma parede invisível tivesse sido colocada entre mim e minhas emoções."
"Minha mente permanece em um estado de pico de desempenho, quase imune a mudanças de humor, distrações ou pensamentos irracionais."
"É… estranho," admitiu, finalmente.
"Estou tão focado quanto estaria numa situação de vida ou morte. Mas isso faz com que eu me sinta mais um robô do que humano." Leo concluiu, enquanto Muiyan Faye o observava em silêncio, cada vez mais desconcertada.
Leo sempre foi perspicaz, calculista; isso nunca foi novidade. Contudo, havia algo profundamente humano nele antes, que agora desapareceu.
Ele parecia completamente diferente, e Muiyan Faye não gostou dessa mudança no futuro dragão.
As emoções eram uma ferramenta poderosa para realizar o impossível — porque um soldado racional jamais enfrentaria odds impossíveis, mas um soldado emocional sim.