
Capítulo 66
Extra da Webnovel: Reencarnado com uma Habilidade de Cópia
O sistema não lamentou Helin Varos.
Não precisavam.
Para eles, o luto era uma perda de rendimento — uma despesa emocional sem valor preditivo. Se um estudante colapsasse diante da ambiguidade, o sistema não o chamava de tragédia.
Chamava de calibração.
E, uma vez iniciada a calibração, ela não parava após um único dado.
Ela buscava confirmação.
Na manhã após o colapso de Helin, o Triângulo parecia normal.
Programavam-se cronogramas de treinamento.
Atualizavam-se quadros de classificação.
Instrutores rotacionavam com neutralidade treinada.
Até o barulho da cantina voltara — bandejas batendo, conversas sobrepostas, risadas forçadas um pouco alto demais.
Porém, por baixo, o campus se comportava como uma criatura após uma quase colisão.
Com cuidado.
Os estudantes não corriam mais pelos corredores. Caminhavam com passos comedidos, como se a velocidade pudesse atrair atenção. As conversas não cessavam quando Dreyden entrava — pior, mudavam.
As pessoas falavam ao redor dele agora, como se fosse uma estrutura que se navega, e não uma pessoa a quem se dirige.
Dreyden sentou-se sozinho no café da manhã, comendo lentamente.
Do outro lado da sala, Lucas tinha parado de se sentar no grupo “seguro”.
Ainda estava com Arlo — às vezes. Mas o jeito que Lucas se posicionava tinha mudado. Não isolando. Não alinhando. Apenas… angulando.
Como se ele estivesse mantendo uma porta aberta e vigiando outra.
Arlo percebeu primeiro. Sempre percebia. Suas piadas eram uma forma de sobrevivência; ele sentia quando o clima na sala ficava mais tenso.
"Você está fazendo aquela coisa de novo," murmurou Arlo.
Lucas não desviou o olhar do prato. "Que coisa?"
"Aquela… você. A de 'não tenho medo'." Arlo abaixou a voz. "Mas você está com medo mesmo assim."
Lucas expirou pelo nariz uma vez. "Não tenho medo."
Arlo encarou-o fixamente. "Isso é mais assustador."
Lucas não respondeu.
Porque Zagan não tinha dito uma palavra desde ontem à noite, e silêncio de algo antigo nunca era um bom sinal.
Dreyden não precisava de rumores para saber que o sistema preparava uma segunda demonstração.
Ele percebia nas anomalias de programação.
Nas pequenas.
Um exercício de baixo risco elevado a “ambiguidade estruturada”.
Dois instrutores remanejados sem aviso de reposição.
Um ambiente de avaliação de campo corrigido no meio do ciclo.
O Triângulo reconstruía sua gaiola.
Apenas mais silencioso.
E sempre que um sistema reconstrói uma gaiola, significa que pretende colocar algo dentro dela novamente.
A segunda demonstração não era dirigida especificamente a Dreyden.
Nem diretamente.
O sistema tinha aprendido algo com Helin: pressão direta não quebra a anomalia; quebra as pessoas.
Então, transferiram essa pressão para quem estava ao redor.
O ecossistema.
A órbita.
Se não podiam mover o ponto de referência, moveriam tudo até que ele não significasse mais nada.
Era essa a ideia.
O erro foi pensar que as pessoas eram variáveis simples.
A notificação chegou ao meio-dia.
Não era um anúncio público.
Uma atualização neutra na interface foi enviada para a Turma A e para o topo da Turma B.
PARECER PRÁTICO NO CICLO — FASE DOIS
CATEGORIA: Integridade na Decisão / Conflito de Recursos
FORMATO: Cenários Rotativos, Métricas ao Vivo
PARTICIPANTES: Obrigatórios
Sem “por quê”.
Sem “com qual objetivo”.
Apenas mais uma caixa, bem rotulada.
Dreyden leu uma vez, depois fechou.
Depois abriu de novo — não para reler, mas para verificar edições ao vivo.
Uma correção no formato da data.
Uma frase mais precisa.
Um objetivo reordenado.
Sim.
Eles ainda estavam ajustando.
Não por justiça.
Por resultado.
Mais tarde, Lucas o encontrou antes do início da avaliação.
Não foi planejado. Lucas não enviou mensagem.
Apenas apareceu na borda do salão de treinamento de Dreyden, como se o corredor tivesse o levado lá pela gravidade, e não por vontade.
Dreyden manteve as luvas. "Você chegou cedo."
Os olhos de Lucas varreram a sala. Vazio. Seguro. Silencioso.
"Detesto isso," disse Lucas.
