
Capítulo 54
Assassino Atemporal
Assim que Leo percebeu que não era tão fraco quanto imaginava, sua respiração começou a se estabilizar e o ritmo do seu coração foi lentamente ficando mais tranquilo.
Era estranho—como uma mudança psicológica podia ter um efeito tão palpável no corpo dele, a diferença entre forçar-se a suportar tudo com pura força de vontade e saber, bem no fundo dos ossos, que ele poderia aguentar, era impressionante.
Seus músculos ainda ardiam. Seus pulmões ainda lutavam por ar. Suas pernas ainda sentiam o peso da colete pressionaando com força a cada passo.
Mas, de repente, parecia… suportável.
O desespero que vinha se insinuando—a ideia de que ele mal se segurava enquanto Su Yang dava voltas ao seu redor—desapareceu.
Porque agora, ele sabia.
Ele era rápido.
Ele era forte.
Ele nasceu para isso.
E isso fez toda a diferença.
À medida que avançava, seus passos ficaram mais alinhados, e seu ritmo se suavizou.
Enquanto isso, Su Yang, que observava a luta de Leo de relance, estreitou o olhar um pouco.
A mudança foi sutil—mas ele percebeu na hora.
Leo tinha passado de quase desabar à hora de parar a encontrar seu ritmo.
Nunca tinha visto algo assim antes, então ficou surpreso ao ver Leo encontrar uma força secreta tão tarde na corrida.
Era fascinante de assistir.
"Ora, ora," murmurou Su Yang entre dentes, com um sorriso no rosto. "Então, você tem um pouco de ferro aí, Garra do Céu…"
Em vez de se sentir ameaçado, Su Yang ficou empolgado.
Ele vinha esperando que Leo parasse de apenas resistir e começasse a dominar a situação.
Agora?
Era hora de ver até onde poderia empurrar Leo.
"Ei, Garra do Céu," chamou Su Yang, com um tom brincalhão, provocando.
"Você está empolgado demais aí atrás. Que tal a gente acelerar um pouco?" Sem esperar resposta, Su Yang acelerou.
Leo, um pouco surpreso com a súbita explosão de velocidade de Su Yang, instintivamente igualou o ritmo.
Suas pernas ardiam, sua respiração ficou mais difícil—mas seu orgulho não permitia que Su Yang o deixasse para trás.
Eles passaram Mu Shen, que soltou um gemido exagerado.
"Claro, vocês dois malucos fazem isso," ele resmungou. "Me matam logo de uma vez e acabam com isso…"
Mas nem Leo nem Su Yang deram atenção a ele.
Os outros estudantes, ainda lutando para completar suas voltas, só puderam assistir enquanto os dois lideravam, começando a se distanciar do pelotão.
"Olhem isso..."
"Eles já estavam à nossa frente e agora estão levando isso a sério como uma corrida de verdade?"
"Talentos de nível monarca realmente são diferentes, hein?"
Marvin, que observava de fora, soltou uma risada baixa.
'Bom…'
Ele tinha esperado que Su Yang se saísse bem.
Mas o desempenho de Leo o surpreendeu.
De acordo com a ficha de dados que ele tinha, parecia que a força e resistência de Leo eram pouco acima da média, no máximo.
E, como ele usava um colete de 40 kg ao invés de 25, Marvin achou que Leo ia desabar entre os primeiros que desistissem, mas ele resistiu com firmeza.
Mesmo atingindo sua capacidade muscular, Leo continuou correndo com pura adrenalina e força de vontade, avançando à frente do grupo ao lado de Su Yang e conseguindo dar voltas em todos até a Volta 40.
Hoje, cerca de 50% da turma já tinha desistido.
No primeiro dia, eles ainda não tinham força suficiente para correr a quase máxima velocidade por mais de 25 quilômetros, especialmente com o colete de peso.
Mas, apesar de ter atingido seus limites há bastante tempo, Leo continuou correndo sem pausas, sem nunca ficar um passo atrás de Su Yang, até a volta número 50.
Quando chegaram à Volta 50, Su Yang finalmente sentiu o cansaço de correr 30 quilômetros bater com força, sua respiração ficou ofegante e a decisão de acelerar e quebrar seu ritmo inicial passou a pesar contra ele.
