O Extra é um Gênio!?

Capítulo 500

O Extra é um Gênio!?

Passaram-se dois dias desde que se separaram dos outros.

O edifício onde buscaram abrigo se erguia mais alto do que a maioria ao seu redor, uma construção imponente com uma ampla escadaria interna que atravessava o centro como uma espinha dorsal. Marcus e Roberto estavam sentados nos degraus na metade da escada, longe o suficiente da rua para não atrair atenção, mas perto o bastante para se moverem, se necessário. Nenhum dos dois falou. Nenhum deles desperdiçou energia. A cidade lá fora estava silenciosa do jeito que apenas lugares hostis eram — não vazia, apenas esperando.

Eles não tinham nenhuma informação. Nenhum sinal. Nenhuma pista de como os outros estavam se saindo.

Roberto, diferente de Marcus, não conseguia ficar parado. Arrastava uma vareta fina de um lado para o outro na terra que se acumulara nos degraus de pedra, riscando linhas inativas na superfície, apagando-as, e fazendo isso de novo. Não era exatamente nervosismo, mais uma inquietação sem destino, como se não houvesse lugar para ir.

Marcus o observou por alguns segundos antes de, finalmente, quebrar o silêncio.

"Como você acha que os outros estão indo?"

Roberto levantou a cabeça lentamente. Seu rosto parecia cansado, mais desgastado do que o normal, mas, quando sorriu, veio facilmente, o que trouxe uma sensação de familiaridade que aliviou algo no peito de Marcus.

"Acho que estão bem," disse Roberto. "Não há como termos saído desta ilha inteiros e eles não."

Ele recostou-se um pouco, apoiando as mãos no degrau atrás dele.

"Se pensar bem, provavelmente passaram pelo mesmo que a gente," acrescentou. "Só… em outro lugar."

Marcus soltou um suspiro que nem tinha percebido estar segurando e assentiu.

"Fico feliz que pense assim," disse. "Isso ajuda, honestamente."

Ele massageou a parte de trás do pescoço, o olhar desviando para a escadaria.

"Na minha cabeça, não paro de imaginar o pior," continuou Marcus. "Nós encarando o Segundo Pilar sozinhos."

Ele soltou uma risada pequena, sem humor.

"Seria complicado sem o Noel."

A vareta de Roberto parou.

"Segundo Pilar," murmurou, quase inaudível.

Marcus virou a cabeça.

"Hã?" perguntou. "Você disse alguma coisa?"

Roberto piscou, depois olhou para cima novamente, sua expressão se suavizando quase que instantaneamente.

"Ah, não," disse ele. "Só repetindo o que você disse."

Ele fez uma breve reverência com a cabeça.

"É… seria difícil sem o Noel," acrescentou Roberto. "Nós realmente precisamos dele."

Por um momento, seu olhar caiu até o chão entre os pés.

"Mas não podemos ficar aqui parados," falou em tom baixo. "Já se passaram dois dias."

Marcus se levantou, esticando os braços até ouviu as juntas estalarem.

"Você tem razão," disse. "Temos que nos mexer."

Ele olhou para além de uma janela quebrada em direção à cidade ao longe.

"Se sua teoria estiver certa, eles estão em outras ilhas como a gente," continuou Marcus. "Este lugar está cheio delas."

Ele virou-se de volta para Roberto.

"Vamos de ilha em ilha."

Houve um breve silêncio antes de Marcus fazer a pergunta que vinha rondando sua mente há algum tempo.

"Você acha que eles pensaram na mesma coisa?"

Roberto olhou para ele e sorriu.

"Sim," respondeu. "O Noel, com certeza, pensou."

As palavras estavam certas.

O sorriso não.

Marcus percebeu imediatamente. Falta-lhe a acolhida calorosa que Roberto costumava carregar com tanta naturalidade, a autoconfiança fácil, o humor silencioso. Este, entretanto, parecia mais tênue, como algo desgastado por ser esperado do que realmente sentido.

Marcus não disse nada.

Apenas anotou, guardou na memória e virou-se na direção das escadas que desciam para a cidade.

Eles partiram com cuidado pela cidade.

As ruas se estendiam mais longe do que Marcus imaginava, avenidas largas cortando entre prédios altos cujos andares superiores se perdiam na névoa e na poeira dispersa. Não era um grupo de ruínas ou um distrito meio abandonado. Era uma cidade completa, vasta e densa, construída para abrigar dezenas de milhares no auge. Pelo que Marcus conseguiu perceber enquanto avançavam, ela ficava mais próxima da ilha central do que qualquer outra que haviam visto até então.

Quase pegando demais.

"Este lugar é enorme," murmurou Marcus, os olhos varrendo o horizonte enquanto se moviam de cobertura em cobertura.

Roberto demorou a responder. Sua atenção estava em outro lugar, acompanhando movimentos que não se alinham exatamente com o instinto.

"Não é só grande," disse após um momento. "Está mal posicionado."

Marcus o olhou. "Como assim?"

Roberto fez um gesto vago na direção da frente. "A ilha mais próxima do centro," explicou. "E a segunda maior também. Isso não é coincidência."

A compreensão se assentou enquanto seguiam em frente.

A cidade não estava deserta.

Monstros movimentavam-se pelas ruas e entre os prédios em números muito superiores aos que tinham visto antes, mas o que chamou a atenção de Marcus não foi a quantidade. Foi o padrão. Grupos patrulhavam as esquinas. Outros permaneciam perto de estruturas importantes, agrupados ao redor de praças colapsadas e grandes praças abertas. Eles não estavam vagando sem direção; estavam em posições estratégicas.