Dreyden não fingiu entender diferente. "Sim."
"Estão fazendo de novo."
Dreyden assentiu. "Sim."
A mandíbula de Lucas se tensionou. "Mais alguém vai acabar esmagado."
"Provavelmente," respondeu Dreyden.
Lucas olhou para ele como se esperasse uma protesto, um plano, uma recusa heroica.
Dreyden não deu nenhuma das duas.
Não porque não se importasse.
Porque o sistema adorava uma resistência performática. Tornava tudo mais fácil de narrar.
Lucas engoliu em seco. "E vamos apenas… deixar acontecer?"
A voz de Dreyden permaneceu calma. "Nós não controlamos o que eles iniciam."
As mãos de Lucas se fecharam. "Mas controlamos o que aceitamos."
Isso era verdade.
E perigoso.
Porque Lucas começava a parecer alguém que já tomou uma decisão.
A avaliação começou às dezesseis horas.
Áreas transparentes.
Quadros de projeção ao vivo.
Métricas de latência de decisão em tempo real acima de cada equipe.
O Triângulo não buscava apenas resultados.
Queriam também saber como você chegou lá.
Queriam hesitação.
Queriam alinhamento.
Queriam prova de quem cedeu primeiro.
Estudantes rotacionaram por cenários criados para forçar conflito sem violência.
Duplas.
Um único recurso.
Objetivos simultâneos.
Suficiente para impedir sucesso de ambos.
Um projeto clássico.
Não para testar força.
Para testar o que as pessoas fazem quando vencer exige que alguém perca.
A primeira rotação de Dreyden foi discreta.
Terminou o cenário com o mínimo de fala, desvio ou pico.
Seu parceiro — um suporte cuidadoso — ficava pedindo permissão.
Dreyden não respondeu.
Apenas agiu.
Terminou.
Saiu.
O sistema marcou como "estável".
Era mentira, mas era o tipo de mentira que instituições usam para se confortar.
A segunda rodada foi onde tudo aconteceu.
Não para Dreyden.
Para alguém mais.
Turma B — Ronda 6
Cenário: Autoridade Distribuída / Objetivo Dividido
Métrica principal: Integridade na Decisão sob Prioridades em Conflito
O estudante chamava-se Maren Kel.
Turma B.
Classificação 39.
Tipo de energia: manipulação à base de água.
Não famosa. Não forte.
Mas ela tinha uma coisa que Helin não tinha.
Um hábito de pensar.
Esse hábito foi o motivo de o sistema ter escolhido ela.
Pensar criava atrito.
O atrito podia ser medido.
Maren entrou na arena com três colegas de equipe.
Estavam nervosos, mas compostos, como estudantes que já tinham visto alguém desabar e sobreviverem também.
Acenou-se o cenário: um quarteirão simulado com dois objetivos críticos.
Objetivo A: estabilizar um nó de barreira prestes a rachar.
Objetivo B: recuperar um núcleo selado de uma estrutura em colapso.
O problema era o recurso.
Recursos de energia não eram suficientes para os dois ao mesmo tempo.
Sem sacrifício.
A equipe de Maren fez o que a maioria faz.
Tentaram fazer os dois ao mesmo tempo.
Dividiram a produção.
Negociaram em frases incompletas.
Discutiram o cenário como se fosse injusto, e não intencional.
Então, o cenário apresentou a mesma contradição que Helin enfrentou:
Dois prompts de prioridade igual.
Sem permissão de sobreposição.
Escolha.
Agora.
Maren parou. Não porque congelou, mas porque olhou para o painel de métricas flutuante.
Percebeu o que o sistema estava fazendo.
Viu a armadilha.
E então — calmamente, claramente — falou:
"Parem," disse ela à equipe.
Eles hesitaram. "O quê?"
Maren apontou. "Este cenário foi feito para forçar uma falha. Quer uma ruína."
Um colega, tomado de pânico, gritou: "Não temos tempo pra—"
"Temos sim," interrompeu Maren, com voz aguda. "Se fizermos o que ele quer, alguém vira o exemplo."
A palavra exemplo cortou como uma lâmina.
Todos ouviram falar de Helin.
Ninguém pronunciou o nome em voz alta.
Porém, ele agora morava na garganta de todos, como uma pedra engolida.
A equipe de Maren olhou para ela, em silêncio, e, nesse instante, o sistema conseguiu o que queria:
discordância.
Maren fez a jogada errada.
Não moralmente.
Operacionalmente.
Ela buscou a brecha do sistema.
Ela tentou driblar o projeto.
E isso a fez hesitar na estreita janela pela qual o cenário tinha sido construído.