"Diz… o que… Garra do Céu, você… está sentindo isso já?" disse ele, com a voz dificultada pela respiração ofegante, enquanto olhava para Leo, que continuava correndo com um sorriso simples no rosto.
"Ah, para… de brincadeira… responde alguma coisa!" instigou Su Yang, forçando um passo à frente de Leo e olhando para o rosto dele.
Porém, o que viu fez-o cambalear de medo, perdendo o equilíbrio e caindo no chão com um escorregão nauseante e um baque alto.
O impacto percorreu uma onda de choque pelo corpo de Su Yang, mas ele mal sentiu. Sua mente ainda estava atônita com o que tinha acabado de presenciar.
Seu peito subia e descia enquanto ele se levantava de mãos apoiadas no chão, com os olhos fixos em Leo, que continuava correndo como se nada tivesse acontecido.
Mas aquilo não era normal.
Não era humano.
"Professor—!" a voz de Su Yang saiu rouca, quase um sussurro, enquanto se virava para Marvin.
Seu rosto estava pálido, a respiração curta e dificultosa, lutando para entender o que tinha acabado de ver.
Marvin, que acompanhava tudo de fora, levantou uma sobrancelha. "Se você quer que eu te deixe participar da corrida de novo, Yang, pode esquecer. Você pode terminar, mas vai cumprir a penalidade amanhã."
"Não é…
Su Yang rangeu os dentes, forçando-se a se levantar apesar das pernas trêmulas. Apontou para Leo, com os olhos dourados arregalados, quase incrédulo.
"Não é por mim… Olhe para ele!"
O olhar de Marvin passou para Leo, e o que viu fez sua expressão escurecer.
Sangue escorria do nariz de Leo em grossas trilhas crimsonas, manchando seu queixo e pingando na veste. Mais sangue tinha saído dos cantos da boca dele, escorrendo pela mandíbula em manchas desorganizadas.
Mas não era só isso.
Seu rosto—seu semblante—estava errado.
Um sorriso sanguinolento se curvava nos lábios dele, se estendendo facilmente, mesmo com sinais de dor física que seu corpo deveria estar exibindo.
E então, estavam seus olhos.
Ou melhor, a ausência deles.
Suas pupilas tinham sumido completamente, deixando para trás apenas olhos brancos, revirados, que encaravam o abismo.
Ele não estava consciente.
Isso era claro.
Mas, de algum modo, inesperadamente, ele ainda corria.
Um calafrio novo percorreu a espinha de Su Yang enquanto cerrava os punhos. Ele nunca tinha visto nada assim antes.
"Professor," sussurrou, com a voz mais baixa e carregada de algo próximo ao horror. "Ele não está acordado, mas ainda está correndo."
Marvin franziu ainda mais o cenho.
A forma de Leo ainda parecia perfeita, seus passos fluidos, seu equilíbrio permaneceu firme.
Mas não havia reconhecimento em seus movimentos. Nenhum controle.
Como se seu corpo tivesse simplesmente se recusado a parar.
Marvin amaldiçoou baixinho, ativando seus instintos.
"Garra do Céu!" gritou.
Sem resposta.
As pernas de Leo continuaram se movendo, a respiração ofegante, mas constante, seu corpo agindo por algo além da consciência.
"GARRA DO CÉU!" Marvin repetiu mais alto, com autoridade na voz.
Novamente, não houve resposta.
"Droga," murmurou Marvin, apressando-se para tentar impedir que Leo se machucasse ainda mais.
Não era apenas ele desmaiando de cansaço.
Não era só determinação que o fazia correr até agora.
Era algo diferente.
Su Yang limpou o suor da testa, as mãos ainda trêmulas.
Abriu os lábios como se fosse falar alguma coisa, mas engoliu a fala imediatamente.
Pela primeira vez desde que entrou em Rodova, ele sentiu isso.
Algo além da competição.
Algo além do talento.
Algo sobrenatural.
E, pela primeira vez na vida, sentiu um respeito genuíno por um colega.
"Que diabo tá acontecendo com esse cara?" disse, com os olhos arregalados, enquanto, por mais que buscasse dentro de si, não conseguia imaginar cenário em que continuaria correndo mesmo após desmaiar.
Nem mesmo se a vida dele estivesse em risco.