
Capítulo 3
Assassino Atemporal
Rugido. Rugido.
O carrinho de transporte trepidava violentamente, metal rangendo contra metal enquanto avançava por trilhos invisíveis. Cada solavanco fazia os passageiros se lançarem uns contra os outros, enquanto a luz fraca do teto piscava em protesto.
O ar estava carregado com o cheiro agudo de sangue, suor e algo químico. Correntes tilintavam suavemente nos cantos escuros, e risadas baixas e guturais se elevavam e se apagavam como um eco distante.
Batida.
A cabeça de Leo chocou contra o aço frio, e seus olhos se abriram de repente, enquanto uma dor ardente e intensa atravessava sua cabeça. Por um momento, tudo virou formas borradas e sombras manchadas, a tontura grudando nele como uma névoa pesada.
Sua respiração engasgou. Seu pulso ressoava forte em seus ouvidos, enquanto o raciocínio consciente finalmente regresava à sua mente.
'Onde... estou?' Leo se perguntou, enquanto a tênue luz tremeluzente do coche s iluminava brevemente os rostos opostos a ele — com sorrisos retorcidos e dentes afiados à mostra, em uma expressão entre diversão e fome.
Facas brilhavam fracamente em suas mãos, cobertas por uma substância viscosa e escura.
"Olha quem finalmente acordou," uma voz arrastada zombando, enquanto Leo via um dos homens no coche, encarando-o fixamente com a língua de fora.
O homem tinha a pele pálida, quase cinza, esticada tensa sobre ossos de bochechas afiladas e olhos fundos que brilhavam com uma leve expressão de divertimento. Uma cicatriz irregular cortava seu rosto diagonalmente, começando acima da sobrancelha e desaparecendo sob seu sorriso torto.
Mas não era a cicatriz ou o olhar vazio que fez a respiração de Leo travar — eram os chifres.
Chifres tortuosos e entrelaçados brotavam dos lados da cabeça do homem, curvando-se para trás como os de uma cabra-montês. Eram lisos, recortados por rugas, brilhando levemente sob a luz tremeluzente.
O peito de Leo apertou enquanto ele, instintivamente, recuava contra a parede de aço frio do carrinho. 'Chifres? Por que ele tem chifres?'
Seu olhar percorreu rapidamente o espaço apertado, vasculhando os outros passageiros, e um frio subiu pela coluna. As figuras ao seu redor — sete, curvadas, predatórias — também não eram inteiramente humanas.
Uma tinha a pele acinzentada-azulada, com veias brilhando suavemente sob a superfície. Outra tinha fendas serpentinas nos olhos, que piscavam com frieza e cálculo para Leo. Uma terceira, semioculta nas sombras, soltou um sussurro baixo e inumano, entre dentes pontiagudos.
Leo respirou mais rápido, seu coração batendo freneticamente no peito.
'Onde estou? O que é este lugar?'
Fechou os olhos com força, pressionando as pontas dos dedos contra as têmporas, tentando — desesperadamente tentando — lembrar.
'Como vim parar aqui? O que aconteceu antes disso?'
Mas, no momento em que tentou buscar essas respostas, uma dor aguda e ardente rasgou seu cérebro, como cacos de vidro fincados nele. Ele engoliu em seco, segurando a cabeça enquanto uma onda de náusea o invadia.
As memórias permaneciam evasivas, escondidas atrás de uma névoa de dor e confusão.
Quando a dor finalmente passou, Leo permaneceu ofegante, com o suor pingando na testa. Sua mente era uma folha em branco — um vazio escuro onde seu passado deveria estar.
Exceto por uma coisa.
Leo Skyshard.
Seu nome. Ele se agarrava a ele como um salva-vidas, seu único laço na confusão caótica de sua mente fragmentada.
Tudo o mais — o carrinho, os rostos tortuosos ao seu redor, a luz tremeluzente — tudo parecia estranho, como se ele tivesse entrado no pesadelo de alguém diferente.
Mas isso não era um sonho.
Era real. E o fato de ser real fazia Leo entrar em pânico ainda mais.
'Que porra de coisa está acontecendo aqui? Por que os rostos ao meu redor nem parecem humanos?' Leo se perguntou, enquanto sentia alguma coisa estalando na palma da mão esquerda.
Embora estivesse segurando aquele objeto por um tempo, Leo só percebeu sua existência quando apertou com força a mão esquerda e a textura finamente enrugada estalou suavemente sob seus dedos.
Lentamente, com cautela, desfez os dedos trêmulos, revelando um pedaço de papel amassado, amarelado, manchado com manchas tênues de algo escuro.
As bordas estavam gastas, e o papel parecia áspero e frágil, como se tivesse sido manuseado inúmeras vezes antes de chegar às suas mãos.
Com sobrancelhas franzidas, Leo cuidadosamente desdobrou o papel, enquanto uma escrita apressada e irregular, em preto borrado, se desenrolava diante dele:
"Você talvez não lembre, mas seu nome é Leo Skyshard, e você é um dos melhores assassinos da Terra, embora isso aqui no Planeta Rodova não faça tanta diferença.
Sua missão atual é passar no teste de entrada da academia.
Vença.
E você descobrirá as respostas que busca além dos portões da Academia.
Minha única dica é não confiar em ninguém e que fracassar na matrícula significa morte."
As palavras eram cortantes, finais, como uma sentença de morte gravada na pedra.
A respiração de Leo prendeu na garganta enquanto seus olhos permaneciam na última frase. Falhar significa morte.
Sua mão tremeu levemente ao reler a mensagem, seu pulso batendo forte contra as costelas. A Academia? Um teste? Sobreviver?
Nada fazia sentido, e, mesmo assim… algo profundo dentro dele — talvez um instinto primal — gritava que cada palavra daquela nota era a pura verdade.
'Sobreviver…'
Ele apertou a carta com mais força. Não sabia em quem confiar, que tipo de teste o aguardava ou onde ficava a tal Academia, mas tinha certeza de uma coisa: não podia fracassar.
Inspirando profundamente, Leo começou a dobrar o papel frágil de volta, formando um quadrado compacto, pensando em guardá-lo em um lugar seguro. Mas, antes que pudesse terminar, um som de sibilo agudo cortou o murmúrio baixinho do carrinho.
Tssst.
Uma gota de líquido espesso, brilhante, voou pelo ar abafado e caiu no canto do papel.
O efeito foi imediato.
FOGO!
Chamas de um laranja intenso surgiram no ponto de contato, consumindo o papel em segundos. Leo gritou, deixando-o cair ao sentir as pontas dos dedos queimar. O papel freneticamente ardeu e virou uma pilha de cinzas negras no chão do carrinho.
Do lado oposto, um dos passageiros — um homem magro, com bochechas ocudas e olhos em fendas serpentinas — abaixou um pequeno frasco de vidro cheio de um líquido verde reluzente. Seus lábios se curvaram em um sorriso sarcástico enquanto fazia um aceno zombando de Leo.
"Cuidado com segredos, cordeirinho," sussurrou o homem, sua voz escorrendo entre os dentes como fumaça. "Aqui, eles são mais perigosos que lâminas."
A mandíbula de Leo se travou enquanto olhava as cinzas fumegantes no chão. Qualquer pista fraca que aquela nota tinha lhe dado agora se foi.
Restaram apenas as palavras "Sobreviva ao teste".
E os olhares famintos das criaturas que dividiam o carrinho com ele.