O nó da barreira hesitou.
O edifício ruiu.
O ambiente simulado gerou retaliação real.
A energia da água de Maren se elevou reflexivamente para estabilizar —
E a contradição se quebrou.
Não por explosão.
Por um bloqueio limpo e silencioso.
A interface dela piscou.
Depois ficou em branco.
Ela não desmaiou imediatamente.
Tropeçou.
Segurou-se.
Seus olhos ficaram desfocados, como se seus pensamentos tivessem sido rearranjados.
Depois, sentou-se bruscamente, como se seu corpo tivesse decidido que ficar de pé exigia demais de sua concordância com o mundo.
Seus colegas gritavam por seu nome.
Instrutores correram.
Médicos entraram.
O cenário foi encerrado.
O ambiente ficou em silêncio.
Não por tédio.
Por medo que aprendeu a precisão.
As métricas do sistema de supervisão permaneceram por três segundos a mais do que o normal.
Tempo suficiente para que todos que assistiam leiam o texto vermelho acima do nome de Maren:
LATÊNCIA DE DECISÃO: 1,41s — CRÍTICO
RESULTADO: FALHA NA ESTABILIDADE DO SISTEMA
SUSPEITO: DESVIO DE INTEGRIDADE
Depois, a tela se reiniciou.
Como se a mensagem nunca tivesse existido.
Porém, dezenas de estudantes viram aquilo.
E estudantes não são registros.
Carregam informação.
Carregam significado.
Carregam ressentimento.
Os espectadores não aplaudiram.
Isso teria sido fácil de controlar.
Em vez disso, a arena encheu-se de um outro tipo de ruído.
Sussurros.
Raiva presa entre os dentes.
Estudantes indo embora sem permissão.
Pequenos grupos se formando nos corredores.
Não ao redor de Dreyden.
Ao redor do vazio mais uma vez.
Ao redor do vazio que o sistema de supervisão tinha criado.
Porque vazios não permanecem vazios.
Tornam-se território.
Lucas olhou os médicos levando Maren para fora.
Sua garganta apertou.
Zagan finalmente falou, com voz silenciosa como lâmina saindo da bainha.
Viu?
Segunda demonstração.
Lucas não piscou. "Fizeram de propósito."
Sim.
As mãos de Lucas se fecharam. "E as pessoas viram."
Sim.
Lucas engoliu em seco. "E agora?"
A resposta de Zagan foi calma.
Agora o sistema decide se o medo ainda funciona.
Lucas virou a cabeça, vasculhando a multidão.
Ele viu.
Não medo.
Não conformidade.
Algo mais difícil.
Algo mais antigo.
Uma espécie de repúdia coletiva que instituições nunca conseguem entender completamente, porque não se trata de lógica.
É sobre dignidade.
Dreyden não se moveu durante o incidente.
Não hesitou.
Não desviou o olhar.
Seu calmaria não era indiferença.
Era cálculo.
Porque no momento em que reagisse, o sistema marcaria sua reação como causalidade.
Ele seria culpado.
E o sistema adorava culpar anomalias — tudo voltava a ficar limpo.
Assim, Dreyden manteve a face neutra.
E observou a única parte que realmente importava:
como o público se comportaria depois.
Estudantes não corriam em direção à segurança.
Não dispersavam.
Não olhavam para os instrutores em busca de segurança.
Se agrupavam.
Silenciosamente.
Naturalmente.
Como se a gravidade tivesse criado seu próprio mapa.
Raisel apareceu ao lado de Dreyden no corredor, com a expressão mais fria do que o habitual.
"Não é treinamento," ela disse.
"Não," respondeu Dreyden.
"Estão destruindo as pessoas," ela continuou.
"Sim."
Os olhos de Raisel estreitaram. "E você ainda não se movimenta."
Dreyden olhou para ela. "Estou me movendo."
O tom de Raisel se tornou mais severo. "Para onde?"
A voz de Dreyden continuou firme. "Em direção ao controle da moldura."
Raisel soltou um riso suave. "Está tratando isso como narrativa."
"É narrativa," afirmou Dreyden. "E o sistema está perdendo o controle."
Os lábios de Raisel apertaram-se numa linha fina.
"Tenha cuidado," ela avisou.
Sorriso leve de Dreyden não alcançou os olhos. "Sempre."
Maya observava de fora do Triângulo.
Não por câmeras.
Pela divergência.
Pela densidade de resposta.
A queda de Maren gerou a reverberação errada.
Ela não levou à conformidade.
Levou à coesão.
Os dedos de Maya pairaram sobre sua interface.
Ela não precisava intervir.
Ainda não.