"Desde quando eles fazem isso?" murmurou Marcus.

A expressão de Roberto permaneceu inalterada. "Nunca fizeram, não antes."

À medida que avançavam, o ar ficava mais denso. A mana pressionava contra os sentidos de Marcus, não de forma violenta, mas persistente — como um peso que não devia estar ali. Era uma sensação desconfortavelmente familiar, semelhante ao que sentira na ilha anterior, uma presença que fazia o chão parecer menos estável debaixo dos pés.

"Isso parece errado," disse Marcus baixinho.

Roberto assentiu uma vez. "Sim."

Continuaram avançando até que os prédios se espalharam e a rua se abriu numa vasta praça, com o chão de pedra rachado e queimado, como se algo enorme tivesse passado por ali recentemente. Ao entrarem na área aberta, a pressão mudou.

O ar se comprimiu.

A mana passou a fluir de forma diferente.

Marcus sentiu imediatamente, a mudança tão aguda que fez a pele arrepiar.

Algo se moveu ao fundo da praça.

O movimento ao longe não se dirigia até eles.

Ele simplesmente permanecia de pé.

Marcus sentiu antes de vê-lo claramente, a pressão se acomodando no peito como uma nota errada que não desaparecia. A silhueta se endireitou entre as pedras quebradas, alta e irregular, metal e algo mais escuro sobreposto, em uma combinação que fazia seus instintos gritarem. Correntes se moviam ao longo do corpo dele, arrastando-se suavemente pelo chão enquanto ele se voltava para encará-los.

"… Isso não é normal," sussurrou Marcus.

Roberto não respondeu. Seus olhos fixavam-se à frente, expressão indecifrável.

O Guardião do Fragmento deu um único passo.

O chão respondeu.

Pedra rachou debaixo do pé dele, uma ondulação rasa se espalhou pelo solo enquanto a mana pulsava pela área. Marcus sentiu a pressão subir instantaneamente, de forma limpa e estável, na pior maneira possível.

Sabia que era de nível arquimago.

Ele respirou fundo, de repente.

"Tá bom," falou, mexendo os ombros enquanto uma faísca de calor se acendia ao redor de suas mãos. "Acho que não vamos passar despercebidos agora."

O Guardião se moveu novamente, mais rápido desta vez.

Marcus reagiu por instinto.

"Ataque Luz Áurea."

Uma rajada curta de fogo azul atravessou a praça e explodiu ao atingir o torso do Guardião, a explosão afiada e contida. As chamas varreram metal e correntes, forçando a estrutura a se preparar enquanto fragmentos de pedra se espalhavam em todas as direções. Funcionou, pelo menos parcialmente. O Guardião desacelerou por meia segundo.

Ele passou pelo fogo e acelerou a aproximação, braço se recuando para um golpe forte e direto.

Marcus pisou forte.

"Escudo de Pedra."

Rocha ergueu-se na sua frente justo no instante em que o golpe atingiu. O impacto quebrou o escudo em uma chuva de fragmentos, a força o empurrando alguns passos para trás enquanto o chão cedia sob seus pés.

"Tch—!"

Ele desviou do golpe seguinte, o calor escaldando sua pele enquanto reforçava o corpo.

"Pele Derretida."

Calor azul e terra envolveram seu corpo, o ar tremulando enquanto ele se equilibrava.

O Guardião não parou. Correntes se tensionaram enquanto avançava de novo, implacável.

Marcus rangeu os dentes e contra-atacou.

"Explosão de Pedra."

O solo sob o Guardião explodiu, fragmentos cortantes de rocha saíram para cima, fazendo-o cambalear uma passada para trás. Marcus não perdeu tempo.

"Pilar Flamejante."

Uma coluna de fogo azul se ergueu de baixo do constructo, envolvendo-o numa explosão vertical que sacudiu a praça. Pedra derreteu. O ar ficou deformado. Por um momento, o Guardião desapareceu dentro das chamas.

Marcus respirou fundo, exausto.

Então o fogo se dividiu.

O Guardião saiu de dentro dele, armadura rachada, mas inteira, fluxo de mana constante como sempre.

“…Você deve estar brincando comigo.”

Luz piscou ao lado dele.

Roberto se moveu.

Não foi dramático. Sem gritos. Sem preparação. Apenas um passo limpo adiante enquanto uma luz pálida se reunia ao redor de sua mão, afiada e concentrada.

"Lumen Sopra."

Uma lâmina de luz condensada avançou rapidamente, cortando o ar e atingindo o Guardião de cheio, empurrando-o alguns metros para trás. O impacto abriu uma linha luminosa em seu armor, as correntes se soltando enquanto a estrutura se enfiava na pedra para parar-se.

Marcus apenas observou.

"Funcionou?" perguntou, com a boca seca.

Roberto já respirava com maior esforço, os ombros seErguendo e descendo com um esforço que parecia maior do que deveria.

"Não se empolga," avisou Roberto, forçando um leve sorriso. "É mais resistente do que parece."

O Guardião se recuperou rapidamente, mana pulsando enquanto se endireitava novamente. A pressão na praça aumentou, mais intensa agora, mais concentrada.

Marcus apertou as mãos com força, o calor se intensificando ao seu redor.

"Vamos lá," disse. "Não podemos deixar que defina o ritmo."

Plantou os pés.

"Terra Sacudida."

O chão respondeu ao comando, e Marcus se lançou para frente, batendo forte e enviando uma linha de rochas pontiagudas em direção ao Guardião.

Simultaneamente, luz voltou a se reunir ao lado de Roberto, mais brilhante do que antes, pulsando uma vez como se estivesse contida, pronta para explodir.

O combate tinha começado.

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