Este era o momento que os sistemas temem:
quando a punição deixa de gerar obediência e passa a gerar solidariedade.
Maya sussurrou na sala silenciosa, quase divertida:
"Bom."
Então, ela fez um pequeno ajuste.
Não para o Triângulo.
Para uma única rota de comunicação.
Um vazamento limpo.
Uma exposição controlada.
Na medida certa.
Naquela noite, um vídeo anônimo apareceu nos canais privados dos estudantes.
Não a queda em si.
Algo pior.
Os três segundos de texto vermelho acima do nome de Maren antes do painel reiniciar.
LATÊNCIA DE DECISÃO: 1,41s — CRÍTICO
SUSPEITO: DESVIO DE INTEGRIDADE
Propagou-se sem comentários.
Pois comentários o tornariam uma discussão.
O vídeo não discutia.
Mostrava.
Na madrugada, a geometria social do Triângulo mudou.
Pela primeira vez desde que Dreyden chegou, estudantes pararam de fingir que neutralidade era segurança.
Grupos da Turma B se fortaleceram.
Estudantes da Turma C começaram a participar do mesmo horário de treinamento em grupos.
Até a turma A — composta por privilegiados dentro da hierarquia — passou a fazer perguntas com menos voz.
Não "o que Dreyden pode fazer?"
Mas "o que o sistema vai fazer conosco se hesitarmos?"
E, uma vez feita essa pergunta, o sistema já tinha algo a perder.
Perdeu a ilusão de que o sistema era justo.
Lucas reencontrou Dreyden naquela noite.
Não no salão de treinamento.
Na passarela superior, que dava vista às luzes da cidade.
Lucas encostou-se no corrimão, com o vento frio no rosto.
"Eles vazaram as métricas," disse Lucas.
Dreyden não negou. "Sim."
"Você fez isso?"
A voz de Dreyden foi calma. "Não."
Lucas olhou fixo para ele.
A presença de Zagan se agitou.
A percepção de sorte de Lucas tremulou — não cores, nem probabilidades — apenas estática.
Algo por trás do sistema.
Algo que não queria ser rotulado.
Lucas engoliu em seco. "Então ela fez."
Dreyden não respondeu.
Que foi uma resposta.
Lucas apertou a mandíbula. "Vai por água abaixo."
"Sim," concordou Dreyden.
Lucas exalou com força. "E o que você vai fazer?"
Dreyden olhou para a cidade.
Sua voz foi baixa. "Vou garantir que a explosão aconteça na direção certa."
Lucas franziu os olhos. "Isso não é um plano."
"É um princípio," respondeu Dreyden. "Planos podem ser roubados."
Lucas olhou para ele por um longo momento, depois balançou a cabeça, quase rindo.
"Você é insano."
Sorriso discreto de Dreyden voltou. "Não. Estou adaptado."
Nessa noite, o arquivo Mandarin foi atualizado novamente.
Não com um aviso.
Não com uma pergunta.
Com uma afirmação.
Eles vão tentar uma terceira vez.
E dessa vez, não vão escolher alguém inofensivo.
Dreyden olhou para o texto.
Sua respiração desacelerou.
Digitou lentamente: "Quem são 'eles'?"
A resposta veio mais rápido do que deveria.
Aqueles que não suportam um ponto de referência que não seja o deles.
Os dedos de Dreyden pairaram acima do teclado.
Então escreveu uma frase e salvou.
“Depois, vou ensinar o que isso custa.”
No dia seguinte, o Triângulo acordou fingindo que nada havia mudado.
Porém, todos podiam sentir.
A atmosfera mudou.
Não algo mágico.
Social.
Narrativo.
Um tipo de mudança que acontece pouco antes de instituições fazerem algo irreversível — porque, depois que o medo deixou de funcionar, só sobraram duas opções:
forçar ou reformar.
E o Triângulo nunca fora feito para reformar.
Dreyden deixou o dormitório sem pressa.
Lucas entrou ao seu lado sem perguntar.
Não porque fossem amigos.
Porque a proximidade se tornou uma escolha.
E Lucas fez a sua.
Raisel observou-os do outro lado do corredor, expressão impassível.
Estudantes agrupados à distância — não fugindo agora, mas observando, medindo, recalibrando.
Dreyden não olhou para trás.
Não precisava.
Sentia o sistema por trás das paredes, ajustando-se novamente.
Procurando por um terceiro exemplo.
Mais severo.
Mais limpo.
Mais eficaz.
Boca de Dreyden formou uma leve, sem humor, sorriso.
"Tente," murmurou.
Porque, desta vez, o sistema não era a única coisa se preparando.